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28 Nov 2019

UM RECADO PARA CERTOS "CRÍTICOS" DE MISES

Escrito por 

 

 

 

Parece que alguns colegas estão precisando baixar a cabeça para a terra e encarar a profissão com mais seriedade, até porque ela é o seu ganha-pão.

 

Graças aos esforços solitários pioneiros de uns poucos abnegados e, desde 2007, ao surgimento do Instituto Mises Brasil e, posteriormente, de alguns grupos de estudos e associações, há alguns anos o economista austríaco Ludwig von Mises (1881-1973), bem como Friedrich August von Hayek (1899-1992), passaram a tornar-se progressivamente conhecidos no Brasil até que, hoje, o primeiro vem liderando com folga significativa as pesquisas de buscas no Google e se sobrepondo ao sempre bajulado e badalado John Maynard Keynes (1883-1946). Neste ano de 2019, o atual ministro da Economia, mesmo sendo oriundo da Escola de Chicago dos anos 70 e 80, citou ambos elogiosamente em vários de seus discursos, o que naturalmente aguçou ainda mais a curiosidade do público. Isso não é pouca coisa. O Brasil é atualmente o único país onde Mises é mais buscado no Google do que Keynes.

Era, portanto, inevitável que os incomodados com esse crescimento extraordinário do interesse pelas ideias dos autores da Escola Austríaca de Economia, reagiriam pelo abalo em sua tradicional dominância nos meios acadêmicos, jornalísticos, políticos e ditos intelectuais.

E a reação assumiu duas formas. A primeira é bem-vinda e salutar: as críticas com um embasamento acadêmico, dignas de debates e refutações por parte dos economistas austríacos, como vem ocorrendo desde a famosa controvérsia do início dos anos 20 sobre o cálculo econômico no socialismo, em que os economistas socialistas Abba Lerner e Oskar Lange, respondendo a um artigo de Mises publicado em 1920, tentaram refutar com argumentos a posição de Mises de que em regimes que abolem a propriedade privada dos meios de produção é simplesmente impossível realizar o cálculo econômico. Mais tarde, a partir dos anos 30, juntaram-se aos críticos de Mises, entre outros, Karl Paul Polanyi, o mais conhecido, todos com argumentos acadêmicos, embora sempre sujeitos a refutação.

Mas a segunda maneira de reagir à crescente influência de Mises, Hayek e da Escola Austríaca no Brasil, a rigor não mereceria sequer ser mencionada, porque não passa de um coquetel - nada científico - de vícios, como arrogância, prepotência, pretensão, ironia sem fineza, sarcasmo, ignorância, falta de ética, desonestidade intelectual, ausência de senso de ridículo e uma incrível necessidade de aparecer on stage.

Menciono esse segundo tipo de reação tão somente porque tem se tornado frequente, especialmente na internet, em “textões”, artigos não acadêmicos, entrevistas,

comentários de especialistas e, principalmente, de economistas socialistas e tucanos, que não devem ter aprendido na infância, nos fins de semana passados na casa dos avós, uma das lições éticas básicas, a de que, para criticar ou elogiar ou simplesmente comentar alguma coisa, é preciso antes aprender para saber o que se está criticando, elogiando ou comentando, para não passar depois por vergonha.

É a esses últimos que me refiro como os “críticos” (com aspas, necessariamente) de Mises e da Escola Austríaca. Chega a ser difícil responder com argumentos técnicos às postagens desse tipo de gente nas redes sociais, tamanha é sua ausência de compromisso com o que escrevem. De fato, se antes era o papel, hoje é o teclado que aceita qualquer coisa, para lembrar uma das frases preferidas de Eugênio Gudin, o primeiro grande economista brasileiro que de fato conhecia a obra de Mises e de outros austríacos.                                                                                                                    

Uma das coisas que mais chamam a atenção nesses “críticos” é a impressionante combinação de prepotência com absoluto desconhecimento da obra de Mises. Já escrevera Leonardo da Vinci (1452-1519) que as pessoas ignorantes se sentem orgulhosas e as que têm muito conhecimento são humildes, usando a metáfora de que as espigas sem grãos erguem desdenhosamente a cabeça para o céu, enquanto que as espigas cheias a baixam para a terra, sua mãe, de onde brotaram.

Não tenho a menor vontade de me alongar neste artigo, porque a simples referência a esses “críticos” de um centésimo de tigela tem o poder de me tirar do sério. Quem não se revolta depois de passar anos e anos estudando Mises e a Escola Austríaca, debater na universidade, retrucar deboches de colegas arrogantes, publicar vários livros sobre esses temas para aparecer um time de tuiteiros desmerecendo décadas de trabalho e esforço?

Em linguagem popular, é mole ou quer mais? Vejam o nível lamentável de alguns comentários de alguns desses “críticos”, pinçados do twitter de três economistas tucanos nos últimos dias:

“Os economistas austríacos não usam Matemática porque não sabem Matemática”.
“A Praxeologia, além de ser inútil para o economista, tem um nome ruim. Parece nome de curso de quem fez vestibular para  Medicina e não passou”.
“Mises é um economista de segunda com um fã clube de terceira”.
“Menos Mises, menos Marx”.
“Menos Mises, mais Mill”.
“O Instituto Mises é o clube do Cacique Cobra-Coral”.
“O melhor argumento do fã clube do Mises é: o economista importante-para-caramba-e-que-realmente-contribuiu-para-Economia disse em uma entrevista que Mises foi uma influência importante”.
“Liberminion é complicado”.

Vou encerrar no mesmo nível de linguagem desses “argumentos”: Deu ruim!

Parece que alguns colegas estão precisando baixar a cabeça para a terra e encarar a profissão com mais seriedade, até porque ela é o seu ganha-pão.

 

 

 

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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