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22 Fev 2020

MILITARES NO GOVERNO

Escrito por 

Com essas considerações anteriores se buscou deixar patente que não fazem nenhum sentido as considerações de alguns setores políticos e de parte da imprensa de questionar o que está sendo batizado como “militarização dos espaços do poder executivo”.

 

Meus amigos.
Em parte significativa da minha vida profissional, tive o encargo, entre os inúmeros desafios inerentes aos cargos que ocupei, de avaliar o desempenho de subordinados.
Tarefa extremamente complexa que exige absoluta imparcialidade, esforço obstinado para não permitir que simpatias ou antipatias possam interferir na análise a ser feita, evitando o fenômeno da globalização (tendência de permitir que um determinado aspecto do profissional a ser avaliado acabe por contaminar a avaliação dos demais aspectos).
A recorrência desse desafio findou por me levar a estabelecer alguns critérios que, na minha visão, possibilitariam uma avaliação mais justa.
Assim, sempre que tinha que avaliar alguém, analisava o profissional por três aspectos distintos: como ser humano, como profissional (independentemente da sua atividade) e como um profissional com responsabilidades e encargos específicos.
Isto se justifica porque cada uma dessas facetas sugere a importância de que se compreenda que cada indivíduo integra essas dimensões distintas que, sempre, de alguma forma, acaba por se manifestar no seu desempenho profissional.
A título de exemplo, com o objetivo de tentar ilustrar a lógica da reflexão que submeto ao prezado leitor, há atributos do ser humano que são fundamentais, básicos e que devem fazer parte do caráter de qualquer profissional, independentemente da sua profissão e das atividades que deva desenvolver.
Citaria nesse caso: honestidade, probidade, integridade, educação, prudência, serenidade, senso de justiça, equilíbrio emocional, inteligência, entre outros.
Naturalmente, poder-se-ia listar uma série de outros atributos desejáveis de serem possuídos pelo ser humano, profissional de qualquer área de atuação.
De forma idêntica, há um sem número de atributos que, se deseja que sejam possuídos e exteriorizados no dia-a-dia, pelos profissionais com os quais trabalhamos, independentemente de suas profissões e dos encargos que lhes caibam.
Relaciono, a título de exemplo: assiduidade, pontualidade, capacidade de trabalho em grupo, responsabilidade, respeito a seus superiores, pares e, particularmente, a seus subordinados, objetividade, método, competência.
Novamente, o leitor, poderá pensar em outros tantos atributos.
Finalmente, considerada a atividade profissional específica de cada profissional, alguns atributos devem ser buscados, em função dessas especificidades da profissão de cada um, assim como, das atividades que, por decorrência, deverão estar sendo desenvolvidas em cada caso.
O leitor, certamente, poderá imaginar determinadas profissões e identificar atributos desejáveis para os profissionais de cada uma.
Em uma profissão poder-se-á esperar dinamismo, extroversão, capacidade de direção, liderança.
Em outra, introspecção, capacidade de concentração, atenção a minúcias, etc.

O prezado leitor poderá, a essa altura, estar se perguntando: o que isso tem a ver com o título desse artigo?
O que se busca provocar é a reflexão de que para a ocupação de um determinado cargo em qualquer instituição, empresa, entidade e particularmente em órgãos públicos (cargo mantido pelos tributos pagos pelo cidadão) não se deva estar permitindo que aspectos relacionados a preconceitos, visões pessoais sectárias, interesses de grupos, prevaleçam sobre uma análise, profissional, imparcial, que confronte demandas específicas desejadas do ocupante de cada cargo, com os atributos de todas as dimensões antes listadas, que se deverá buscar no profissional a ser designado para o referido cargo.
Para um determinado cargo, por exemplo, na área da saúde, o simples fato do profissional a ser designado ser médico, não deve ser visto como condição necessária e suficiente, para sua escolha.
Da mesma forma, para um cargo na área jurídica o fato do candidato ser advogado pode ser insuficiente para a sua designação.
As características, peculiaridades, de cada cargo devem ser visualizadas na sua integralidade, para que, analisando-se tudo que estará envolvido na condução de todas as atividades que decorrem do exercício daquele cargo, se possa identificar todos os atributos que devem ser possuídos pelo ocupante do cargo.
Quando se trata de um cargo público, essa circunstância ganha relevância extraordinária, já que envolve a imperiosa necessidade de que se esteja balizado, permanentemente, pela busca do atendimento do interesse público e não de interesses pessoais ou grupais.

Costumo dizer que capacitar um cidadão honesto em alguma atividade, dar-lhe competência específica, esperar dele que, com base na sua experiência pregressa, possa desenvolver com proficiência nova atividade é tarefa exequível.
Contrariamente, esperar que um determinado indivíduo reconhecidamente competente mas desonesto, de uma hora para outra, se transforme num ser humano honesto, probo, incapaz de uma atitude que não seja, absolutamente aquela desejável do ocupante do seu cargo é algo que não se pode ser inocente para admitir como factível.

Com essas considerações anteriores se buscou deixar patente que não fazem nenhum sentido as considerações de alguns setores políticos e de parte da imprensa de questionar o que está sendo batizado como “militarização dos espaços do poder executivo”.
Na verdade, essa “campanha”, aparentemente orquestrada (mal intencionada?), expressa uma visão preconceituosa que busca exteriorizar a compreensão de que militares constituiriam uma classe de profissionais de segunda linha, potencialmente, presumivelmente, incapazes de assumir cargos e encargos de maior complexidade em órgãos públicos e/ou capazes de atuar no interesse grupal, o que, definitivamente, não tem qualquer compromisso com a realidade.
De fato, o que ocorre é exatamente o contrário. A formação de oficiais das forças armadas no Brasil de hoje, se dá de forma que todos os oficiais generais do Exército, por exemplo, têm formação acadêmica em nível de pós-doutorado, que, em parcela ponderável dos casos, foi concluída no exterior, com o propósito de assegurar a esses profissionais, além do conhecimento específico da área de atividade em que foi formado, visão da realidade internacional.
Além disso, aqueles aspectos listados no início desse artigo, ligados a aspectos do homem e do profissional, como honestidade, probidade, dedicação integral, consciência cidadã e tantos outros, fazem parte indissolúvel do caráter desses homens, constituindo-se em base indispensável para assegurar desempenho competente no exercício dos cargos que lhes forem cometidos e em perfeita sintonia com os interesses maiores da imensa maioria da sociedade brasileira.
Parece desnecessário lembrar que a experiência vivida pela sociedade brasileira, quando tais cargos estiveram, em passado recente, sob a responsabilidades de outros indivíduos, cujas qualidades não eram essas, a despeito de que se possa afirmar que, em alguns poucos casos, se tratassem de profissionais, aparentemente, qualificados, não autoriza o questionamento que tem sido veiculado sobre a impertinência do emprego de militares nos espaços governamentais, na medida em que, a despeito de suas qualificações profissionais pessoais, as motivações que guiavam suas condutas, estiveram, na maioria dos casos, subordinadas a interesses de grupos ou partidos políticos, relegando a segunda prioridade a vontade da Nação.

Nota: Consta que o matemático árabe Al Khawarizmi teria dito, ao ser questionado sobre o valor de um homem, que um homem ético valeria 1. Se ele fosse inteligente, acrescentar-se-ia um zero e ele valeria 10. Se, também fosse rico, acrescentar-se-ia um novo zero e ele valeria 100. Se, além disso, fosse belo, acrescentar-se-ia novo zero e ele valeria, então, 1000. No entanto, se esse homem perdesse a ética, perderia o 1 e passaria a valer 000 (zero).

Última modificação em Sábado, 22 Fevereiro 2020 23:42
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP.

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