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04 Dez 2019

SOMOS MAIS DO QUE ISSO

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Existem certas frases que são repetidas a exaustão nas mais variadas ocasiões e circunstâncias e que, de certa forma, são aceitas por nós como sendo a mais pura e cristalina expressão da verdade; porém, no frigir dos ovos, não são nada disso.

 

Existem certas frases que são repetidas a exaustão nas mais variadas ocasiões e circunstâncias e que, de certa forma, são aceitas por nós como sendo a mais pura e cristalina expressão da verdade; porém, no frigir dos ovos, não são nada disso.

Uma delas é aquela que reza que nós, brasileiros, não gostamos de política; que política, religião e futebol não se discutem.

Cresci ouvindo isso e, até certa altura da minha porca vida, repetia o dito como se expressasse fielmente a realidade.

Pois é. Basta que paremos um cadinho para olhar o mundo a nossa volta para constatarmos que, se há uma coisa que o brasileiro gosta de discutir, é sobre a dita cuja da política.

Seja nos botecos, ou na intimidade das famílias, as pessoas, dum modo geral, acabam sempre parlando sobre o assunto.

Há quem diga que isso seja um fenômeno da atualidade, motivado pelas tais redes sociais. Bem, tal observação não me parece, assim, tão exata.

Puxando pela ideia, como a gurizada diz por aí, lembro-me vivamente da imagem dos meus tios, tias e nonos discutindo sobre quem poderia ser um bom presidente para o nosso triste país em 1989. E as cenas que agora assaltam a minha memória, posso lhes garantir, são um trem lindo de se ver, digo, de rememorar.

Bah! Lembro-me, inclusive que meu nono havia pintado o nome do senhor Leonel de Moura Brizola na carreta do seu trator só para provocar o seu vizinho e que, todo fim de tarde, eles, familiares e amigos, se reuniam à sombra dum pé de sinamão para matear e conversar sobre aquele assunto que [supostamente] ninguém discute nessas plagas.

Abre parênteses. No fundo, eu acho que nós dizemos isso por pura dissimulação. “Sacumé”: brasileiro tem dessas. Fecha parênteses.

Outra expressão que muitas vezes é repetida, sem ser devidamente ponderada por nós, é aquela que afirma que há em nosso país um profundo clima de intolerância, especialmente de intolerância religiosa.

Em várias ocasiões, onde me entregava às delícias das conversas vadias, e o assunto em pauta acabava sendo aquele outro tema que não se discute nestas terras - questões de ordem religiosa – rapidamente, alguém acabava jogando no meio da roda a dita cuja da frase: “o problema é que existe muita intolerância religiosa em nosso país”.

Quando ouvia isso, sonsamente perguntava ao sujeito: quantas vezes você realmente brigou com alguém, ou alguém brigou com você motivado por questões religiosas? Quantas vezes você testemunhou algo desse gênero? Quantos relatos fidedignos desse tipo de ocorrência lhe foram relatados?

Invariavelmente a resposta era uma só: nenhuma.

Sim, as pessoas têm divergências religiosas e, muitas vezes, discutem e discordam acaloradamente sobre o tema, mas, raramente, para não dizer nunca, tais discussões se manifestam de forma brutal em relação àqueles que não têm os ponteiros alinhados.

Aliás, repare numa coisa curiosíssima. Nas famílias brasileiras, atualmente, encontramos pessoas dos mais variados matizes religiosos e, mesmo assim, continuam sendo o que são: uma família.

Às vezes, uma vez ou outra, o leite até azeda por uma e outra discussão, porém, num curtíssimo prazo, logo tudo volta como dantes no âmago das famílias dessa terra de Abrantes.

Tudo devidamente ponderado e observado nos leva a constatação que, sim, gostamos muito de discussões em torno de assuntos políticos; apenas não levamos isso tão a sério como os doutos diplomados gostariam que levássemos. Da mesma forma que também gostamos de prosear sobre religião, porém, sem irmos às raias da intolerância e do fanatismo, como pensam os criticamente críticos que, no fundo, toleram apenas aqueles que estão consonantes com as ideias progressistas e delirantes deles.

Seja como for, creio que é importantíssimo lembrarmos que as relações humanas na sociedade brasileira são muito mais complexas, vivazes, intensas e interessantes do que pressupõe as frases feitas tidas como clarividentes.

Opa! Então isso significa que somos uma sociedade perfeita, linda, cheirosa e fofa? Claro que não. Temos inúmeros defeitos, enquanto sociedade e como indivíduos. Porém, não são esses - a intolerância e o indiferentismo - que muitas vezes são imputados no lombo da gente. Não mesmo.

 

 

 

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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