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04 Mai 2004

Mais Desemprego, Logo Mais Crime. É assim?

Escrito por 

A veiculação de uma pesquisa precisa se cercar de cuidados. Do contrário, o leitor leigo fica com a impressão de que algo foi demonstrado sem tê-lo sido.

Felix que potuit rerum cognoscere causas.
Vírgilio, Eneida


A imprensa tem sido inundada nos últimos tempos por “pesquisas” que chegam, partindo de uma base movediça de dados, a conclusões peremptórias. Conclusões são extraídas sem que se indique o que lógica e empiricamente as embasa, sem que se desconfie que as metodologias empregadas para derivá-las podem se revelar falhas. Matéria de capa da revista Época (5/4) apregoa que pesquisa prova que o desemprego faz o crime aumentar: “o grau de violência dos delitos pode variar de acordo com o desespero econômico de quem os pratica”. A veiculação de uma pesquisa precisa se cercar de cuidados. Do contrário, o leitor leigo fica com a impressão de que algo foi demonstrado sem tê-lo sido. Por reivindicarem uma autoridade intelectual especial, as pesquisas, quando mal conduzidas, são mais perigosas que opiniões infundadas. Como os resultados dessas pesquisas são apresentados como científicos, a mídia não deveria se limitar a divulgar conclusões.

Deveria também revelar, ainda que de forma sucinta, com base em que metodologia foi feito determinado estudo. Muitos dos dados estatísticos que freqüentam diariamente as páginas dos jornais geram a suspeita de que, mesmo que tenham sido obtidos com o requerido cuidado, não são tratados com um método que respalde as inferências feitas. Num bom número de casos é inevitável a sensação de que os números são manipulados de modo a se compatibilizarem com determinados pressupostos ideológicos. A violência é caso típico. Para explicar o aumento da criminalidade é forte a tendência a recorrer ao reducionismo economicista.

Segundo os dados da pesquisa reproduzidos por Época, “de 2001 a 2003 o ganho médio dos paulistanos caiu 18,8% e a oferta de trabalho 22%, enquanto nas ruas furtos e roubos a transeuntes aumentaram quase na mesma proporção, 23%”. O questionamento inevitável: como saber que um tipo de fato “de natureza mais econômica” – o desemprego - determina outro “de natureza mais social - o crime? Infelizmente, na matéria não se indica o tipo de tratamento estatístico que foi dispensado aos dados. Por exemplo, uma análise baseada em correlações não pode respaldar as afirmações taxativas do semanário: “pesquisa inédita confirma que o desemprego dos últimos anos lançou os trabalhadores no mundo do crime”. Noções básicas de estatística ensinam que não há relação de causalidade entre variáveis que apresentam correlação. Portanto, a conclusão de que desemprego causa o aumento da criminalidade é errada se obtida por meio de estatística de correlação. Pode-se defender o que a pesquisa defende alegando que se duas variáveis estão correlacionadas é possível, mesmo que uma não cause a outra, alterar uma alterando a outra. O problema é que pode haver outras variáveis envolvidas na origem do problema; e deixar de identificá-las compromete irremediavelmente a qualidade explicativa da pesquisa.

Afirma-se na matéria que “os furtos que não envolvem ameaça ou agressão direta às vítimas têm uma relação mais direta com a queda na renda da população”. Examinando-se as freqüências apresentadas, verifica-se que furtos em estabelecimento comercial e furtos a transeuntes aumentaram em 24%. Os furtos ocorridos em residência e de objetos deixados no interior de veículos aumentaram em 69%. De saída, cumpre salientar que essas modalidades de furto podem ser executadas mais facilmente por pessoas menos escoladas, ao passo que outros tipos de crime – como assaltar bancos e carros-fortes - envolvem meticulosos planejamento, armamento pesado e a formação de quadrilha. Segundo a matéria, “pesquisas mostram que boa parte dos que entram para o crime em períodos de recessão permanece nele mesmo quando o índice de desemprego cai e os rendimentos médios aumentam de novo”. Ora, isso não é compatível com a tese central da matéria/pesquisa. Sem falar que implica o abandono do principio segundo o qual cessante causa, cessat effectus.

Num primeiro momento a matéria chama a atenção para o fato de que houve aumento de furtos e que isso está relacionado com o aumento do desemprego e a queda da renda. Mais adiante a matéria aponta que houve, por exemplo, diminuição de homicídios dolosos em 25% e redução de assalto de automóvel em 32%. Em respeito ao requisito da coerência, a pesquisa não tem como impedir que desses números se extraía a conclusão de que o aumento do desemprego faz diminuir os crimes mais violentos. Já que matar alguém deve ser considerado muito pior que furtá-lo, pode-se, por absurdo, inferir, em consonância com o espírito lógico da pesquisa, que o aumento do desemprego e a diminuição da renda do trabalhador podem ser correlacionados com a diminuição dos crimes mais graves. Mas por que os autores da matéria não estabeleceram também essa correlação? Não cabe supor que subitamente despertaram para a precariedade de certas inferências baseadas em estatísticas oficiais nem sempre confiáveis. Extrair conseqüências de dados estatísticos destacando alguns deles e colocando outros na penumbra pode ser expressão de inépcia metodológica ou de viés ideológico.

Prejudica o caráter científico de uma pesquisa confundir correlação com causa e efeito. Apregoar que uma variável A está associada a uma outra B é completamente diferente de afirmar que A causa B ou vice-versa.
Com base nos dados apresentados na matéria, pode-se, quando muito, sustentar que se constatam alterações na freqüência com que determinadas modalidades de crime ocorrem. O que, aliás, é fato conhecido pelos especialistas. As atividades criminosas se concentram em determinadas áreas em virtude do maior potencial de ganho ou da maior facilidade das operações requeridas. O crime é uma atividade que tem sua rationale econômica e operacional. Quando, por exemplo, fica mais difícil vender um carro furtado, em função da repressão aos receptadores, pode acontecer uma migração para outra área de atuação menos vigiada e reprimida. A pesquisa revela apenas variação nos índices de incidência dos diversos tipos de crime.

A conclusão extrapola essa constatação ao deixar de levar em conta que mudanças de freqüência não significam que os agentes sejam outros. Pode estar havendo uma migração: os que atuavam numa modalidade de crime se deslocaram para outra. O que está sendo sugerido na matéria é que o desempregado está engrossando as estatísticas dos furtos. Fica a seguinte dúvida: estariam os bandidos que entraram na carreira quando o desemprego era bem menor se aposentando ou saindo de cena para dar lugar aos neodesempregados?

O tipo de crime que tira o sono do brasileiro não é o furto decorrente do desespero dos que não têm o básico para sobreviver, e sim o assalto feito por bárbaros que desrespeitam acintosamente o valor sagrado da vida humana.. E isso não é conseqüência do aumento do desemprego, e sim da desumanidade de alguns celerados. O que apavora o brasileiro é o estado de guerra – o toque de recolher, a lei do silêncio - imposto por bandidos a uma cidade como o Rio de Janeiro. E só atribui isso ao aumento do desemprego o nefelibata que chupa nuvens para cuspir fumaça sobre a cabeça dos desavisados.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:31
Alberto Oliva

Filósofo, escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior). Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução", "A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia".

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