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22 Fev 2020

SIM, O “SOCIALISMO REAL” JÁ FOI TENTADO. E FOI UM DESASTRE

Escrito por 

Em termos de monstruosidade, esse terror simplesmente não encontra paralelos na história humana.

 

POR: RYAN McMAKEN  (*)

No dia 5 de maio de 2018 foi comemorado o 200º aniversário de Karl Marx. O filósofo alemão inspirou uma grande variedade de movimentos políticos que geraram incontáveis desastres humanos.

O falecido Rudolph Rummel, o demógrafo perito em contabilizar todos os homicídios em massa causados por governos, estimou o total de vidas humanas dizimadas pelo socialismo do século XX em 61 milhões na União Soviética, 78 milhões na China, e aproximadamente 200 milhões ao redor do mundo. Todas essas vítimas pereceram de inanições causadas pelo estado, coletivizações forçadas, revoluções culturais, expurgos e purificações, campanhas contra a renda não-merecida, e outros experimentos diabólicos envolvendo engenharia social.

Em termos de monstruosidade, esse terror simplesmente não encontra paralelos na história humana.

Entretanto, embora tenha sido o inspirador direto de todas essas catástrofes, Marx continua sendo objeto de admiração de vários intelectuais e artistas. Um recente exemplo foi o filme O Jovem Karl Marx, de Raoul Peck, que retrata Marx como um radical repleto de bons princípios e dotado de uma louvável sede por justiça.

Felizmente para Marx, para seu mito e sua reputação, ele próprio nunca pessoalmente adquiriu o controle do aparato de algum estado. Consequentemente, o trabalho sujo de realmente implantar a necessária "ditadura do proletariado" foi deixado para terceiros. E aqueles que tentaram trazer o marxismo para a realidade prática rapidamente descobriram que o marxismo aplicado gera apenas empobrecimento, dizimação de vidas humanas, e a total destruição das liberdades individuais.

Não obstante, após um século marcado por brutais regimes socialistas baseados em várias interpretações das idéias de Marx, o filósofo alemão sempre é reabilitado sob o mesmo lema: "o socialismo real não fracassou; ele simplesmente nunca foi tentado".

Ou seja, uma experiência socialista genuinamente "pura" — como Marx presumivelmente queria — sempre acabava sendo maculada e se degenerava pela presença de idéias burguesas ou por hábitos capitalistas que persistiam no aparato estatal.

Um exemplo típico desse tipo de pensamento pode ser encontrado, por exemplo, em Noam Chomsky e em sua insistência de que o regime obviamente socialista da Venezuela não tem absolutamente nada de socialista. A mesma tenacidade é também encontrada em um artigo de 2017 do filósofo Slavoj Žižek intitulado "O problema com a revolução venezuelana é que ela não foi longe o bastante".

De acordo com Žižek, o socialismo só pode funcionar se os hábitos e costumes do status quo forem destruídos completamente e substituídos inteiramente por novas formas de pensar criadas e impostas pelos socialistas. Ou, como o próprio Žižek descreve, provérbios antigos (isto é, modos de pensamento) devem ser totalmente substituídos por novos provérbios. Por exemplo:

    Revolucionários radicais como Robespierre fracassaram porque tentaram romper com o passado sem ser bem-sucedidos em seus esforços de impingir um novo arranjo de costumes (vale recordar o supremo fracasso da ideia de Robespierre de substituir a religião pelo novo culto do Supremo Ser).

    Já líderes como Lênin e Mao foram bem-sucedidos (ao menos por algum tempo) porque inventaram novos provérbios, o que significa que impuseram novos costumes para regular a vida cotidiana das pessoas.

Ou seja, o problema com o socialismo venezuelano não está no fato de milhares de empresas, fábricas, indústrias e até mesmo pontos de comércio terem sido confiscadas e estatizadas, de os direitos de propriedade terem sido abolidos, e de milhões de cidadãos terem sido destituídos de suas liberdades básicas. Não, o problema é que o regime venezuelano foi muito conservador, e falhou em implantar uma total ruptura com o passado.

Mas como, afinal, esta ruptura com o passado pode ser implantada? A resposta está na linguagem utilizada pelo próprio Žižek. Tudo depende de "impingir um novo arranjo de costumes" e de "impor novos costumes". Esta, obviamente, é a linguagem da coerção e da violência. Esses novos "costumes" não teriam de ser impostos se as pessoas quisessem adotá-los voluntariamente, óbvio.

Do ponto de visto do socialista purista, se ao menos surgissem um novo Lênin ou novo Mao, e estes tentassem com mais afinco, aí sim o socialismo poderiam finalmente ser bem-sucedido. Como bem resumiu o portal satírico The Onion, "Faltou somente um outro grande expurgo para que Stálin conseguisse criar a Utopia comunista".

Por mais hiperbólica que tal declaração possa parecer, essa ideia ainda assim descreve de maneira realista a mentalidade daqueles que alegam que "o socialismo real nunca realmente foi tentado". Se o socialismo tiver de ser implantado, algo deve ser feito para abolir o apego que as pessoas têm à propriedade privada e a todos os outros costumes e idéias que insistem em criar obstáculos nessa estrada rumo à utopia.

Na prática, isso sempre significou utilizar o poder do estado para forçar um novo estilo de vida sobre as pessoas. Também significou que, dado que as leis da economia não podem ser revogados, quanto mais o socialismo era aplicado, mais o padrão de vida afundava. Porém, dizem os socialistas, enquanto os planejadores socialistas continuarem esforçados e obstinados, e heroicamente se recusarem a ser sabotados pelo pensamento capitalista, a utopia finalmente poderá ser alcançada. Sim, haverá muito sofrimento neste ínterim, mas a recompensa final será incalculavelmente sublime.

Em termos sucintos, eis o raciocínio dos socialistas: o socialismo só irá funcionar se ele for progredindo até chegar ao ponto do "socialismo total". Qualquer outro arranjo que não seja o socialismo pleno é inaceitável. Nenhum esforço parcial será suficiente. E todos os experimentos socialistas até hoje só fracassaram porque alguns elementos do "capitalismo" continuaram funcionando. Enquanto ainda existir qualquer aspecto econômico que não seja de socialismo pleno, o regime não será socialista.

Naturalmente, conclui o raciocínio, se o socialismo pudesse chegar ao seu estágio pleno — com todos os elementos do capitalismo eliminados — saberíamos que este sim seria o socialismo puro porque estaríamos vivendo em uma sociedade marcada por uma prosperidade sem precedentes e por uma igualdade total.

Representada graficamente, a ideia seria assim:
Um modelo para ilustrar a tese de que "o socialismo real nunca foi tentado"

FONTE: INSTITUTO MISES

(*)Editor do Mises Institute americano.

Última modificação em Domingo, 22 Março 2020 18:42

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