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28 Mar 2005

A República de Pernambuco

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De todo modo, a reforma frustrada demonstra que o presidente da República não possui autoridade.

A reforma ministerial que não houve em nada alterou a vida do homem comum, que segue achando o presidente simpático e sem nenhuma ligação com o governo pelo qual deveria ser em última instância responsável. Ao povo o presidente continuará pedindo paciência, lançará programas que não se concretizarão, falará sobre a transposição do rio São Francisco como se isso fosse obra acabada, seguirá com metáforas futebolísticas e piadas nos seus improvisos e a isso se chama agora de carisma e não de populismo.

De todo modo, a reforma frustrada demonstra que o presidente da República não possui autoridade. O desafio do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, foi, como todos perceberam, apenas o álibi para esconder a dificuldade de realizar uma troca complicada de ministros diante da voracidade dos companheiros e dos possíveis aliados para sua reeleição. Mais uma vez ao não cumprir suas promessas, além de frustrar e mesmo irritar aos parlamentares em geral, e alguns em particular, o presidente complicou a relação do Executivo com o Legislativo, que no período inicial do seu mandato traduzia uma romântica lua-de-mel.

Confirma-se, pois, que o mais alto mandatário do país é como a rainha da Inglaterra que reina, mas não governa. Na política ele dispõe dos serviços do ministro da Casa Civil, José Dirceu. Na economia, o ministro Antonio Palocci, seguindo a risca o modelo macroeconômico anterior, faz sucesso tendo aproveitado a calmaria internacional que até agora favoreceu os países subdesenvolvidos.

E enquanto o governo faz campanha corteja o PMDB, a realidade de pobres e remediados prossegue imersa na crescente dificuldade acarretada pelo aumento do desemprego, pela diminuição da renda, pelos absurdos impostos, pela violência que prossegue impune e para qual foi proposta a ridícula solução da proibição de armas que continuarão permitidas apenas para os bandidos.

Entretanto, recente pesquisa CNI/Ibope divulgada em 22 deste, apontou alguns resultados que não devem ter alegrado o presidente Luiz Inácio e seus companheiros. Isso porque, se a confiança no presidente continua alta, caiu de 63% em novembro para 60% agora. Acrescente-se que se esse dado surpreendentemente favorável virou manchete de jornal, outros devem ser mostrados para se ter uma visão mais clara da opinião pública.

Assim, mesmo que o povo pareça anestesiado pela propaganda, 52% dos entrevistados perceberam que a taxa de desemprego aumentou contra 43% em novembro; 54% acreditam que a inflação vai aumentar contra 52% da pesquisa anterior. Apareceu também um certo desencanto com relação ao combate à fome e à pobreza (35% apontaram bons resultados governamentais contra 42% que elogiaram as ações sociais em novembro). Foram apontadas como áreas em que o governo teve o pior desempenho o combate ao desemprego (30%), o combate à violência (30%) e o combate à fome (13%). Aumentou o descontentamento com a área da Saúde.

Esses resultados, que o diretor de Operações da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Marco Antonio Guarita, credita a piora nas expectativas dos entrevistados em relação aos índices econômicos, aparece também em na disputa eleitoral na qual o presidente Luiz Inácio já não surge como vitorioso no primeiro turno de 2006, conforme levantamento anterior. Se a eleição se processasse agora ele iria para o segundo turno se o candidato fosse o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ou o prefeito José Serra, ambos de São Paulo e do PSDB. Houve também a ascensão do prefeito do Rio de Janeiro, César Maia (PFL), que duplicou a intenção de votos entre novembro e março, o que explica a intervenção federal na área da Saúde daquela cidade, inclusive, com o efeito especial das barracas do Exército cujos hospitais, diga-se de passagem, funcionam com grande dificuldade.

Nessa pesquisa não se levou em conta o fator Severino. O presidente da Câmara, que não esconde como se faz política no Brasil, se já corre o risco de sofrer impeachment por ação dos mesmos que o elegeram, tem feito sucesso em termos populares e já lhe passa pela cabeça transformar-se de presidente da Câmara em presidente da República. Seria a consagração da República de Pernambuco, a continuidade da política do “jabá com gerimum”, que na espiral do tempo viria para substituir a antiga “política do café com leite”, que nos primórdios da República fornecia ao Executivo federal, através de forças oligárquicas dos respectivos estados, o respaldo para controlar o Congresso.

De todo modo, cenários políticos mudam velozmente ao sabor de fatores inesperados e muita coisa pode acontecer até a eleição de 2006. Pareciam impossíveis as derrotas de Marta Suplicy e Grenhalgh. Aconteceram. Como os petistas são barbudos têm mais motivos para por as barbas de molho.

Última modificação em Quarta, 18 Setembro 2013 20:10
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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