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24 Dez 2018

ABRIR REFORMANDO E REFORMAR ABRINDO

Escrito por 

A abertura econômica não é uma opção ideológica, mas uma necessidade lógica; e a questão relevante não é a abertura, mas a velocidade com que o novo governo vai conduzi-la.

 

O programa liberal de Paulo Guedes traz à tona uma questão mais velha que Matusalém: a da abertura ao livre comércio. É fora de dúvida que, sendo a economia brasileira uma das mais fechadas em um mundo cada vez mais aberto, libertá-la das amarras de nosso protecionismo crônico – que prejudica milhões de consumidores para beneficiar meia dúzia de produtores – é providência a ser tomada com urgência. Ocorre que resistir à competição faz parte da condição humana, seja no campo das relações sociais, seja no da economia: nenhum dono de padaria, restaurante ou barbearia ficaria contente com a instalação de um concorrente na mesma rua, e nenhum homem apaixonado exultaria de alegria se surgisse um rival a disputar o coração da amada.

São normais, portanto, as objeções que representantes do comércio e da indústria colocam ante a ameaça de que possam vir a ter de enfrentar qualquer tipo de competição interna ou externa. Sucede, porém, que os argumentos que empunham são improcedentes à luz do que é de fato relevante: a satisfação dos consumidores, entendida como o seu acesso a produtos de melhor qualidade e mais baratos.

A abertura econômica não é uma opção ideológica, mas uma necessidade lógica; e a questão relevante não é a abertura, mas a velocidade com que o novo governo vai conduzi-la. Embora o futuro ministro da Economia e o próprio presidente eleito tenham afirmado reiteradamente que o processo será gradual, muitos dos que vão sair de sua zona de conforto têm colocado suas bocas nos trombones.

Uma das reações é a de que, antes de promover a abertura, o novo governo teria de realizar todas as reformas e tarefas necessárias para reduzir o chamado “custo Brasil”, como a tributária, a desburocratização, a recuperação da economia, a queda das taxas de juros, a construção de ferrovias, estradas, portos e aeroportos etc. Abrir os mercados sem antes cumprir toda essa complexa agenda seria, alega-se, uma bordoada impiedosa e malvada nas empresas nacionais, há largo tempo habituadas ao protecionismo. Alguns chegam a invocar que a indústria brasileira já goza de estrutura consolidada e razoável competição interna. Ora, se é assim, por que temem a abertura?

Tal argumentação remete-nos a Frédéric Bastiat, economista e panfletário francês do século 19 que publicou, em 1845, um artigo tão bem-humorado quanto demolidor, intitulado A Petição, em que, por redução ao absurdo, redigiu um hipotético requerimento aos membros da Câmara de Deputados, em nome dos fabricantes de velas, candeias, lâmpadas, candelabros, produtores de sebo, óleo, resina, álcool e de tudo que dissesse respeito à iluminação. Na petição, clamavam por uma lei que impusesse a vedação total de todas as janelas, claraboias, frestas, cortinas, enfim, de qualquer abertura pela qual a luz do sol tem o péssimo costume de penetrar, para proteger essas indústrias dos prejuízos decorrentes da desleal concorrência e da ação predatória do astro-rei, o famigerado rival estrangeiro que tinha o desplante de oferecer iluminação sem custos para os consumidores.

Por óbvio, não há por que esperar pelo término de todas as reformas – nem por Hércules completar suas 12 façanhas e nem pelo Íbis ser campeão da Série A do Brasileirão – para só então começar a abertura comercial. Abrir reformando ou reformar abrindo é o caminho. Pela primeira vez em muitas décadas, a área econômica do governo é entregue a quem não tem vergonha de ser liberal e sabe que o governo não pode abrir mão desses dois objetivos, o das reformas e o da abertura, e que ambos os processos devem caminhar sincronizados ao longo do tempo.

Alvíssaras e prolfaças! Parece que o tão falado futuro começa a chegar para o Brasil.

 

 

Fonte:  “Gazeta do Povo”

Última modificação em Segunda, 24 Dezembro 2018 13:42
Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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