Dom07122020

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19 Fev 2020

NÃO HÁ ROSAS SEM ESPINHOS

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Detalhe importante: não confundamos, em hipótese alguma, bom mocismo meloso com amor

 

Quando uma palavra passa a ser utilizada a todo o momento e em qualquer ocasião isso não significa, necessariamente, que a realidade a qual ela se refere passou a existir de forma onipresente; muito pelo contrário, essa repetição enjoativa é um forte indicador de que a realidade, que seria referida pela dita palavra, se tornou ausente entre as pessoas.

Se pararmos pra refletir sobre a forma intensa e contínua que a palavra educação toma conta dos discursos de nossas autoridades, no modo como esse vocábulo é exibido em inúmeras inserções nos veículos de mídia e tutti quanti, se pararmos para considerar a quantidade de instituições de ensino que existem (em todos os níveis e na forma presencial, à distância e similares), e considerarmos o quão grande é a carência da tal educação no bojo de nossa época e no âmago de nosso ser, constataremos, num piscar de olhos, que, ao seu modo, o velho filósofo Alemão Arthur Schopenhauer estava coberto de razão quando disse que quanto mais mal educada é uma sociedade, mais escolas ela tem [1].

Quanto ao tal do amor não é muito diferente disso não. Para todos os cantos que volvemos nossos ouvidos, lá estão às canções, preleções, alocuções, gritos histriônicos e similares, despejando borbotões e mais borbotões de palavras emaçarocadas com o vocábulo amor e, de forma parecida com a educação, temos aí outra grande ausência em nossa sociedade.

Detalhe importante: não confundamos, em hipótese alguma, bom mocismo meloso com amor. Aliás, esse tipo de associação risível, a meu ver, é um dos mais sérios sintomas que indica uma profunda incompreensão do que seja, de fato, amar e educar.

Naturalmente, existem muitas complicações que brotam desse tipo de confusão que se estabeleceu sobre o que é o tal do amor e a respeito da dita cuja da educação; por isso, procuraremos nos ater tão somente a uma delas que, penso eu, tem uma relação direta com a tragédia que hoje impera em nossa triste sociedade. Seria a confusão que se estabelece entre o que seja o amor e o que seria tão somente o amor próprio [2] e a relação disso com o sistema de educação vigente em nosso país já há algumas décadas.

Amor, por definição, é um ato de doação de atenção que fazemos ao bem amado; quando colocamos no centro de nossas preocupações [3] algo que consideramos mais do que a nós [4]. Quando somos capazes de nos sacrificar pelo bem daqueles que amamos é aí, é justamente aí, que realmente estamos a amar.

Nesse sentido, o amor não pode ser, de modo algum, confundido com um mero sentimentalismo barato, recoberto ou não com todos aqueles trocadilhos politicamente corretos que adoecem e estragam tudo que tocam com seu marxismo cultural de terceira mão.

Não pode ser e não o é porque o amor, antes de qualquer coisa é um estado do ser [5], uma disposição que nos leva e compreendermos que alguém, ou algo, é mais importante do que nossos rasteiros desejos desordenados.

O amor, por sua natureza, nos auxilia na arrumação de nossos impulsos, na hierarquização de nossos desejos e paixões em favor da realização do bem amado [6]. E, naturalmente, procedendo assim, acabamos nos tornando pessoas melhores, mais dignas e, quem sabe, boas.

Quando amamos uma pessoa, sem querer querendo, procuramos nos tornar uma pessoa melhor para sermos dignos dela. Quando amamos um trabalho, nos esforçamos para nos tornar alguém que esteja à altura dessa atividade. Quando amamos as obras de um autor, ou uma série de televisão, nós procuramos lê-la ou assisti-la com toda atenção e deferência que nos é possível, porque queremos, com todas as forças do nosso ser, fazer parte daquilo que está sendo contado para nós.

Nesse sentido, amigo leitor, é que o amor é indissociável da edificação da personalidade de um indivíduo, da educação de uma pessoa.

Se seguirmos por essa via, constataremos que é justamente aí que está um dos grandes gargalos de nosso sistema educacional.

Infelizmente, os parâmetros de nosso sistema de ensinação são calcados nessa confusão bestial que se estabeleceu entre amor e amor próprio que, por sua deixa, leva os indivíduos a afundarem-se no mais tosco egocentrismo e no mais vil hedonismo.

Abre parêntese: egocentrismo e hedonismo que, muitas vezes, se apresentam vestidos com os andrajos de supostas preocupações sociais que mal conseguem esconder a egolatria que está sendo gostosamente cevada no coração humano. Fecha parêntese.

Ora, quando se repete aos quatro ventos que a educação deve sempre ser realizada de forma lúdica porque ela deveria ser prazerosa, com o perdão da palavra, é porque o conhecimento a ser apreendido, que deveria ser o foco de nossa atenção, foi subtraído [7] e, em seu lugar, foi colocado o infante, com seus impulsos e desejos desordenados, como centro.

Bem, fazendo isso, a consequência não poderia ser outra senão a substituição da preocupação para com o aprendizado do que está sendo ensinado pela apreensão para consigo mesmo, se isso ou aquilo está sendo chato ou não.

Pois é. Já repararam que nas últimas décadas a preocupação central dos burocratas e dos doutos em educação tem sido tão só e simplesmente a mutilação da educação para transforma-la em algo “legalzinho” ao invés de se preocupar em fomentar um aprendizado eficaz, eficiente e efetivo? Em momento algum é cogitado a obviedade das obviedades: amar exige sacrifícios de nossa parte e, necessariamente, aprender algo, também, porque aprender é amar.

Ponto importante: aprender a amar, aprender a renunciar a primazia de nossos desejos desordenados é algo que se aprende com o tempo, com muitas dificuldades, pois, naturalmente, oferecemos resistência a isso. Podemos dizer, sem medo de errar, que muitas vezes aprendemos o que é certo da pior maneira; que somos civilizados meio que a contragosto [8].

Se fôssemos resumir o entrevero poderíamos fazê-lo mais ou menos assim: a gurizada entra num sistema educacional onde tudo deve se adaptar aos seus caprichos e que eles não têm que se adaptar a nada; os infantes são colocados num circuito onde, praticamente, pouco importa o que ele faça, o abençoado não ouvirá praticamente nenhum não amoroso – uma reprovação - para ele tomar um rumo apropriado; os curumins são inseridos numa plataforma onde, a priori, nada poderá frustrá-los para, como dizem os amados e idolatrados especialistas, não traumatiza-los; enfim, os mancebos são ensinados desde tenra idade a verem-se como centro de tudo e isso, francamente, é um ato de profunda crueldade para com eles, porque leva-os a confundir o que é o amor com essa tranqueira que é o amor próprio, movendo-os, muitíssimas vezes, a cair num profundo vazio existencial, numa baita falta de sentido [9], simplesmente porque nós nos negamos a educa-los, não ensinamos a eles o que é amar, por preferirmos parecer “bonzinhos” e “legaizinhos” na fita.

Enfim, nas últimas décadas, conseguimos estragar tudo simplesmente por não sabermos a diferença efetiva que há entre fazer o bem e parecermos bonzinhos.

É isso. E que Deus tenha misericórdia de todos nós.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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