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03 Abr 2020

BOLSONARO TEM MÉTODO

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O modelo adotado é o mesmo que o levou ao Planalto, que se insere na capacidade de nadar contra a maré e ao final encontrar redenção em uma onda a seu favor.

 

Bolsonaro executou uma manobra política altamente arriscada. O modelo adotado é o mesmo que o levou ao Planalto, que se insere na capacidade de nadar contra a maré e ao final encontrar redenção em uma onda a seu favor. Foi assim durante os anos no Parlamento e permanece o mesmo em sua condução presidencial, em especial durante a crise ocasionada pelo novo coronavírus.

Ao unir setores da sociedade contra seu discurso, consegue mostrar-se como aquele político contrário ao sistema, descolado da opinião geral, ao mesmo tempo que articula para que seu governo possua diferentes vetores, ocupando espaços diversos do debate político. Ao enfrentar a política proposta pelo seu próprio governo, consegue ocupar dois planos do debate, agindo como condutor, mas também opositor de sua própria administração.

Pode soar disfuncional, mas faz sentido dentro da lógica política intuitiva do capitão. Dessa forma, mantém o Ministério da Saúde aliado aos procedimentos adotados internacionalmente ao mesmo tempo que surge como questionador da mesma política, usando a retórica da defesa da economia e do emprego.

Isso tem método. Ao manter um pé em cada canoa, mostra-se dúbio para parcela da população, entretanto, diante de outra parte surge como uma liderança preocupada com a sociedade.

É claro que Bolsonaro sabe que sua presidência depende da economia e que os efeitos da crise sanitária podem arrasar com seu projeto de “refundar a política e redirecionar a República”. Ao enfrentar uma brutal retração da economia neste ano e incapaz de criar maioria no Parlamento para aprovar as reformas necessárias que impulsionem o crescimento, o caminho da reeleição fica comprometido. Seu governo precisa de ganhos econômicos robustos para atingir esse objetivo.

O método vai além e, quando confronta as duras e necessárias políticas sanitárias adotadas pelos governadores, credencia-se como a única voz dissonante neste processo, pronta para acusar esses líderes políticos pela debacle econômica do País, eximindo sua presidência de qualquer culpa desse processo.

Isso significa que ao mesmo tempo que a imprensa segue estarrecida reverberando a insensatez presidencial diante dos princípios da racionalidade, Bolsonaro busca credenciar-se no longo prazo. Ao fazer essa aposta arriscada, enxerga o cenário como uma corrida de longa distância, enquanto seus adversários fazem o contrário. Assim, chegou ao Planalto.

Ao comprar brigas com governadores, imprensa e setores da sociedade civil, Bolsonaro mais uma vez apresenta-se como outsider, tentando manter o controle da narrativa. Ao acusar os políticos de fazer política, está fazendo política com essa crise mais do que todos eles juntos.

Assim, os modelos tradicionais de resolução de crise passam ao largo deste governo. A montagem de um gabinete, nos moldes daquele montado pelo governo Fernando Henrique Cardoso durante a crise energética ou pelos governadores diante da emergência atual, não condizem com a narrativa buscada por Bolsonaro. A disfuncionalidade e o confronto têm método, por mais irracional que isso possa parecer.

O presidente faz um jogo arriscado e calculado. Ao confrontar a política, mostra-se como um outsider. Ao atacar governadores, joga em cima destes o ônus da crise. Ao confrontar a ciência, faz inversamente o jogo da prevenção na pasta da Saúde. Ao defender a economia, confronta esta com a ciência. Ao provocar a sociedade, toma controle da narrativa. Nesta dinâmica, nada cairia melhor do que um processo de impeachment, um instrumento que turvaria os olhos da sociedade diante da economia e acenderia a chama do confronto. Bolsonaro tem método.

Márcio Coimbra

Márcio Chalegre Coimbra, é advogado, sócio da Governale - Políticas Públicas e Relações Institucionais (www.governale.com.br). Habilitado em Direito Mercantil pela Unisinos. Professor de Direito Constitucional e Internacional do UniCEUB – Centro Universitário de Brasília. PIL pela Harvard Law School. MBA em Direito Econômico pela Fundação Getúlio Vargas. Especialista em Direito Internacional pela UFRGS. Vice-Presidente do Conil-Conselho Nacional dos Institutos Liberais pelo Distrito Federal. Sócio do IEE - Instituto de Estudos Empresariais. É editor do site Parlata (www.parlata.com.br) articulista semanal do site www.diegocasagrande.com.br e www.direito.com.br. Tem artigos e entrevistas publicadas em diversos sites nacionais e estrangeiros (www.urgente24.tv e www.hacer.org) e jornais brasileiros como Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Zero Hora, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, O Estado do Maranhão, Diário Catarinense, Gazeta do Paraná, O Tempo (MG), Hoje em Dia, Jornal do Tocantins, Correio da Paraíba e A Gazeta do Acre. É autor do livro “A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos brasileiro e norte-americano”, Ed. Síntese - IOB Thomson (www.sintese.com).

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