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01 Jul 2019

ESCASSEZ X ABUNDÂNCIA, SOCIALISMO X CAPITALISMO

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Uma das características do capitalismo e que é sempre maior quanto maior for a liberdade de participar do processo de mercado, é a de aumentar as possibilidades de escolha dos consumidores, pela existência e diversidade da oferta de bens e serviços, produzidos com suficiência para atender às suas demandas.

 

Um dia desses, caminhando pelo bairro, lembrei que precisava trocar minha escova dental. Entrei em uma das várias drogarias que, mesmo com a Anvisa fazendo o possível – e, às vezes, o impossível - para impedir qualquer tipo de competição, recorrem à criatividade para disputar consumidores mediante ofertas e promoções. By the way, o que mais existe no Rio de Janeiro (além de políticos corruptos, buracos em calçadas e bandidos) são drogarias.

No corredor e diante da gôndola, ao observar a enorme variedade de escovas, fiquei indeciso e até momentaneamente incapaz de escolher alguma. Entrei em outra drogaria e aconteceu o mesmo, saí sem ter comprado o bendito apetrecho. Aconteceu o mesmo na terceira e só na quarta consegui fazer a escolha, mesmo assim ainda sem aquela certeza tranquilizadora. Por óbvio, não era a primeira vez que comprava uma escova dental, mas não me lembrava de ter experimentado indecisão semelhante. Aquela manhã de agenda vazia e de cabeça sem preocupações era propícia para aquele périplo de drogarias e também para abrir espaço para pensamentos mais amenos e reavivamento de lembranças, relatados em seguida.

Já reparou como é impressionante a variedade de tipos, finalidades, preços e cores de escovas dentais que se pode encontrar no corredor de uma boa drogaria? Tradicionais, elétricas, digitais, iônicas, unitufos, ortodônticas, interdentais, macias, ultramacias, extramacias, antiplaquetas, anticáries, antitártaros, branqueadoras, para limpezas profundas, multiprotetoras, multiusos, para gengivas sensíveis, para gengivas raiz, repairs, protects, gentles, true whites, médias, duras, ovais, retangulares, com cabos flexíveis, cabos duros, cabos retos, cabos com duas curvas, cabeças pequenas, cabeças grandes, verdes, brancas, azuis, laranjas, vermelhas, amarelas, todas com mil e um matizes, transparentes, com recipientes para proteger as cabeças, sem recipientes, caras, baratas, em dupla, solitárias, três pelo preço de duas, etc.

Tamanha diversidade (opa, essa palavra atualmente não me tem agradado, talvez fosse melhor escrever multiplicidade ou pluralidade) não torna mais difícil e ao mesmo tempo emocionante e divertida a escolha? Pois bem, isso só é possível em um sistema econômico quase sempre muito mal falado e caluniado, mas que desde o século XVIII vem melhorando progressiva e extraordinariamente a vida das pessoas e que atende pelo nome de capitalismo, mas que pode ser chamado, para evitar o carimbo de “fascista” e outros adjetivos, de economia de mercado! Nesse sistema – e só nele, contrariamente ao que seus professores de História muito provavelmente lhes disseram – o leque de escolhas costuma ser amplo, variado e rico, porque é da natureza desse tipo de organização econômica premiar quem atende melhor aos consumidores, o que desperta o empreendedorismo e  a necessidade de esforçar-se e de manter-se em estado de alertness para não ser deixado para trás no desenrolar do processo de mercado.

É fácil perceber que em sistemas capitalistas o que vale para escovas dentais aplica-se ipsis litteris a miríades de produtos. Basta entrar, por exemplo, em qualquer loja de celulares e acessórios, supermercado, confeitaria, restaurante ou em um aplicativo de reserva de hotéis.

Uma das características do capitalismo e que é sempre maior quanto maior for a liberdade de participar do processo de mercado, é a de aumentar as possibilidades de escolha dos consumidores, pela existência e diversidade da oferta de bens e serviços, produzidos com suficiência para atender às suas demandas.

Voltando ao que disse lá atrás, enquanto observava os diversos tipos, cores e preços de escovas nas drogarias, por alguma associação mental fora de meu controle veio-me à lembrança um episódio real que aconteceu com o saudoso Donald Stewart Jr., fundador e principal líder do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e que ele sempre gostava de contar.

Em visita a Moscou, dois ou três anos antes do desmoronamento da União Soviética, ele entrou em algo semelhante a um supermercado, onde encontrou uma gôndola com alguns pares do modelo único de sapatos que, de tão toscos, mal acabados e feios chamaram a sua atenção. Resolveu então comprar um deles, com o intuito de mostrar sua “qualidade” para amigos quando voltasse ao Brasil. Depois de alguns minutos, apareceu um funcionário para atendê-lo, a quem pediu que lhe trouxesse um par para experimentar. Imediatamente, o homem disse-lhe que os sapatos daquele tamanho estavam esgotados e, ao ser perguntado como sabia com tanta certeza que não os encontraria no estoque, respondeu instantaneamente que o estoque de muitos produtos, entre eles o de sapatos masculinos e femininos, estava zerado. Donald, então, indagou-lhe sobre a possibilidade de voltar alguns dias depois, na véspera do voo de regresso ao Brasil. A resposta também foi rápida e fulminante: “O novo carregamento de sapatos só vai chegar daqui a 5 ou 6 meses”.

Se morasse em Moscou, a escolha de meu saudoso amigo seria entre comprar um número maior e calçar com um jornal, comprar um número abaixo e espremer os dedos ou, simplesmente, não comprar nem um e nem outro.

Nenhuma surpresa ou novidade, não é? É muita arrogância e excesso de confiança no próprio conhecimento acreditar que um grupo de técnicos e burocratas tem a capacidade de saber quantos pares de sapatos, digamos, tamanho 42, ou qualquer outro bem e serviço, devem ser produzidos. Mises, na segunda década do século passado, mostrou magistralmente que é impossível realizar o cálculo econômico nos sistemas de planejamento central.

A escassez, meus amigos, é uma consequência inevitável do socialismo, assim como a abundância é uma característica exclusiva da economia de mercado que caracteriza o capitalismo. Quem duvidar pode procurar um refugiado venezuelano e perguntar-lhe quantos tipos e marcas de escovas dentais ainda existem em seu desafortunado país.

 

 

 

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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