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23 Set 2019

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Nossa percepção muda muito a partir do que conhecemos ou dizemos conhecer para o que imaginamos. Leve isto em conta, mesmo que não queira pecar pelo excesso de otimismo, não precisa ser um refém de uma visão negativa sem justificativa. Deixe o burrinho Ió para os desenhos, dos quais até as crianças já perceberam que ele é exagerado.

 

Ió é o burrinho pessimista do desenho animado, Puff, o ursinho que faz loucuras para conseguir mel. Essa personagem criada em 1924 teve suas belíssimas versões animadas pela Disney em 1966. O burrinho é aquele animalzinho com ar depressivo que anda se arrastando e nem parece um burro, mas uma capivara obesa de tão gordo. Ió é o retrato de nossa época, com suas orelhas caídas, olhos e pálpebras idem, o burrinho representa o pessimismo, o vitimismo, a autocomiseração e, talvez, até a depressão.

Calma! Se você gosta da personagem, eu também. Na verdade, tenho até pena dela, mas justamente por isso, o burrinho condiz com a síndrome que nos afeta, o que faz parecer crer que estejamos adentrando um novo período geológico, o mi-mi-mioceno, pois tudo parece virar uma querela moral, um eterno “mi-mi-mi” e mesmo quem acusa o outro lado de querer “lacrar” também faz das suas. É o caso que já causa náuseas de falar, da Esquerda pautando seus temas em defesa das “minorias” (gays, negros, mulheres), que nem são minorias na maioria dos casos e a Direita retrucando da mesma forma apontando sua hipocrisia, mas também ignorando suas próprias contradições, como quando se diz “perseguida pela mídia”. Aliás, argumento este passível de encontrar em qualquer ponto dos extremos político-ideológicos.

Steven Pinker, em O Novo Iluminismo diz que isto já está instaurado há muito em nossa sociedade, na verdade, em nossa civilização. A ideia de que progredirmos, que melhorarmos de vida em geral e no geral não é mais aceita, sequer bem vista. Exceto por aqueles que denotam um pouco mais de apuro estatístico em suas análises, há uma massa de intelectuais que, por diversas razões, ostenta uma orgulhosa “progressofobia”. Isto pode ser sustentado por diferentes sentimentos, de que “estamos perdendo nossa essência”, seja lá o que isso for… Ou que “o mundo está cada vez pior”, “os agrotóxicos, os games, a violência simbólica, tudo!” E não são só os mais intelectualizados que nutrem este tipo de preconceito, a grande massa ignorante metida a intelectual, os chamados “intelectualóides” também o faz e os argumentos podem variar de que “tudo piora” até o “está tudo muito fácil hoje em dia”, o que revela uma contradição constante e falta de clareza no que se quer criticar.

Se conversarmos com as pessoas comuns nas ruas, a maioria vai nos dizer que sua vida não é tão ruim ou até mesmo é boa, mas experimente transferir a mesma pergunta para “a sociedade” e verás que a percepção geral muda 180 graus. É um rosário de lamentações, de perdas e perda de sentido, um sentimento de decadência que parece vir de alguém que realmente viveu aquilo até que… Surge a pergunta subsequente: como sabe disso? “Ah! Eu vi na TV… Um amigo me relatou… Fiquei sabendo que…”, ou seja, a grande maioria dos casos se baseia, quando se baseia em algo, em informações terceirizadas. É o que chamam na literatura de “disparidade de otimismo”, ele vale para o que é próximo porque a proximidade induz à realidade, mas some para o que se teme, a vida grupal fora de controle porque distante do nosso controle individual.

Já faz algum tempo também li n’O Ambientalista Cético de Bjørn Lomborg a respeito de uma pesquisa abrangente feita em vários países do que se achava sobre o meio ambiente de sua cidade. Certo ou errado, a maioria não tinha uma avaliação negativa ou muito negativa do mesmo, mas a resposta era totalmente adversa quando se tratava de avaliar o meio ambiente global. Daí as respostas eram realmente negativas, influenciadas provavelmente pelo tipo de matéria que é constantemente divulgada quando se trata do tema meio ambiente, sempre com adjetivos nada promissores, como “lixo”, “extinção”, “morte”, “destruição”, “poluição” etc.

Nossa percepção muda muito a partir do que conhecemos ou dizemos conhecer para o que imaginamos. Leve isto em conta, mesmo que não queira pecar pelo excesso de otimismo, não precisa ser um refém de uma visão negativa sem justificativa. Deixe o burrinho Ió para os desenhos, dos quais até as crianças já perceberam que ele é exagerado.

 

 

 

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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