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14 Dez 2019

NOSSA ILUSÃO DE LIBERDADE

Escrito por 

 

 

 

Nesse mundo cada vez mais presente, porque nunca foi embora, tudo que temos é percepção que nos engana e nos conforta. Aí dizemos que está tudo bem olhando para o céu, enquanto não olhamos o abismo ao lado da estrada sinuosa em que nos sentimos livres.

 

Pode se dizer que fui anarquista quando jovem. Na verdade, só uma maneira de se posicionar ideologicamente frente ao mundo ao lado de minha ignorância. Quando amadureci, a social-democracia parecia racional e na pós-adolescência, o liberalismo era um impulso e ímpeto avassalador de desconstrução de mitos.

Vejo que hoje, as pessoas têm muito mais acesso a tais ilusões no supermercado da fé. Sempre que se tem mais acesso, não deixa de se enriquecer com algo, mesmo que isto também signifique maiores custos nem sempre acompanhados de responsabilidades. Nessa história vi muitos jovens embalados pelo sectarismo que quando envelheceram apenas mudaram seu foco-inimigo mantendo o mesmo modus operandi. Se antes idolatravam a União Soviética e a China, hoje passaram a fazer o mesmo com os EEUU ou a Inglaterra, mesmo não existindo mais um EEUU, nem a Inglaterra com que tanto sonham, o que nem preciso falar da URSS e a China é qualquer coisa distante do que sempre se imaginou, nem podendo dizer que ela mudou quando não sabíamos o que realmente era.

Na música é a mesma coisa, antes o rapaz se derretia ouvindo riffs de guitarra que hoje acha infantis. Numa busca obsessiva por se diferenciar, entende o mundo como um reflexo de suas predileções de momento, como um velho no asilo que vai ao jardim pensando que já viu demais o mundo por hoje. O fato é que pouco mudamos, pouco entendemos e cada vez mais parecemos o que nos assusta, robôs. Não como esses dos “filhos do capitão” (pensando na política doméstica), mas sobre aqueles determinados desde nossos códigos genéticos, uma combinação que guarda a ironia de acreditarmos em livre-arbítrio, quando ele próprio foi uma dádiva molecular.

E assim segue o barco, cada vez mais velhos fantasmas nos assustando no traslado que fazemos entre o amor próprio, que inclui o lugar onde nascemos e fomos criados e a fuga destas correntes para um cosmopolitismo que só funciona quando sobra dinheiro. Sempre que confiamos demais no nosso destino programado esquecemos de uma pré-programação e de que como uma pré-história nos olha a espreita esperando apagar o fogo da caverna e a tinta para riscar suas paredes.

Nesse mundo cada vez mais presente, porque nunca foi embora, tudo que temos é percepção que nos engana e nos conforta. Aí dizemos que está tudo bem olhando para o céu, enquanto não olhamos o abismo ao lado da estrada sinuosa em que nos sentimos livres.

Livres em uma estrada da qual não se pode sair.

 

 

 

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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