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03 Abr 2020

O HORROR

Escrito por 

É preferível um fim horroroso ou um horror sem fim na situação tão grave e dolorosa que enfrentamos?

 

Ensinou-me ilustre e estimado chefe que no Exército, como na vida, às vezes temos que optar entre um fim horroroso ou um horror sem fim. E que antigo ditado alemão ensina que é preferível um final horroroso do que um horror sem fim.
Inundado em informações verdadeiras ou não sobre o flagelo da pandemia do coronavirus, lembrei-me dessa lição.
A atual discussão entre a necessidade de prolongar a quarentena, batizada de afastamento social, ou retomar a combalida atividade econômica, permite-nos pensar a respeito.
Prolongar a quarentena pode, a médio prazo, diminuir o número de mortes, pois mais doentes graves poderão ter atendimento hospitalar. Se tal não for feito, o crescimento exponencial de casos graves vai rapidamente esgotar a capacidade dos hospitais e dos profissionais de saúde, muitos já doentes ou fisicamente debilitados.
Por outro lado, o alongamento do período de contágio pode permitir que o agente infeccioso atinja áreas ainda não alcançadas, aumentando, no total, a quantidade de atendimentos necessários para casos graves.
Ninguém tem a resposta, milagrosa, mas as perguntas não faltam.
Será o horror sem fim?
Quanto tempo ainda aguentará a economia, com empresas fechadas, produção declinante, funcionários em licença sub-remunerada ou nem isso?
Quantas empresas conseguirão reerguer-se depois de muito tempo sem atuar, como estará o mercado com menores salários e maior número de desempregados? Tínhamos doze milhões de desempregados, herança do governo petista. Quantos serão ao final do surto pandêmico?
Quanto tempo as economias nacionais, enfraquecidas por longo período sem ação, gastos constantes e crescentes, além de grande queda na arrecadação de impostos, levarão para se restabelecer?
Há, ainda, estoques vencidos, fornecedores arruinados, funcionários importantes morrerão, contratos não foram nem serão honrados. Haverá um grande acordo nacional e internacional, tipo financiamento a perder de vista ou colocar uma pedra em cima do passado e recomeçar o jogo do início? Muito pouco provável, neste tabuleiro sempre há vencedores e vencidos. Já há gente colhendo o que não plantou, explorando seu poder financeiro e adquirindo o controle de empresas enfraquecidas pela situação adversa. Mesmo que as bolsas de valores estejam tendo quedas nunca vistas, há grupos poderosos enchendo os bolsos.
“Ao vencido, ódio ou compaixão. Ao vencedor, as batatas”, ensinava Quincas Borba no romance de Machado de Assis.
E o fim horroroso, quem está disposto a enfrentá-lo? Alguns governantes acharam que era preferível deixar a vida correr normalmente, mesmo com o colapso da saúde pública e um número de mortes muito maior, mas sem sacrificar totalmente a estrutura econômica da sociedade. Quase todos mudaram de ideia, pressionados pelo aumento terrível na taxa de mortalidade de seu povo. Só os muito teimosos, pouquíssimos, defendem a tese dolorosa, que lhes custaria a carreira política e o estigma de inimigo do povo. Seria o fim horroroso. Mas seria o fim, em prazo menor.
Os fins justificam os meios? Como calcular o preço humano da tragédia consentida? No final, a recuperação econômica mais rápida que se espera não seria indolor, é claro.
E também é impossível imaginar o número de vítimas da outra alternativa, a da curva achatada.
Fala-se, agora, em isolamento vertical, onde só os mais vulneráveis ficariam em quarentena. Como separá-los? Quem os atenderia?
O próprio isolamento horizontal adotado pela maioria dos países funciona precariamente. Há gargalos intransponíveis, como aglomerações nos transportes coletivos, nos bancos que pagam as pensões, nos postos de atendimento de saúde, nas filas de vacinação contra outras doenças perigosas e nos hospitais.  Afinal, nem todos podem trabalhar ou estudar pela internet.
Onde está a melhor solução?
É preferível um fim horroroso ou um horror sem fim na situação tão grave e dolorosa que enfrentamos?

Clovis Puper Bandeira

Nascido em 28 Fev 45 em Pelotas - RS

General de Divisão da Reserva do Exército Brasileiro

Ex Vice-Presidente e atual Assessor Especial do Presidente do Clube Militar

Principais funções na carreira militar:

- Instrutor da AMAN e da ECEME

- Aluno do US Army War College - EUA

- Comandante do 10º BI - Juiz de Fora - MG

- 1º Subchefe do Estado-Maior do Exército - Brasília - DF

- Comandante da 17ª Brigada de Infantaria de Selva - Porto Velho - RO

- Chefe do Estado-Maior do Comando Militar da Amazonia - Manaus - AM

- Diretor de Especialização e Extensão - Rio - RJ

- Comandante da 3ª Região Militar - Porto Alegre - RS

- Chefe do Departamento de Inteligência Estratégica do Ministério da Defesa - Brasília - DF

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