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13 Fev 2019

ATENÇÃO, RESPEITÁVEL PÚBLICO! VOTAÇÃO NO SENADO! O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA!

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Esperemos que o povo não deixe cair a peteca da mobilização, para que a velha política esteja de fato em seus estertores. É cedo para profetizar, contudo.

 

Os dois primeiros dias do mês de fevereiro deste ano ficarão registrados em todos os anais, narrações e porandubas (um estranho brasileirismo para designar narrativas de fatos históricos) de nosso Parlamento como os da desmoralização completa do Senado da República e sua transformação em picadeiro circense por parte de alguns nada ínclitos representantes do povo brasileiro.

Tratava-se da posse dos senadores eleitos em outubro de 2018 e da escolha do novo presidente daquela casa – desculpem, até que se prove o contrário, daquele picadeiro – que montaram no centro de um dito “espaço público”. Pois o que se viu foi um verdadeiro espetáculo circense de quinta categoria, dos mais antigos que percorriam cidades do interior, mas em que os leões eram desdentados, os trapezistas sofriam de artrite, os equilibristas tropeçavam nas próprias pernas e os coelhos dos mágicos escapavam das cartolas bem antes de sua exibição ao respeitável público, formado pelos palhaços pagadores de impostos.

A votação, que deveria ter ocorrido na sexta-feira, dia 1º, foi adiada para o dia seguinte, depois de muitos tumultos e bate-bocas absolutamente inadmissíveis entre os senadores. Uma senadora, para impedir a votação, chegou pateticamente a invadir a mesa e “roubar” do presidente da sessão a pasta de documentos em que o sujeito fazia as anotações.

O candidato à reeleição, cujo poder permaneceu intocado durante dezoito - sim, dezoito! - anos consecutivos, desde Collor até Temer, ameaçou agredir fisicamente um colega, em cena ultrajante e típica de uma briga de rua. Seu grupo, que pugnava pelo voto fechado e diante da decisão de cinquenta senadores (contra dois) pelo voto aberto, recorreu na madrugada de sexta para sábado ao ministro plantonista do STF, que se revelou um exemplo de amor ao trabalho, um contumaz especialista em varar incansável e exemplarmente altas noites, sempre labutando. Esse senhor, exemplo impressionante de patriotismo, então, determinou, por volta das quatro horas da madrugada de sábado, que a eleição fosse feita por meio de votação secreta. Era a Justiça também participando do espetáculo.

No sábado, os ilustres senadores voltaram ao picadeiro para escolher, entre oito candidatos, seu novo comandante. Após a retirada de várias candidaturas, procedeu-se então à votação secreta para escolher entre os restantes, mas muitos senadores fizeram questão de declarar suas escolhas em voz alta, marcando a posição decidida na véspera de que o voto seria aberto e dando um recado direto para o ministro do STF que trabalha até de pijama.

Na apuração aconteceu outro fato espantoso: foi detectada uma cédula a mais na urna, quando o presidente da sessão preparatória contou 82 votos, quando só há 81 senadores. Ou seja, alguém votou duas vezes, o que configura fraude. Todas as cédulas tinham sido assinadas por fiscais e colocadas em envelopes e as duas cédulas depositadas pelo fraudador estavam fora de envelopes. Os votos não foram contabilizados e – em autêntica destruição de evidências do crime cometido - foram destruídos, triturados em máquina. Sumiram com a evidência da fraude, e na frente de todos!

Isso provocou, naturalmente, o cancelamento da eleição e todas as demais cédulas foram então também destruídas antes que fossem apuradas. Foi quando o senador e candidato a mais uma reeleição, julgando-se dono do circo e visivelmente transtornado, dando continuidade ao espetáculo circense, ao invés de engolir, cuspiu fogo e retirou sua candidatura, por considerar o processo "deslegitimado". 

Em seguida, os ilustres parlamentares novamente discutiram e decidiram fazer uma segunda votação e finalmente conseguiram escolher o novo presidente da Casa. 

Todo esse relato pode parecer fantasioso, mas, infelizmente, é totalmente verídico. Uma vergonha que rebaixou ainda mais o Senado Federal, cuja popularidade já estava tão baixa que de cada quatro senadores que tentaram a reeleição em 2018, três fracassaram e das 54 vagas disputadas, 46 foram ocupadas por novos nomes, o que representa uma renovação recorde, de mais de 85%. 

O que podemos extrair de positivo depois disso tudo?

É de registrar-se que, previamente a todos esses episódios deploráveis, praticamente todos os brasileiros de bem haviam se manifestado contra a eleição do coroné que presidia o Senado, mediante enorme pressão popular observada nas redes sociais e em abaixo-assinado, que contou com mais de 2,5 milhões de assinaturas, exigindo que a votação fosse aberta.

Acredito, além disso, que são positivos: o próprio fracasso de sua inacreditável tentativa de reeleger-se; o fato de que o Senado está agora municiado com a possibilidade de redimir sua péssima imagem e sua honra, desde que abra procedimentos éticos e regimentais contra a senadora “ladra” da pasta, o senador gatuno que votou deliberadamente duas vezes a fim de anular o pleito e o outro senador que triturou as provas da fraude eleitoral; a possibilidade aberta ao novo presidente de pautar o impeachment de alguns ministros do STF e de empenhar-se, certamente com denso apoio popular, na abertura de um processo de expulsão do ex-presidente da casa. 

É também necessário não esquecer que, como o referido senhor é um verdadeiro cofre que guarda mil e um fatos e segredos acumulados ao longo de décadas, poderá usar esse conhecimento para desmascarar muitos corruptos, inclusive do Judiciário.

E o que poderá acontecer de negativo?

É simples: o coroné transformou-se em atroz e truculento inimigo – e ainda poderoso - do governo, já que atribuiu sua derrota ao chefe da Casa Civil e, sendo assim, fará de tudo para emperrar a agenda das reformas imprescindíveis não apenas ao Executivo, mas ao país. Também causará muitos problemas se conseguir abocanhar a CCJ do Senado, onde fará de tudo para atrapalhar a vida do ministro da Justiça e destruir a Lava Jato.

Esperemos que o povo não deixe cair a peteca da mobilização, para que a velha política esteja de fato em seus estertores. É cedo para profetizar, contudo.

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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