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09 Set 2019

ENTRE RUI E OS BARBOSAS

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Um discurso é um momento ímpar onde uma gentil alma, na posição de orador, tem a grata oportunidade de partilhar com os seus algumas reflexões sobre a vida, sobre a trama de sentidos que a compõe.

 

Um discurso é um momento ímpar onde uma gentil alma, na posição de orador, tem a grata oportunidade de partilhar com os seus algumas reflexões sobre a vida, sobre a trama de sentidos que a compõe.

Infelizmente, tais almas são escassas atualmente nessas terras de Pindorama. Nesses momentos únicos ao invés de termos a partilha de luzes temos, com uma frequência indesejável, a afronta das sombras da ignorância presunçosa onde tais momentos são desperdiçados ou com colóquios grosseiros, ou com a pura falta de amor ao próximo à verdade.

Chega ser sofrível, por exemplo, ir a uma formatura e ouvirmos “otoridades”, diplomadas ou não, discursar. Dependendo do rincão que se esteja, ouve-se preleções de improviso que não chegam nem mesmo a ser uma fala de meia-pataca; noutros, não passa duma leitura sofrível de alguma mensagem mequetrefe extraída dalgum site. Enfim, tais momentos acabam apenas atestando que nessas plagas abundam o desamor pela palavra e, principalmente, pelo que ela pode fazer por nós e pelos nossos semelhantes quando manuseada com zelo e destreza.

Lembro-me, de memória, duma formatura que fui convidado. Salve engano foi no ano de 1999. Uma grande e pomposa formatura duma Universidade qualquer duma cidade interiorana. Lá pelas tantas, a Paraninfa duma das turmas fez uso da palavra. A senhora, cujo nome perdeu-se em meio as brumas de meu desleixo, havia elaborado uma belíssimo discurso onde a mesma ministrava uma lição final aos presentes sobre ética e amor ao próximo tomando como referência algumas cenas do filme dinamarquês “A Festa de Babette” (1987), drama dirigido por Gabriel Axel.

Porém, enquanto deleitava meus ouvidos na toada da oradora, enquanto a nau de minha alma singrava pelas águas cristalinas advindas da lição que estava sendo ministrada, eis que em meio à multidão um grupelho interrompe o discurso com uma buzina estridente seguido por alguns gritos que, de modo bárbaro, pediam o fim do colóquio.

A senhora pára, silencia brevemente, respira, e conclui o seu discurso, a sua lição tão gentilmente elaborada pela suas mãos e que fora tão aviltada pela audiência bestialmente ululante que sabe apenas idolatrar títulos, ao mesmo tempo em que despreza o saber.

Ao ver aquela cena, pensei: essa turba ignóbil não é digna de ouvir as palavras proferidas. O que elas queriam era apenas o canudo e a balburdia que se seguia após a cerimônia e nada mais como, aliás, ocorre frequentemente em nosso entristecido país.

O mesmo pode-se dizer com relação à Águia de Haia. O Brasil, ou melhor, esse trambolho em que o nosso país se tornou não é nem digno de sua obra e muito menos da pessoa de Rui Barbosa.

Pensar que uma pessoa da envergadura dele discursou para os meninos do colégio Anchieta com a mesma atenção e deferência que discursou em Haia é algo que, por si só, muito nos revela a respeito de quem foi esse hercúleo brasileiro. Discurso esse que se fosse proferido hoje, num colégio Brasileiro (ou numa Universidade mesmo), seria recebido com um esnobe franzir de nariz, tamanho a pequenez que nos permitimos chegar.

Mas ele é maior que os olhares amiudados de sua época; ele é maior do que todos nós, pois, como lemos em seu epitáfio: “Estremeceu a justiça; viveu no trabalho; e não perdeu o ideal”. Quem, como esse gigante das letras – e de corpo franzino pode mandar escrever em sua lápide palavras de tão elevado quilate? Quem de nós poderá, com honra, fazer isso, dizer isso de si sem tremer?

Por isso, deixemos nossa pequenez de lado e subamos nos ombros desse gigante para vermos melhor o mundo e, consequentemente, compreendermos com clareza o nosso papel diante da criação.

Deitar as vistas nas laudas da lavra duma alma tão aquilatada como a do doutor Rui Barbosa é um privilégio que muitos, com certeza, declinariam frente a essa oportunidade. Mas para aqueles que desejam estender suas vistas para além do horizonte do momento, as linhas do discurso proferido no Colégio Anchieta será um deleite estético e gnosiológico único. Um momento para repensar a nossa vida; a maneira irrefletida como vivemo-la.

Pra ser franco, se os professores deixassem as de lado as linhas turvas da lavra de Paulo Freire e passassem a deitar as suas vistas nesse discurso do Rui, juntamente com as laudas da “Oração aos moços”, acabariam por edificar uma visão mais elevada sobre o seu papel junto aos alunos, pois como nos lembra o filósofo francês Jacques Maritain, em seu livro RUMOS DA EDUCAÇÃO (1959; p 14): “Se é verdade que nosso principal dever consiste [...] em nos tornarmos no que somos, nada mais importante para cada um de nós, nem mais difícil, do que nos tornarmos um homem. A principal tarefa da educação está, antes de tudo, em formar o homem ou alimentar o dinamismo por meio do qual o homem se faz homem”. E Rui Barbosa tinha uma clara compreensão disso; compreensão essa que ilumina cada uma das linhas redigidas por suas austeras mãos que foram pronunciadas aos presentes na solenidade do Colégio Anchieta.

E assim o é por sermos, jovens e adultos, profundamente atolados em nossa vaidade que nos faz pressupor sermos pessoas completas sem ao menos termos começado a continuação da obra iniciada pelo Criador em nós.

Não apenas nos inflamos com nossa vaidade, mas por nos encontrarmos assim, cheios de ventania orgulhosa, imaginamos que podemos modelar os outros a imagem e semelhança de nossa nulidade existencial. Ou, como disse o velho Rui, “mocidade vaidosa não chegará jamais a virilidade útil”. Porém, atingirá a petulância mimada, como muito vemos nos hodiernos dias em nossa pátria.

Por fim, consideramos de fundamental importância fazer mais uma observação; uma preciosa lembrança. Dentre os livros que ele tinha na cabeceira de seu leito estava o sapientíssimo IMITAÇÃO DE CRISTO, que era religiosamente lido, meditado e anotado. Não apenas isso! Esse monstro sagrado de nossas letras tinha a ousadia de se colocar de joelhos junto à sua cama, todas as noites para piedosamente rezar.

Bem, mais uma vez, permitam-me indagar, no silêncio dessas indignas linhas: quantos educadores, hoje, no Brasil, entregam-se tão devotamente a tal atitude? É difícil de precisar o número dos que fazem isso, mas não é difícil de imaginar a proporção, não mesmo? Todavia, não é tão difícil de contabilizar o número, grande por sinal, de intelectuais que fazem troça da fé em Cristo. Fé essa que se faz presente nas linhas dirigidas aos moços do colégio que tem a honra de ter o nome de São José de Anchieta, fé que pulsa vivamente em todas as entrelinhas de sua luminosa preleção.

Sem mais delongas, deixemos de lado as palavras desse indigno escrevinhador que ousa apresentar este que dispensa qualquer apresentação. ECCE HOMO e essa é sua mensagem para todas as almas, pueris ou senis, de todas as épocas. Aprendamos com ele, com esse seu discurso, a sermos simplesmente gente e, desse modo, aprendamos a nos tornar dignos de responder altivamente pelo título de cidadão, fazendo-nos dignos perante Deus, prestativos para com a nação e bons para com nossos irmãos como ele procurou ser em sua passagem por esse vale de lágrimas.

Enfim, encerremos essa modesta entrada e partamos para o prato principal do grande banquete do saber.

 

 

 

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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