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18 Mar 2020

PERIGOSA DINÂMICA

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Em meio à pandemia do novo coronavírus que ocupa todo noticiário do país, o mundo da política acordou no sábado com a notícia do falecimento de Gustavo Bebianno, homem forte da campanha de Bolsonaro e primeira importante baixa do governo.

 

Em meio à pandemia do novo coronavírus que ocupa todo noticiário do país, o mundo da política acordou no sábado com a notícia do falecimento de Gustavo Bebianno, homem forte da campanha de Bolsonaro e primeira importante baixa do governo.

O advogado foi demitido do Planalto menos de 50 dias depois da posse e, desde então, vinha se posicionado de forma crítica diante do Presidente que ajudou a eleger. Bebianno foi o primeiro de uma imensa lista de desafetos cultivada por Bolsonaro desde que chegou ao Planalto. São nomes da esfera política, executivos, gestores públicos e até militares que acabaram sentindo-se traídos pelo presidente, acusando-o de ingratidão e deslealdade.

Engrossaram a lista profissionais reconhecidos como Joaquim Levy, General Santos Cruz e o físico Ricardo Galvão. Confesso que pessoalmente tinha restrições a Bebianno. Quando decidi entregar a direção da Apex-Brasil e deixar o governo Bolsonaro, o ex-ministro, de forma gratuita, exaltou o fato com desrespeito e uma dose de ironia vil e preconceituosa, exatamente as principais características que criticava no presidente.

Ao ensaiar voos eleitorais, o advogado tinha muito ainda a aprender no ramo da política, uma inexperiência que talvez tenha feito perder o próprio cargo de forma prematura. Mas fato é que Bebianno personificava o sentimento de mágoa de um crescente número de pessoas que passaram ou convivem com o governo Bolsonaro. Na esfera política, esta é uma realidade crescente, que transborda para a imprensa e pode desaguar no grande público se a economia não fornecer sinais de reação.

Este é o ponto a ser revisado pelo presidente. Suas atitudes, por vezes explosivas e intempestivas dinamitam pontes de entendimento fundamentais ao sistema democrático. Ao acreditar que esta abordagem mercurial é a melhor forma de se comunicar diretamente com o povo, ensaia uma linha direta que pode remeter o país a um discurso populista que não rima com os ideais democráticos de nossa nação.

Os curiosos caminhos percorridos pelo governo, passando pela ingratidão com antigos aliados, crescente militarização e insegurança sobre os rumos econômicos colocam o país em uma sensação de incerteza que afeta os investimentos. Para encaminhar nossa nação em uma direção virtuosa, é preciso estabilidade, manutenção de quadros, lideranças sólidas no Parlamento e uma agenda definida dos rumos a seguir. Bebianno foi o primeiro a sentir esta instabilidade que paira no Planalto. Uma necessidade de alinhamento cego sem espaço para um debate sadio.

O entorno pessoal do mandatário, típico de regimes presidencialistas, acabou por dividir-se entre assessores que disputam a confiança do chefe em uma briga sem trégua pelas maiores demonstrações de lealdade, enquanto a sabotagem mútua se torna moeda corrente desta disputa de poder. Bebianno se tornou vítima desta perigosa dinâmica que, ao ceifar seu cargo, abreviou sua vida por um infarto fulminante. A política é realmente para os fortes.

Márcio Coimbra

Márcio Chalegre Coimbra, é advogado, sócio da Governale - Políticas Públicas e Relações Institucionais (www.governale.com.br). Habilitado em Direito Mercantil pela Unisinos. Professor de Direito Constitucional e Internacional do UniCEUB – Centro Universitário de Brasília. PIL pela Harvard Law School. MBA em Direito Econômico pela Fundação Getúlio Vargas. Especialista em Direito Internacional pela UFRGS. Vice-Presidente do Conil-Conselho Nacional dos Institutos Liberais pelo Distrito Federal. Sócio do IEE - Instituto de Estudos Empresariais. É editor do site Parlata (www.parlata.com.br) articulista semanal do site www.diegocasagrande.com.br e www.direito.com.br. Tem artigos e entrevistas publicadas em diversos sites nacionais e estrangeiros (www.urgente24.tv e www.hacer.org) e jornais brasileiros como Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Zero Hora, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, O Estado do Maranhão, Diário Catarinense, Gazeta do Paraná, O Tempo (MG), Hoje em Dia, Jornal do Tocantins, Correio da Paraíba e A Gazeta do Acre. É autor do livro “A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos brasileiro e norte-americano”, Ed. Síntese - IOB Thomson (www.sintese.com).

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