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25 Nov 2019

POUCOS PERCEBEM, MAS VIVEMOS UMA REVOLUÇÃO SEM VOLTA

Escrito por 

O mundo mudou, mas a Globo ainda não entendeu que não pode reverter a História.

Por A. C. Portinari Greggio

Em artigos anteriores, dissemos e repetimos que a eleição de Bolsonaro foi mais do que virada eleitoral, foi revolução. Mas o termo revolução tem sido tão abusado que, no nosso caso, precisa de esclarecimento. Revoluções são fenômenos profundos e irreversíveis que mudam o curso da História, enquanto viradas eleitorais podem ser efêmeras, como já observamos nos casos de Jânio Quadros e de Fernando Collor. Por que, então, insistimos em que a vitória de Bolsonaro foi revolução? É o que tentaremos explicar e provar em seguida.

Aprendendo com o inimigo: o camarada Lênin, no panfleto O COLAPSO DA II INTERNACIONAL, publicado em 1915, ensinava (e nós traduzimos livremente): “É óbvio que a revolução é impossível sem que ocorra uma situação revolucionária; mas nem toda a situação revolucionária conduz à revolução. Há três sintomas de situação revolucionária. (1) Os métodos de governo das classes dominantes perdem sua eficácia. (2) Aumenta o desconforto e o sofrimento da população. (3)

Em consequência, a indignação cresce e a consciência política do povo se aguça e se manifesta na forma de atividades revolucionárias que a classe dominante não consegue impedir.” Mas, avisava Lênin, as duas últimas condições – a revolta da população e sua consciência política – só funcionariam se a primeira se cumprisse.

As circunstâncias da eleição de Bolsonaro correspondem aos três sintomas de Lênin, portanto são uma revolução. As classes dominantes – os políticos, os traidores, a mídia, a cúpula da Igreja Católica, as ongues, a intelectualha, as máfias sindicais, as empresas envolvidas nos esquemas de corrupção – empenharam-se como nunca em impedir a vitória de Bolsonaro. Fraudaram pesquisas, espalharam falsas notícias, tentaram assassiná-lo, manipularam as urnas eletrônicas. Mas nada funcionou. Pela primeira vez na História moderna, não conseguiram controlar a opinião pública. A primeira condição prescrita por Lênin se cumpria: os métodos de governo das classes dominantes haviam perdido sua eficácia. Em consequência, a revolta e a consciência da população se manifestaram em ação política – o voto – nas eleições.

Mas Lênin falava apenas em sintomas de situação revolucionária, os quais não são suficientes para caracterizar uma revolução. Revoluções são viradas políticas permanentes, que mudam definitivamente... o quê?

Segundo os comunistas, as revoluções mudam as classes no poder e o modo de produção. As suas revoluções, por exemplo, tiram definitivamente a burguesia e seus aliados do poder e põem no seu lugar a classe trabalhadora, representada pelo Partido Comunista, o qual se encarrega de substituir o modo de produção capitalista pelo modo socialista de produção. Para os comunistas, a mudança do modo de produção é a essência da revolução, é o que caracteriza e define a revolução.

Os comunistas estão errados. Nas revoluções, não é o modo de produção que muda, até porque só há dois modos de produção: o mercado, que funciona, ou o socialismo, que não funciona. Na verdade, o que muda nas revoluções é a classe dominante e o modo de governar, o estilo de governo, o regime, ou, na linguagem dos cientistas políticos, a governança.

Dentro dessas premissas, a pergunta: a vitória de Bolsonaro mudou o modo de governar o Brasil? Parece que sim. Ela rompeu com o presidencialismo de coalizão, o estranho sistema inventado pela constituição de 1988, no qual a governança era negociada pelo Executivo com cargos e propinas para deputados e senadores. Os dois principais vícios desse sistema, a incompetência e a roubalheira, foram suspensos sine die. Os atuais dirigentes são, quase todos, competentes e probos.

Mudou, portanto, o modo de governar o Brasil. Mas lembrem-se: ali atrás dissemos que a autêntica revolução é “fenômeno profundo e irreversível que muda o curso da História”. O modo de governar mudou. Mas será que essa virada é irreversível? Será que as classes derrotadas terão meios para reverter o processo e restaurar o antigo sistema?

Para esclarecer essa questão, temos de entender como funciona o esquema de poder derrotado por Bolsonaro. O regime instituído pela constituição de 1988 se intitula “democracia” porque, diferente das ditaduras, não se impõe pela força. Legitima-se pelo voto popular e se impõe pela persuasão. Em países como o Brasil, regimes desse tipo dependem de consentimento obtido por meio do controle da opinião pública; e o principal instrumento de controle da opinião pública é a mídia. As democracias modernas não têm nada que ver com o clássico modelo da democracia de Atenas nos séculos 5 e 4 AC, nem com a res publica da Constituição dos Estados Unidos, baseadas no consenso de vontades de cidadãos livres e conscientes. Longe disso, as democracias modernas são fajutas porque se baseiam no controle da opinião pública pela mídia. São, portanto, modelos modernos de governança que somente o poder da mídia pode sustentar.

A vitória de Bolsonaro, portanto, foi a derrota da mídia. Mais do que isso, ela marcou o fim de quase dois séculos em que o poder da mídia predominou como o principal sustentáculo do poder político. Como veremos adiante, o fim do poder da mídia abre, pela primeira vez em séculos, o caminho para autênticas democracias, sem manipulações da opinião pública.

Como se trata de questão de extrema importância, vamos estudar o predomínio da mídia desde suas origens, a fim de entender sua queda. Como vimos, a democracia de Atenas funcionava porque não existia mídia, nem sistema representativo. As deliberações eram tomadas diretamente pelo povo em assembleias – entendendo-se como povo apenas os cidadãos qualificados, cuja maioria pertencia à classe média. Todos tinham o direito de falar. Havia livre intercomunicação entre os presentes, os quais não eram meros ouvintes passivos de discursos alheios.

A democracia ateniense teve vida curta. A regra, na História da humanidade, sempre tinha sido de regimes autoritários e povos obedientes. O principal instrumento de controle da mente do povo era a religião. Mas a partir do século 17 o espírito científico e a razão passaram a predominar nas classes cultas. O surgimento da imprensa criou novos meios de disseminação de ideias. A vida intelectual passou a girar em torno da literatura, do teatro e dos jornais. O antigo modelo de domínio mudou, estabeleceram-se sociedades mais livres.

Assim foi até o final do século 19. Até então, os jornais não passavam de folhetos produzidos em prensas parecidas com a de Gutenberg. O papel era caríssimo.

Sua circulação não ultrapassava os arredores das cidades. Mas eram muitos, eram livres, tinham ideias diferentes e debatiam furiosamente temas políticos e sociais.

A mídia correspondia às paixões e às opiniões do público.

Na segunda metade do século 19 apareceram as impressoras rotativas, as fábricas de papel de polpa de madeira, o telégrafo, os linotipos, os cabos submarinos, as agências de notícias e as redes ferroviárias. A conjugação desses elementos permitiu o surgimento de jornais diários de grande circulação, distribuídos em vastos territórios, com noticiário de todo o mundo. Diferentes dos antigos panfletos, eram indústrias com milhares de empregados e grandes investimentos em máquinas e equipamentos. As novas empresas jornalísticas contratavam os melhores repórteres, correspondentes e articulistas. Surgia a grande mídia, associada a grupos capitalistas, a qual rapidamente sobrepujou os pequenos órgãos de imprensa. Os jornais, que eram os principais meios de propagação e debate de ideias, logo se tornaram o principal instrumento de controle e manipulação da opinião pública. O avanço da tecnologia foi a causa dessa transformação.

Dizia-se no século 19 que os jornais eram o “quarto poder”, ou “quarto Estado”, porque autenticamente representavam a voz do povo. Mas isso acabou. A grande mídia só representava a vontade dos donos das cadeias de jornais. Longe de ser a voz do povo, era sócia das oligarquias. Seu poder de manipulação aumentou quando surgiram o cinema e o rádio, e chegou ao máximo com o surgimento da televisão. As grandes cadeias de jornais se apropriaram desses novos meios de comunicação.

Assim surgiu o poder da mídia, que não é simples poder político ou econômico. É claro que os políticos governam. Mas a política mudou. Antigamente eles se entendiam diretamente com seus eleitores em comícios e manifestações. Hoje o acesso ao eleitorado se faz pela televisão. E só é possível se o político tiver imagem previamente aprovada pela mídia. Ela tem o poder de promover ou de liquidar qualquer carreira política. Quando o político chega a aparecer no cenário nacional, é porque foi previamente filtrado pela mídia. Se não, nem chegaria a existir para o público. Portanto, os políticos estão subordinados à mídia como a criatura se subordina ao criador.

O poder supremo é a mídia. Logo, não pode ser vista como negócio qualquer. Embora seja prestadora de serviços, vai muito além de vender distração ou notícias: tem o poder de formar consciências, de condicionar atitudes e opiniões, de orientar preferências políticas, de mudar padrões morais. Esse poder é tremendo porque substitui nossa consciência pela consciência dos manipuladores. Dependemos deles para enxergar o mundo ao nosso redor. Qual a capacidade dum indivíduo isolado de observar a realidade e tirar conclusões ou formar opiniões por conta própria? Na verdade, só conhecemos em primeira mão os fatos ocorridos na nossa casa, no nosso emprego ou na nossa vizinhança. Todo o resto – tudo o que acontece no mundo além desses limites – nos é informado pelo jornal, pela revista semanal, pelo rádio ou pela televisão. Isso significa que a parte mais importante da realidade ao nosso redor não é captada por nós, mas nos é apresentada, já pronta e manipulada, pelos donos da mídia.

Qual a chave, o segredo do tremendo poder da mídia? Voltemos ao caso da democracia de Atenas. Ela funcionava porque o povo se reunia num mesmo local e todos falavam com todos. Por isso, as opiniões e os fatos eram examinados, criticados, desmentidos ou confirmados. Não é o caso da grande mídia. Ela transmite suas mensagens a milhões de pessoas dispersas e isoladas que não se comunicam entre si. Se for notícia falsa e alguém souber, como desmentir? Impossível. Cada indivíduo só se comunica com seus vizinhos. Só a mídia fala, enquanto milhões de indivíduos isolados assistem. Esse é o forte da grande mídia: o monopólio do discurso.

Assim foi por mais de século e meio. Na década de 1980 surgiu a Internet. A grande mídia se apropriou dos portais e provedores. Apareceram os e-mails e chats.

O público começou a se intercomunicar. Em 2007 – doze anos atrás, apareceram os smartphones, ou celulares inteligentes. Na mesma ocasião, surgiram as plataformas tipo Facebook ou Whatsapp. Estava deflagrada a maior revolução do século 21: a expansão das redes sociais. Sem querer, e sem que a oligarquia percebesse, criaram-se as mesmas condições da democracia ateniense: o povo passou a se reunir na mesma rede onde todos falam com todos. As opiniões e os fatos são examinados, criticados, desmentidos ou confirmados pelo público, que assim passou a formar sua própria opinião, independente da grande mídia.

Hoje, cerca de 77 milhões de brasileiros frequentam as redes sociais. Elas não apenas quebraram o monopólio. Foram além. O público tomou conhecimento da torpe manipulação, da associação entre a grande mídia e os políticos, da depravação moral da oligarquia. As campanhas para impingir falsas ideologias, tais como a do “gênero”, a ligação da oligarquia com o crime, a corrupção dos costumes, tudo isso foi exposto. A grande mídia foi desacreditada, e suas tentativas de manipular o processo político malograram.

Após mais de 150 anos de crescente domínio da política, a grande mídia é superada pelo mesmo avanço tecnológico que lhe deu a supremacia no século 19. A irreversível revolução, portanto, não foi a vitória de Bolsonaro. Foram as redes sociais, que abrem a perspectiva de nova e autêntica democracia, muito diferente do fajutíssimo “Estado democrático de Direito” da constituição de 1988.

 

 

Fonte: Inconfidência

Última modificação em Segunda, 25 Novembro 2019 10:57

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