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28 Mar 2005

A Revolta de Cidade Oriental

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Assim caminha o Brasil, um governo incompetente, um Congresso indecente e um Judiciário que opta por luxos que são um acinte à população majoritariamente pobre.

Foi uma surpresa e tanto para os integrantes do poder legislativo (com minúsculas, mesmo) do pobre município goiano de Cidade Ocidental, que tem 50 mil habitantes.

Quase vizinhos de seus poderosos pares do Congresso Nacional, que fica a apenas 45 Km, os políticos da pequena cidade ousaram estabelecer dois salários extras para o prefeito, a vice e meia dúzia de secretários, que passariam a ter “direito” a 14º e 15º salários.

A população já aguardava ansiosa, e, ao anúncio do resultado da corporativíssima votação, os manifestantes, literalmente, saíram no braço e os integrantes da câmara quase apanharam de fato – aliás, diga-se, levaram uma surra moral. Os que defendiam os bons costumes políticos, de resto solenemente ignorados pela politicalha local foram reprimidos pela polícia, mas saíram convictos de que o protesto valeu. Certamente, a carreira política daquela gente encerrou-se ali; porém, com prazo de validade até as próximas eleições.

O levante popular passa a fazer parte da história daquela cidade, e quem quer que venha a eleger-se por lá, haverá de pensar duas vezes antes de legislar em causa própria ou de apaniguados.

A ganância sempre leva as pessoas a extremos de insensatez, e o salário, de R$8.400,00 não é pouco para os padrões brasileiros, especialmente em se tratando de políticos, que não são lá de se matar de trabalhar. Haverá quem diga que foi um ato de selvageria, que as coisas não se resolvem assim, mas esta mini-revolução demonstra que quando os cidadãos são afrontados daquela maneira, uns berros e solavancos adquirem uma certa legitimidade.

Os poderes constituídos impõem aos cidadãos a força do Estado de maneira ilegítima, ditatorial mesmo, quando perpetram abusos descarados, como os aumentos de verba dos deputados, patrocinados por Severino Cavalcanti, que tornou-se o ícone, o manual vivo de tudo o que não se deve fazer em matéria de (boa) política.

O governo Lula vai definhando; não obstante ter submetido o país a sacrifícios enormes para fazer encolher a dívida pública, vem aumentando seus gastos sobremaneira, no inchaço de 114 mil novas contratações – FHC eliminou 180 mil cargos -; no aumento do número de beneficiados pela Lei Orgânica de Assistência Social – Loas, a um custo extra de R$26 bilhões; no acréscimo de 44% em seu gasto com funcionários; nos R$180 milhões de seu Aerolula, que nem tem voado tanto assim, mas avião parado também gera altos custos.

O Judiciário faz a sua parte na orgia de gastos, com seus automóveis Ômegas importados e o aumento de 40% em sua folha de pagamentos e o legislativo, como se não tivesse sua imagem suficientemente conspurcada, aumenta sua folha em 62%.

Não são poucos os motivos para a revolta de Cidade Ocidental, até a Receita Federal faz a sua parte, gentilmente cedendo um (ou mais) automóvel Mercedes-Benz importado, de altíssimo luxo ao comando da Marinha. Imagine-se um almirante desfilando de Mercedes, bonito, não? Ao invés de leiloar a quase limusine, destinando os recursos a fins mais nobres, a Receita acha de fazer cortesias às forças armadas.

O governo federal gasta mais com carros oficiais, gasolina, motoristas e peças que com o programa Primeiro Emprego. Assim caminha o Brasil, um governo incompetente, um Congresso indecente e um Judiciário que opta por luxos que são um acinte à população majoritariamente pobre.

Em suma, os três poderes, de costas para o país. Certamente por isto, o pessoal de Cidade Ocidental desistiu do diálogo.

Última modificação em Quarta, 18 Setembro 2013 20:10
Luiz Leitão

Luiz Leitão da Cunha é administrador e consultor de investimentos, sendo articulista e colunista internacional, especialmente para países lusófonos. É colaborador do Jornal de Brasília, Folha do Tocantisn, Jornal da Amazônia, Diário de Cuiabá, Publico (Portugal), entre outros.

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