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28 Mar 2005

A República Não Precisa de Cientistas

Escrito por 

Muita gente boa pensa que a revolução francesa - Vade retro, Satanás! – é a materialização das idéias do iluminismo Ledo engano, pois os iluministas eram todos eles reformistas, e reformistas preconizam reformas, não revoluções.

Muita gente boa pensa que a revolução francesa - Vade retro, Satanás! – é a materialização das idéias do iluminismo Ledo engano, pois os iluministas eram todos eles reformistas, e reformistas preconizam reformas, não revoluções. Embora eles tivessem a infelicidade de nascer no Continente, em frente  dos belos white cliffs of Dover - e disto não eram culpados, pois ninguém escolhe o lugar onde vem ao mundo - detestavam mais do que eu - que estou longe de morrer de paixão pela Douce France - a mentalidade francesa de sua época... Paris, Capital da Frivolidade e do frisson nouveau.

Dos diferentes traços desta mentalidade, o que eles mais detestavam era o obscurantismo marcado pela IGNORÂNCIA, pela SUPERSTIÇÃO e pelo AUTORITARISMO. Daí seu projeto de esclarecimento dos espíritos que acabou resultando na Enciclopédia. Creio mesmo que própria palavra “Enciclopédia” é um neologismo inventado por D’Alembert ou Diderot - os organizadores da portentosa obra - mas a idéia de fazer uma síntese do conhecimento humano em todas as ciências, técnicas e “artes” já tinha mais de um século. Refiro-me a Instauratio Magna de Francis Bacon (1561-1626), obra infelizmente interrompida pela morte do grande gênio inglês. No prefácio da Enciclopédia, o próprio D’Alembert reconhece isto e não poupa elogios ao patrono da Royal Society – uma espécie de academia de ciências do Reino Unido.

Mas se a revolução francesa – um descalabro gerando péssimas conseqüências,  a pior foi o tirano Napoleão – não é a materialização das idéias dos iluministas – e considerando que “não há práxis revolucionária sem teoria revolucionária”, de onde vêm as idéias que conduziram à mesma? Vêm de um pensador que, embora fosse contemporâneo dos iluministas, era um adversário ferrenho dos mesmos: Jean-Jacques Rousseau (1712-1788), “uma tarântula moral”, segundo Nietzsche. Para encurtar uma longa história, digamos que Robespierre é “Rousseau com a guilhotina” (o referido epíteto não é meu, foi sugerido por meu cordial amigo o embaixador Meira Penna)..
Feita a revolução, as cabeças dos nobres começaram rolar.

Imagine um sujeito que era o Diretor dos Paióis Reais, onde era fabricada a pólvora dos canhões do exército do rei... Ele era certamente alvo da hostilidade do populacho, pois, malgrado exercesse uma função técnica – uma vez que a fabricação de pólvora requer conhecimentos de química, não fervor ideológico – a ralé não queria saber disso e identificava o desditoso químico como “inimigo do povo”, e o destino dos “inimigos do povo” quando não é paredón, é guilhotina. E foi assim que os truculentos e boçais revolucionários franceses guilhotinaram Antoine-Laurent de Lavoisier (1743-1794), o pai da química moderna. De onde se pode inferir, entre outras coisas, que o pior inimigo do francês é outro francês!

Madame Lavoisier suplicou a Robespierre que poupasse a vida de seu marido, um brilhante cientista que passava a maior parte do tempo trancado em seu laboratório onde estava fazendo descobertas notáveis para a época. Frio e inflexível, Robespierre emitiu uma sentença que revelou todo espírito tacanho, antiprogressista e anti-iluminista de seu mestre Rousseau:

A REPÚBLICA NÃO PRECISA DE CIENTISTAS.

Hegel costumava dizer que a história se repete. Tinha razão, só que a primeira vez é tragédia, e a segunda é farsa. No caso, o que ambas as vezes têm em comum são as marcas do autoritarismo, do obscurantismo e do nivelamento por baixo. Na Primeira República francesa, a morte de Lavoisier foi uma tragédia; na República das Trevas do PT a democracia é uma farsa.

Esses bárbaros semiletrados - muito parecidos com Robespierre, Danton, Marat ET CATERVA – querem destruir um dos mais importantes valores do mundo civilizado: a MERITOCRACIA (haja vista a tal da Ação Afirmativa e a ocupação de cargos técnicos por um critério de pura  afinidade ideológica), querem transformar o Instituto Rio Branco numa es-pécie de Instituto Lomonosof do Terceiro Mundo ou, como disse muito bem Percival Puggina, “Instituto Jeca Tatu”, para diplomatas matutos (pois não sabem falar inglês, e. diplomata que não fala inglês é como engenheiro que não sabe fazer cálculos ou como advogado que não sabe fazer uma petição, ou seja: um INCOMPETENTE AMBULANTE. E pensar que o Barão do Rio Branco, homem de vastíssima cultura, era poliglota. E entre as muitas línguas que falava, estava, of course, a língua do grande general Wellington, que acabou com a tirania napoleônica.

Esses trogloditas nu Puder querem exercer dois tipos de censura: (1) a censura da opinião (tentativa malfadada do Conselho Nacional de Jornalismo), (2) censura da informação científica (tentativa ainda em curso no caso do IBGE). Querem transformar o direito em “direito alternativo”, onde o padrão de decisão não tem apoio na lei, mas sim na tal da “Justiça Social” (uma gritante contradictio in adjectio, que serve apenas para embalar um espúrio igualitarismo). Vide a este respeito Mario A. L. Guerreiro: Liberdade ou Igualdade?, Porto Alegre, Edipucrs, 2002.

Assim, do jeito que as coisas vão, Lima Barreto vai se transformar em profeta, pois cada vez mais o Brasil se parece com a Bruzundanga. Esta república também não precisa de cientistas: PRECISA DE DESINFETANTE! [E não deixe de ler Lima Barreto: Os Bruzundangas, Rio,1922, republicado pela L&PM pocket, Porto Alegre, 1998. Leitura Imperdível. Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta].

Última modificação em Quarta, 18 Setembro 2013 20:10
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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