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03 Jan 2019

NÃO TENHO NENHUMA MENSAGEM

Escrito por 

 

 

 

Lembro-me que, na década de noventa, uma das turmas que lecionei, e que estava se formando, me pediu para sugerir uma frase para ser estampada em sua camiseta de formatura - camiseta a qual tenho guardada até hoje.

 

Lembro-me que, na década de noventa, uma das turmas que lecionei, e que estava se formando, me pediu para sugerir uma frase para ser estampada em sua camiseta de formatura - camiseta a qual tenho guardada até hoje.

Bem, sem pestanejar sugeri o seguinte aforismo de Mahatma Gandhi: “não tenho mensagem; faço de minha vida minha mensagem”.

Sim, isso mesmo, a frase foi adotada e a camiseta ficou porreta.

Mas não é de formaturas que intento parlar, nem tão somente do findar dum ano para o nascimento doutro. Gostaria, sim, de falar sobre outras coisas a partir dessa sentença e a respeito da experiência que nos é propiciada por ritos de passagem como o do réveillon.

Todos, desde os mais ingênuos, até os mais incrédulos, acabam nessas épocas entregando-se a alguma forma de reflexão. Sejam elas profundas ou superficiais, num clima etílico ou de estoica sobriedade, cada um ao seu modo inevitavelmente faz a sua retrospectiva do ano que se despede.

Ou seja: sem querer querendo, dum jeito ou doutro, acabamos realizando um exame de consciência, confessando para nós mesmo o que acabamos escrevendo no livro de nossa vida, enquanto mensagem frente à eternidade, neste período que finda.

Ao confessarmos o que fizemos, nos umbrais silentes de nossa consciência, temos uma visão parcial, porém sincera, de que tipo de pessoa estamos nos tornando e, se isso, de fato, seria algo desejável, pois, como dizia Millôr Fernandes, viver é como desenhar, mas sem borracha. E é cada desenho.

Aliás, quando perscrutamos nossa vida vivida, necessariamente identificamos os valores que dão sentido para nossas escolhas.

Não importa muito o que esteja fervilhando em nossa cumbuca nessa época do ano. Não mesmo. O que realmente deve ser levado em consideração, após o voluntário ou involuntário exame de consciência, é a necessidade de tomarmos uma resolução: sacrificar tudo aquilo que não mais deve fazer morada em nós.

O céu é dos violentos, ensina-nos Santo Agostinho; daqueles que, de maneira inclemente, desterram de sua alma tudo aquilo que nos afasta de nós mesmos, que nos distancia do caminho para a Verdade, e isso não é fácil não. E quem diz, de boca cheia, que procede assim com tranquilidade, de fato, nunca fez isto realmente.

Louis Lavelle, em seu livro “O espelho de Narciso”, nos chama a atenção para essas muitíssimas formas de falsa consciência, para o fato de que frequentemente aquilo que chamamos de sinceridade para conosco, não passar, na maioria dos casos, duma encenação feita por nós para nos ocultar de nós mesmos.

Basta que puxemos da memória nossos momentos de afetação de indignação ferida para constatarmos o quão artificiosas elas são, para vermos o quanto nos esforçamos para não ver, com os olhos da consciência, a verdade sobre nós que habita muito além do nosso pálido reflexo no espelho da nossas palavras.

Talvez, por essa e por outras razões, que as resoluções que firmamos nesses momentos, que são marcados por alguma espécie de rito de passagem, como um réveillon ou uma formatura, não conseguem efetivar nenhum efeito real e duradouro em nossa personalidade. Na real, esses propósitos acabam sendo tão efêmeros, e barulhentos, quanto uma queima de fogos de artifício.

Porém, cá estamos, involuntariamente, frente a mudança de calendário para o início dum novo ciclo solar e, por isso mesmo, podemos, voluntariamente, estabelecer um propósito para o ano que está por vir. Um propósito pequeno e mensurável; por isso mesmo, sincero e exequível.

Propor para si mesmo grandes mudanças, dum modo geral, podem sinalizar duas coisas: ou que estamos procurando uma justificativa grandiloquente para uma cagada descomunal, ou que estamos simplesmente querendo racionalizar nossa preguiça existencial frente a um projeto tão mirabolante quanto inexequível e, desse modo, poder tranquilamente continuar sendo o mesmo tonto de sempre.

Por isso, pensemos pequeno para que, passo a passo, possamos realizar algo que seja realmente significativo, por simplesmente ser pequeno, tal qual a milênios nos recomenda Confúcio em seu livro “Os Analectos”.

Dum jeito ou de outro, nossa vida acabará sendo a nossa grande mensagem que, com o tempo, bem provavelmente será esquecida e, em muitos casos, nunca será conhecida, mas que acabará ecoando na eternidade.

E qual será o eco que nos acompanhará para todo o sempre? Qual? Independente de qual seja, que ele não cause amargura em nossa alma quando estivermos diante da derradeira hora.

Bem, no meu caso, se possível for, espero que tenha um suave aroma de café e aquele inebriante odor duma biblioteca.

Um abençoado 2019 para todos.

 

 

 

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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