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28 Mai 2019

A TRISTEZA DE DOM QUIXOTE

Escrito por 

Toda vez que ouvimos o termo “burguês”, a primeira imagem que nos vem à mente é a de uma classe social. Tal imagem, em si, não é incorreta; porém, a burguesia, o aburguesar-se, é muito mais do que apenas uma referência a uma determinada posição socioeconômica ocupada por um indivíduo; é, antes de qualquer coisa, um estado de espírito.

 

Toda vez que ouvimos o termo “burguês”, a primeira imagem que nos vem à mente é a de uma classe social. Tal imagem, em si, não é incorreta; porém, a burguesia, o aburguesar-se, é muito mais do que apenas uma referência a uma determinada posição socioeconômica ocupada por um indivíduo; é, antes de qualquer coisa, um estado de espírito.

É próprio deste quadro que o indivíduo acabe agindo de modo avaro, movendo-se meramente por impulsos sensuais. Quadro este que se manifesta das mais variadas formas e, por vezes, muitos daqueles que acreditam, sinceramente, estarem combatendo a tal da burguesia, não fazem outra coisa senão reforçar essa mentalidade e, por fim, acabam, também, aburguesando-se.

Neste sentido, o espírito burguês não é característico duma única classe social. Ele se faz presente em todas, pois esse espírito se caracteriza pelo fato de que os indivíduos imersos nele encontram-se mui satisfeitos com a nulidade existencial, mas jamais estão contentes com aquilo que possuem em termos materiais; bem ao contrário do espírito aristocrático, onde os indivíduos veem-se satisfeitos com aquilo que tem, mas vivem incomodados com o que são, pois tem em vista que sempre podemos nos tornar pessoas melhores do que somos.

Nesse sentido, as sociedades democráticas acabam se vendo condenadas a cair, com o tempo, numa tirania, ou numa oclocracia (governo das massas), devido à disseminação irrestrita do espírito burguês e o consequente esfacelamento, e mesmo discriminação e condenação, do espírito aristocrático.

Por meio desse processo psicossocial, os meios acabam por serem convertidos em fins e os fins reduzidos unicamente a obtenção de meios, o que, por sua deixa, acaba levando a formação dum ambiente onde impera o egoísmo travestido de cidadania, e a sede por prazeres acaba sendo fantasiada com toda ordem de justificativas coletivistas.

Qualquer semelhança com as desventuras contemporâneas, não é mera coincidência. Não mesmo.

Por essas e outras que o filósofo brasileiro, de tendências anarquistas, Mário Ferreira dos Santos, dizia que para podermos atuar de modo mais efetivo e autônomo numa sociedade democrática, deveríamos nos guiar por valores e sentimentos aristocráticos e não, como aconteceu, e está acontecendo, de sermos contaminados pela vileza advinda do aburguesamento, porque este apequena a alma, enquanto aquele fortalece e dilata o espírito.

Ao seu modo, o aburguesamento geral infantiliza a sociedade por instigar as pessoas a viverem unicamente numa perspectiva materialista, imediatista e hedonista e, tal perspectiva, apenas degrada tudo o que é digno e bom.

Não precisamos ser um estoico para perceber que um indivíduo que coloca bens dessa ordem no centro de suas preocupações acabará, com o tempo, se desfibrando. Não há dúvidas de que uma sociedade que celebra valores dessa ordem é uma sociedade fadada ao esfacelando.

Enfim, se somos daqueles que acreditam que o dinheiro compra tudo, e que não há poder superior a ele, é porque, bem provável, estejamos confundindo meios com fins e que nos encontramos em vias de sermos possuídos por esse íncubo burguês putrefaz, goste-se ou não disso.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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