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03 Abr 2005

Objetividade Moral

Escrito por 

O mundo livre precisa compreender essa lição. Com o mal não se compactua. Uma sociedade do medo irá sempre depender da existência de inimigos externos para sobreviver, tornando-a extremamente perigosa para a paz.

"A society is free if people have a right to express their views without fear of arrest, imprisonment, or physical harm".
Natan Sharansky 

No livro The Case for Democracy, Natan Sharansky defende uma atuação mais ativa das nações livres para a instalação da democracia no mundo, principalmente no Oriente Médio, como mecanismo de proteção da paz global. O autor, que foi um judeu preso nos cárceres soviéticos por ser um dissidente do regime comunista, entende que o ensejo da liberdade é comum à todos os homens, discordando dos céticos que afirmam que certos povos não tem compatibilidade com a democracia. Falavam isso do Japão, Alemanha pós-Hitler e ex-URSS, enquanto a realidade mostrou-se outra em todos os casos.

Sharansky defende arduamente uma clareza moral maior, mostrando como um mundo que não julga objetivamente, separando o joio do trigo, será vítima do mal. Portanto, faz-se necessário separarmos as nações entre sociedades livres e sociedades do medo, onde não há liberdade de expressão e proteção das minorias ou dissidentes. Nestas últimas, um regime autoritário irá sempre controlar seu povo através da coerção, e o surgimento de bodes expiatórios externos cria a justificativa para o aumento da repressão interna. Os "inimigos" criados servem de escusa para todo tipo de abuso de poder doméstico. Uma sociedade do medo é, portanto, sempre mais belicosa e perigosa, pois sua manutenção deve-se ao uso de ameaças externas e controle interno.

Já uma democracia, por mais que tenha um líder com tendências belicosas, estará sempre resguardada pela necessidade do governante de obter votos do povo. E o povo dificilmente será, na sua maioria, à favor de guerras desnecessárias. A maioria das pessoas prefere viver em paz, mesmo os islâmicos do Oriente. E quando a manutenção do político no poder depende da aprovação dessa gente, a guerra será um último recurso. Por esta razão, uma nação democrática não entra em guerra com outra nação democrática. Os Estados Unidos e a França possuem suas diferenças, mas seria inconcebível imaginar uma guerra entre ambas.

Como a riqueza, no médio e longo prazos, florece apenas com a liberdade dos indivíduos, toda sociedade do medo acaba migrando rumo à miséria. Por um curto espaço de tempo, é até possível mostrar crescimento econômico com a escravidão do povo, como foi o caso soviético. Havendo abundância de recursos naturais, como no Oriente Médio ou Venezuela, essa ilusão pode ser bem duradoura. Mas inevitavelmente estas sociedades calcadas no medo irão sucumbir, pois seus pilares são de areia. Elas tornam-se dependentes da carona das nações livres, como foi o exemplo da URSS. Acabam entrando num paradoxo, onde necessitam economicamente da ajuda internacional enquanto utilizam as nações livres como bodes expiatórios internamente. Fazem um jogo duplo e dissimulado, com discursos contraditórios dentro de casa e para o resto do mundo.

Arafat e sua OLP eram um bom exemplo disso, já que o líder palestino defendia a paz com Israel mundo afora, ganhando até o prêmio Nobel da paz, enquanto pregava a destruição do Estado judeu para os palestinos. Fidel Castro encara os EUA como o demônio, mas está louco para ser "explorado" por tal "demônio", culpando o embargo americano pela miséria de seu país.

Essa situação de dependência econômica das nações livres é vista por Sharansky como o calcanhar de Aquiles dessas sociedades do medo, e por isso, o meio por onde elas devem ser atacadas. Em vez do Ocidente defender a "estabilidade" aparente com um "ditador amigo", deveria partir para a luta pela democracia, sem medos exagerados ou ceticismo demais. Claro que o processo é gradual, não se dá da noite para o dia. Mas devemos lembrar que a maioria quer sempre a liberdade, e nações democráticas são, por lógica, mais pacíficas. O número de defensores dos regimes autoritários parece maior do que é de verdade, pois os dissidentes não podem se expressar. Um indivíduo não pode simplesmente ir contra a família real saudita, ou condenar Fidel Castro, ou criticar Kim Jong-iL na Coréia do Norte. Seriam presos ou mortos. Com um grau maior de liberdade, o número de dissidentes vai aumentando exponencialmente. E este deve ser o mecanismo usado pelas nações livres, pressionando as sociedades do medo a cederem em certos pontos, em troca da ajuda econômica. Em outras palavras, as ajudas econômicas devem ser sempre condicionadas à uma maior abertura desses países. Com rachaduras no sistema, a implosão do regime autoritário será questão de tempo, como foi na União Soviética. E Reagan entendeu perfeitamente isso, adotando uma linha mais dura com os comunistas, considerando-os como um império maligno, e pressionando por mudanças. O mundo precisa de novos Reagans.

Com todos os seus defeitos, o presidente Bush tem ido mais nessa linha, discursando de forma bem objetiva quando aponta as nações do "eixo do mal". Ao separar os países entre os que estão com os Estados Unidos nessa luta contra o terror e os que são contra essa luta, Bush foi acusado por muitos de maniqueísta. Mas Sharansky, que entende do assunto e passou pelo terror comunista, apóia essa visão, que chama de clareza moral. Praticar uma postura de "neutralismo" e excesso de realpolitik, ignorando aspectos morais, pode ser o maior erro do mundo livre, permitindo a perpetuação das sociedades do medo, e como consequência, um maior risco para a paz global. Forçar mudanças, pequenas aberturas que sejam, pode resultar na queda dos regimes totalitários. O "efeito Bush" já pode ser sentido com as eleições no Iraque, a Síria saindo do Líbano, e maior pressão popular nas ruas cobrando mudanças. Até o Irã fala mais manso atualmente. Os que pensaram que a guerra iria aumentar o risco de terror, estão tendo que rever suas análises.

O mundo livre precisa compreender essa lição. Com o mal não se compactua. Uma sociedade do medo irá sempre depender da existência de inimigos externos para sobreviver, tornando-a extremamente perigosa para a paz. Por outro lado, sua dependência econômica irá levá-la à mesa de negociações com as nações livres. Eis o ponto fraco desses regimes. E eis o caminho que as nações livres devem usar para induzir as mudanças rumo à liberdade dos povos oprimidos, condicionando a ajuda à determinadas medidas de maior abertura. Não é por altruísmo que devem fazer isso, mas pelos interesses particulares de maior paz. Para tanto, há que se ter maior objetividade moral, distinguindo o certo do errado, e não aliviando no julgamento dessas sociedades que tornam o mundo um lugar mais perigoso de se viver. Ou estamos do lado da democracia, ou do lado do terror!

Última modificação em Quarta, 18 Setembro 2013 20:05
Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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