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28 Mar 2005

A Doença do Anti-Americanismo

Escrito por 

Critiquemos pois, o que merece ser criticado; e lutemos para que os EUA continuem seguindo o caminho de defesa da liberdade que sempre os caracterizaram.

Imaginemos por um instante que existe um movimento mundial que prega a eliminação completa da internet. Esse movimento vê na expansão da rede um mal total e absoluto, uma iniquidade inaceitável, e dedica toda sua energia a combatê-la. Questionados sobre os eventuais pontos positivos da internet, os membros desse movimento declaram enfaticamente que não há nenhum, que ela só trouxe problemas, e que ela é a culpada de uma lista impressionante de mazelas, desde a destruição dos padrões éticos de vários povos até o avanço da devastação ambiental. Alguns dos ativistas, mais moderados, até reconhecem que a internet trouxe alguns benefícios no começo, mas imediatamente apontam que as distorções que ela criou nos tempos recentes completamente eliminaram as eventuais vantagens iniciais, e que ela é agora um veículo da perdição, a fonte de todo mal.

Com alcançe mundial, esse movimento de combate à internet organiza-se principalmente por mail lists, fóruns de discussão e websites que denunciam as mazelas da grande rede e auxiliam os militantes a planejarem e executarem manifestações de repúdio a esse grande mal.

Irônico? Absurdo? Ridículo? Pois guardadas as devidas proporções, esse é o exato retrato do que é o anti-americanismo.

Embora latente durante todo o século passado, nos últimos anos o anti-americanismo adquiriu proporções nunca antes vistas. Mais do que nunca, os Estados Unidos da América transformaram-se no Judas do planeta, o bode espiatório de todo e qualquer problema que exista em qualquer lugar do mundo. Na dúvida, a culpa é dos americanos.

Pior, essa onda de intolerância e preconceito não está mais restrita aos grotões distantes do mundo, às multidões de palestinos armados queimando bandeiras nas ruas de Gaza ou aos eventuais militantes comunistas. Mesmo na Europa o anti-americanismo avança de forma preocupante, aprofundando o fosso filosófico que separa o Velho Mundo do Novo. E na América Latina, um dos seus tradicionais redutos, o anti-americanismo agora atinge níveis tão alarmantes que começa a ser incorporado na retórica e na ação diplomática de várias nações, inclusive o Brasil.

Se o crescimento de uma visão tão preconceituosa sobre qualquer povo por si só já seria preocupante (como o triste histórico do anti-semitismo na Europa nos ensina), no caso específico em questão o fenômeno é ainda mais alarmante por representar a rejeição não apenas da política norte-americana do momento, mas também dos princípios filosóficos que os EUA representam. O anti-americanismo contemporâneo é também frequentemente a revolta contra a economia de mercado, a democracia representativa, os direitos individuais, a tolerância religiosa e cultural, e a ética herdada da religião judaico-cristã.

Mas o que os anti-americanistas ignoram é que suas manifestações de ódio aos EUA só são possíveis graças às instituições de proteção da liberdade criadas ou popularizadas pelos Estados Unidos, que permitem que eles destilem sua raiva livremente; às tecnologias de informação massificada desenvolvidas por empresas americanas, que viabilizam a divulgação rápida ao redor do mundo da propaganda anti-EUA; à indignação com certas situações (como o caso dos prisioneiros em Guantánamo) que aflora justamente da adesão coletiva (ao menos parcial) aos conceitos tipicamente americanos do Constitucionalismo e do Império da Lei; e à crítica raivosa ao capitalismo, à democracia e à liberdade produzidas por pensadores a ideólogos de toda sorte, que só podem desenvolver suas idéias graças ao ambiente de liberdade intelectual que a influência do capitalismo e da democracia estadunidenses geram. De forma tragicômica, o anti-americanismo é a expressão cabal do sucesso dos EUA e da expansão das suas instituições, cultura e valores por todo o mundo.

Por isso podemos dizer, sem medo de cair em erro, que o anti-americanismo é fundamentalmente hipócrita e auto-destrutivo. É hipócrita por fazer amplo uso dos recursos que a própria influência estadunidense criou para atacá-la; e auto-destrutivo porque seu sucesso significaria a aniquilação dos valores e instituições que ele pretensamente defende, e que constituem o cerne da cultura norte-americana. Do anti-americanismo nada de bom surgirá; apenas violência, intolerância, ignorância e obscurantismo.

Isso não quer dizer, de forma alguma, que precisemos colocar os EUA em um pedestal; a americofilia incondicional é tão ridícula e absurda quanto o seu oposto. Mas é necessário readquirir o senso de equilíbrio e parar de atacar o que os EUA deram de bom ao mundo. Não nos esqueçamos que sem eles os totalitarismos teriam vencido, e hoje poderíamos estar sob o jugo de ditaduras nazistas, fascistas, ou comunistas. Ao longo do século passado os EUA foram o bastião da liberdade em um mundo assolado pelo espectro das tiranias, o farol da racionalidade em meio à insanidade. E se hoje podemos discordar das ações que este ou aquele governo norte-americano adota, é porque os princípios de liberdade que os EUA sempre representaram venceram. Se assim não fosse, não teríamos sequer essa possibilidade.

Critiquemos pois, o que merece ser criticado; e lutemos para que os EUA continuem seguindo o caminho de defesa da liberdade que sempre os caracterizaram. Mas tomemos o cuidado de preservar a poderosa herança libertadora que os Estados Unidos nos deram, pois destruí-la significa aniquilar o nosso próprio futuro.

Última modificação em Quarta, 18 Setembro 2013 20:13
Luiz Antonio Moraes Simi

Bacharel em Administração pela Universidade de São Paulo, tem sua experiência profissional concentrada nas áreas de finanças e controladoria. Atualmente reside em Munique, onde trabalha com projetos para a área de exportação de uma grande companhia alemã. Um seguidor do liberalismo clássico e da Escola Austríaca de Economia, acredita em livre mercado, liberdade individual, pluralismo político e direitos individuais inalienáveis. É colunista dos sites Capitólio.org e Liberdade Econômica, e mantém um blog, "Livre Pensamento", dedicado à discussão da doutrina liberal.

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