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25 Mar 2019

A ESTRATÉGIA DA NAFTOGAZ NO CONFLITO RUSSO-UCRANIANO

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A Rússia é o principal provedor de gás natural para o continente europeu. Só a Alemanha compra 60% da commodity, fornecida por corporações gigantes russas deste setor, como GAZPROM ou ROSNEFT. Quase todo esse gás passa por gasodutos que cruzam a Ucrânia e, não por acaso, este país também é muito dependente da matéria-prima energética proveniente de seu vizinho setentrional.

 

A Rússia é o principal provedor de gás natural para o continente europeu. Só a Alemanha compra 60% da commodity, fornecida por corporações gigantes russas deste setor, como GAZPROM ou ROSNEFT. Quase todo esse gás passa por gasodutos que cruzam a Ucrânia e, não por acaso, este país também é muito dependente da matéria-prima energética proveniente de seu vizinho setentrional.

Como a situação política na Ucrânia tem sido marcada por instabilidade nos últimos anos, oscilando entre governos pró-russos e anti-russos, a nova estratégia do Kremlin tem sido criar uma rota alternativa para transportar a maior parte de seu gás para a Europa, sobretudo a Alemanha, sem que ocorram sobressaltos. Nesse sentido, apostou-se na construção de uma nova linha de transmissão no Mar Báltico, chamada de NORD STREAM 2, que é do interesse de Moscou e de Berlim, mas tal ação pode levar a duas consequências se nada for feito para contornar o resultado que ela trará: o isolamento geopolítico da Ucrânia e o seu estrangulamento econômico.

(Gasodutos e oleodutos entre Rússia e Europa)

O principal gasoduto atualmente utilizado foi construído nos tempos da extinta União Soviética, quando sequer se cogitava a instabilidade política contemporânea. Por volta de 70% do gás russo passa por território ucraniano e, quando do esfacelamento da antiga União Soviética, em 1991, ex-repúblicas que faziam parte dela se viram como países independentes, com necessidade de se inserirem no mercado mundial. Neste momento, a Ucrânia percebeu a possibilidade de fazer negócios, usando da principal “vantagem comparativa” que detém: a posição geográfica em que está entre o maior produtor, a Rússia, e os maiores consumidores, os países da Europa Ocidental.

São cerca de dois a três bilhões de dólares anuais deixados como uma espécie de pedágio para transmissão do gás natural, o equivalente a entre 2,5% a 3% do PIB da Ucrânia, um percentual considerado relativamente pequeno perto do tamanho do problema político. No que envolve os dois países, a Rússia e a Ucrânia, os contenciosos podem ser usados como instrumentos políticos. Dependendo do tipo de governo que assuma o controle na Ucrânia, a Gazprom, uma das principais exportadoras russas, pode aliviar ou aumentar os preços. As animosidades entre os dois países já levaram os ucranianos a ficarem sem gás em 2006 e em 2009 e, neste último caso, boa parte da Europa também foi afetada. Esta situação levou à busca de alternativas, como a importação de gás liquefeito do Qatar, ou gás natural da Noruega.

A partir de 2010, novas mudanças de rumo ocorreram. Victor Yanukovich assumiu a Presidência adotando um governo pró-Rússia que, por sua vez, aplicou uma política de preços baixos e trouxe benefícios à economia e às empresas do setor na Ucrânia. No entanto, embora a principal companhia de distribuição de gás deste país, o monopólio estatal NAFTOGAZ, empregue 175.000 pessoas, se tornando uma das principais fontes de renda para os ucranianos, tal situação é responsável também pelos déficits públicos, algo que, ao longo do tempo, sempre oscilou de acordo com a política adotada em relação à Federação Russa.

O mau desempenho da economia aliado à insatisfação política resultaram em meses de violentas manifestações em 2014, conhecido como EUROMAIDAN, o que levou ao afastamento do Presidente e à sua substituição por um governo pró-ocidental, próximo da União Europeia e OTAN. Tal movimento levou à detenção do conselheiro da Naftogaz, Yevehen Bakulin, e à sua substituição por Andriy Kobolyen, o novo CEO, cujas metas são basicamente duas: acabar com a corrupção da empresa, o que girava em torno de 4,5 bilhões de dólares ao ano (aproximadamente 17,16 bilhões de reais, de acordo com a cotação de 18 de março de 2019), ou  5% do PIB do país, segundo o Institute for Economic Research and Policy Consulting, um think tank de Kiev; e acabar com a dependência da Rússia. Observadores apontam que a primeira meta não é fácil devido aos poderes já encastelados na empresa, por essa razão a segunda meta se tonou o passo decisivo.

Acrescente-se que a implementação de uma reforma no setor do gás, retirando seus subsídios ao consumidor, fez com que a Naftogaz passasse a dar lucros pela primeira vez em décadas, razão pela qual a medida passou a ser vista como uma garantia para manter a empresa e a economia do setor saneados, levando a certeza de que deve ter continuidade. Além disso, a utilização de equipamentos mais modernos, por exemplo, ainda pode fazer o consumo energético da Ucrânia cair para a metade, revelando um grande potencial de economia e aumento de eficiência. Tais considerações demonstraram que o desperdício ainda é alto no país, se comparado a outras economias. Por exemplo, a Ucrânia tem um nível de consumo per capita mais de três vezes maior do que a Polônia.

Nesse interim, a Naftogaz passou de uma empresa deficitária com perdas da ordem de 6% do PIB (2014) para responder por 13% da renda do Estado. E o novo CEO, Kobolyen, foi além, ao contornar a tática russa de pressionar com preços altos contra governos pró-ocidentais, adotando uma estratégia baseada nas regras do mercado. Nesse sentido, nos contratos, todo gás enviado pelos russos passou a ser de responsabilidade e controle de seus importadores quando chega ao seu destino. Desta forma, Kobolyen enviava o gás russo pelo gasoduto na Ucrânia até a Eslováquia para depois recomprar o gás que retorna pelo mesmo gasoduto. Ao invés de arcar com os custos acrescentados por Moscou, a estratégia da Naftogaz reduziu o valor a cerca de 20% do que seria gasto no caso de uma importação direta.

Por mais eficazes que sejam tais procedimentos comerciais, o presidente da companhia russa, a Gazprom, já anunciou que, em 2020, o gasoduto que atravessa a Ucrânia só levará 10% do que transporta atualmente, embora avaliações mais recentes sejam da ordem de menos da metade, ou seja, talvez na casa de 40% e não 10%. Ainda assim, será uma queda significativa.

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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