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04 Abr 2020

NOJO, REPUGNÂNCIA

Escrito por 

É, exatamente, desse conflito entre as dimensões da inteligência e da razão do homem que autores que se debruçam sobre o tema, em razão de suas convicções pessoais, apontam o surgimento do “pecado” ou do “crime”.

 

Meus amigos.

Entre as dezenas de livros escritos por HUBERTO ROHDEN, filósofo catarinense, que, por diversas vezes, identifiquei como meu filósofo de referência, há um que reputo como fundamental para ser lido e compreendido – O HOMEM – Sua natureza, sua origem e sua evolução (Editora Martin Claret – 3ª Edição).
Logo no prefácio, Rohden cita Einstein, com quem conviveu entre 1945 e 1946 na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, sobre quem escreveu um de seus livros – Einstein – O enigma do universo (1981), ao reeditar reflexão do cientista – filósofo, que afirmara: “ do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores”.

Ao propor a discussão sobre o processo evolutivo do homem, Rohden cita Teilhard de Chardin, outro religioso com quem se identifica na proposição dos postulados da Filosofia Univérsica, ao definir que o homem, no seu processo evolutivo, passou do estágio inicial da “hilosfera” (material), para o da “biosfera” (vida), daí para o da “noosfera” (inteligência) a caminho da “logosfera” (razão).

É nesse contexto que se mostra necessário que se compreenda que, no estágio atual, o homem experimenta conflito, seja entre suas realidades do estágio anterior (biosfera x noosfera), bem como entre suas realidades futuras (noosfera x logosfera).

Quando um cidadão, talvez premido pela pressa, avança um sinal de trânsito, tem absoluta consciência de que está fazendo algo que sabe estar errado segundo acordado pela coletividade que integra. Certamente, se questionado, sua dimensão da noosfera (sua inteligência) saberá encontrar algumas explicações para justificar seu ato. Ato esse, que sua dimensão da logosfera (razão) sabe estar errado. Caso esse mesmo cidadão assistisse alguém avançando um sinal, muito provavelmente, teceria comentário censurando o comportamento do infrator.

É, exatamente, desse conflito entre as dimensões da inteligência e da razão do homem que autores que se debruçam sobre o tema, em razão de suas convicções pessoais, apontam o surgimento do “pecado” ou do “crime”.

O que se pretende tratar nesse artigo, com base nas considerações anteriores é que o que parece merecer ser alvo de reflexão não deva ser o ato em si, mas a motivação que gerou o ato.

Nesse contexto Rohden insiste em propor que “mais importante do que fazer o bem, é ser bom”.

Assistir alguém dando uma esmola a um pedinte, pode sugerir que se está diante de um misericordioso. No entanto, o doador, pode, por perceber estar sendo observado, decidir pelo ato para, exatamente, gerar essa impressão, na expectativa de que o fato possa lhe ser útil no futuro. Nesse caso, sua motivação desqualificaria seu ato.

A partir de tudo o que se buscou submeter à reflexão do prezado leitor, parece pertinente, a essa altura, convidar para a avaliação da diferença em que se colocam atos censuráveis, em função da motivação do seu agente.

Imagine, inicialmente, uma mãe desesperada diante da circunstância de ter, em casa, seus filhos famintos e, diante da possibilidade surgida de se apoderar de umas bananas na feira, ceder à tentação e errar.

Compare, agora, a atitude dessa mãe com a de um executivo de grande empresa, muito bem de vida, pertencendo ao extrato social mais elevado da sua coletividade, com formação intelectual e acadêmica excelente, tendo a oportunidade de forjar uma situação que o leve a se beneficiar financeiramente, em detrimento da empresa que lhe dá emprego. Em conluio com outros integrantes da empresa, ele decide pelo erro.

Muito bem, deixando o campo especulativo, teórico, considere-se, agora, o comportamento de significativa parcela de integrantes do nosso Congresso, do nosso Judiciário e da mídia do país.

O que se tem assistido? Indivíduos e empresas, se comportarem de forma indefensável do ponto de vista ético, moral.

Um, ontem, defendeu uma causa, em discurso inflamado, justificando suas convicções a partir de reflexões definidas como inalienáveis. Hoje, sem o menor pejo, assume postura inversa, defendendo com a mesma veemência causa antagônica, em inacreditável contrassenso.

Inimigos ontem, amigos inseparáveis hoje.

Informações distorcidas, mentirosas, veiculadas propositalmente incompletas, para induzir a sociedade a assumir como referência fatos e/ou atos que favoreçam poder ser manipulada nessa ou naquela direção no futuro.

Comportamentos propositalmente falsos. Discursos conscientemente mentirosos. Decisões adotadas, absurdamente, à revelia da legislação, a partir de argumentação sabidamente inconsistente.

Esses indivíduos ao se comportarem dessa forma, estão absolutamente conscientes de que estão agindo de modo injustificável à luz da razão, mas isso não os constrange ou os impede.

O triste é que essas coisas acontecem porque seus autores perderam definitivamente o respeito pelos seus concidadãos. Concidadãos que, acreditando nas suas súplicas pela oportunidade de defenderem os interesses da sociedade, os guindaram aos postos que ocupam, e pelos quais são regiamente pagos.

A lógica desses indivíduos e das empresas que os apoiam é de que a população é composta por idiotas, despreparados, sem referências que lhes permitam ter capacidade de identificarem estar sendo enganados.
Constituem um bando a ser domesticado e conduzido qual cordeiros na direção que se mostrar mais conveniente aos que pretendem assumir eternamente o poder político do país.

Prezado leitor, não se pode admitir que esses indivíduos e essas empresas não tenham a mais absoluta consciência de que estão cometendo crimes. São criminosos e sabem disso perfeitamente. Aceitam ser criminosos, na medida em que, assim se comportando, estarão se beneficiando pessoal e grupalmente.

Essas reflexões me lembram meu pai. Quando desejava registrar sua indignação pelo comportamento abjeto de alguém, dizia: “esse bandido (ou esse moleque) não merece o prato de comida que come”.

Fico aqui pensando: quanta comida se poderia estar economizando caso se colocasse essa corja para fora de seus cargos. Só depende do povo.

Dias atrás me manifestei a respeito de que adjetivos se deveria atribuir a essa gente no artigo Adequação Semântica.

Hoje, me pergunto que sentimento, que sensação nos invade, quando pensamos nesses párias.

De pronto, me vem à mente: nojo, repugnância.

Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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