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17 Nov 2018

“AUSTRÍACOS” PODEM E DEVEM APOIAR O MINISTRO “MONETARISTA”

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Pela primeira vez em décadas - muitas e muitas delas! - a área econômica de um governo no Brasil ficará sob a responsabilidade de um economista verdadeiramente liberal, o mineiro Paulo Roberto Nunes Guedes, conhecido como um dos mais radicais monetaristas de carteirinha.

 

Introdução

Pela primeira vez em décadas - muitas e muitas delas! - a área econômica de um governo no Brasil ficará sob a responsabilidade de um economista verdadeiramente liberal, o mineiro Paulo Roberto Nunes Guedes, conhecido como um dos mais radicais monetaristas de carteirinha.

Graduado em Economia na Universidade Federal de Minas Gerais, de onde saiu, obviamente, como um keynesiano, Guedes fez o mestrado na Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, então sob a tutela de seu fundador Mario Henrique Simonsen, e lá solidificou seu conhecimento técnico. Embarcou depois para os Estados Unidos e obteve o grau de PhD na University of Chicago, em um tempo em que o Departamento de Economia daquela instituição fervilhava de economistas do porte de George Stigler, Arnold Harberger , Harry Johnson, Gary Becker, Robert Lucas Jr.  e Milton Friedman. Ao regressar ao Brasil, era um monetarista com sólido equipamento teórico e forte influência desses professores, mas já então também na fronteira da chamada revolução das expectativas racionais (conceito formulado pela primeira vez por John Muth em 1961) ou economia dos novos clássicos, desencadeada no início dos anos 70 e que se popularizou após a publicação de artigo assinado por Robert Lucas e Leonard Rapping, em 1969, sobre salário real, emprego e inflação [1], ao qual se seguiram diversos trabalhos de, entre outros, Robert Barro, Finn Kydland, Edward Prescott, Thomas Sargent e Neil Wallace.

Não só por esse currículo, mas também por ter convivido com ele durante anos, tenho certeza de que sabe que a saída para o Brasil não é o Galeão, nem Guarulhos e muito menos a social democracia que vem destruindo nosso país desde a chamada redemocratização, mas a economia de mercado, enfeixada em instituições que garantam os direitos fundamentais à vida, às liberdades individuais e à propriedade, respeitem as escolhas de todos os cidadãos, os tratem como adultos conscientes e não como criancinhas dependentes de babás, coloquem o Estado voltado para servi-los e compreendam que pessoas não podem ser consideradas meras engrenagens da sociedade, semelhantes às dos relógios. Adicionalmente, o novo ministro conhece e admira Mises, Hayek, Rothbard e a Escola Austríaca, mas difere de nós porque, sendo um Chicago boy padrão, não enxerga a metodologia da Escola Austríaca como uma teoria econômica rival, mas como tema a ser tratado em disciplinas de Ciências Sociais.

O apoio não é incondicional

O momento importantíssimo por que passa o Brasil, em que um novo governo com extraordinário apoio popular e com um programa econômico marcantemente liberal, não é apropriado para acentuar divergências, mas sim reforçar convergências entre a Viena de 1900 do início da década de 30 e a Escola de Chicago dos anos 60 e 70. E é evidente que ambas confluem no que efetivamente importa fora do mundo acadêmico, que é a vida dos 210 milhões de habitantes do Brasil.

Em outras palavras, o que devemos levar em conta nestes tempos promissores para o movimento liberal não é a economics, a teoria da economia, mas a economy, a economia do dia a dia das pessoas. Como ambas as escolas teóricas levam a programas de governo que se assemelham, não há motivo para nós, os austríacos, fazermos birrinha e não apoiarmos a política econômica anunciada por Guedes apenas porque ele é monetarista. Agir dessa maneira é incorrer em obstinação doentia.

Poderão arguir alguns leitores, talvez: “Mas como? O professor Iorio, um economista da Escola Austríaca e que há bastante tempo vem se empenhando para divulgá-la, tendo, inclusive, por isso, sacrificado várias oportunidades profissionais em que seria bem melhor remunerado, está defendendo o programa de um Chicago boy”? Minha resposta é: sim, estou e com muita alegria e esperança. Vou resumir por que, enfatizando: (a) as semelhanças na prática e (b) a necessidade do pragmatismo.

Esse apoio é dever patriótico, porque se trata de um programa de fato liberal, mas é evidente que não é incondicional. Não é questão de se bater palmas para tudo o que o governo fizer na área econômica, mas de aplaudi-lo quando fizer o que julgarmos bom e criticarmos caso venha a afastar-se, por qualquer motivo, da agenda liberal. Desaprová-lo a priori é uma tolice pueril, uma vaidade fútil, é juntar-se à oposição e, sem dúvida, contribuir para a recomposição da social democracia, que é justamente a visão de mundo que temos que combater.

(a) Reforçando convergências e esquecendo (ou adiando) as divergências

No que diz respeito às recomendações de política econômica, são muitas as semelhanças entre os austríacos e os monetaristas. Vou citar apenas algumas. [2]

Austríacos e monetaristas concordam que:

- A propriedade privada é uma das bases do progresso, assim como o livre comércio, a mobilidade de trabalho e capital e a globalização;
- É preciso haver harmonia entre economia de mercado, liberdade e ordem social;
- O poder do Estado deve ser limitado e o Estado deve cuidar essencialmente de defender a nação, a propriedade privada e algumas outras tarefas (aqui há variações e em ambas as escolas existem posições mais radicais, como Murray Rothbard e David Friedman, por exemplo);
- É preciso privatizar, desestatizar, desregulamentar e desburocratizar;
- Há que se respeitar ao princípio da subsidiariedade e o federalismo (descentralização política, econômica e administrativa) muito superior à centralização (mais Brasil e menos Brasília, mais Mises e menos Keynes);
- As desigualdades naturais são inevitáveis e todos os indivíduos devem ter o máximo possível de igualdade de oportunidades;
- As soluções de mercado para educação e saúde são superiores às “soluções” do Estado;
- A inflação é um fenômeno monetário;
- As teorias da exploração marxista e do intervencionismo keynesiano são completamente equivocadas, bem como o patrimonialismo, o corporativismo, o welfare state, o nanny state, a concessão de todo e qualquer privilégio, o rent seeking e o privilege seeking;
- Déficits públicos, endividamento do Estado e tributação progressiva são males e são desnecessários;
- O planejamento central socialista e o totalitarismo são inaceitáveis e a democracia não deve ser considerada como fim, mas como meio;
- Quaisquer controles de preços, seja de bens e serviços, seja da taxa de câmbio, salários, lucros, aluguéis e de toda a legislação sobre o salário mínimo desorganizam a economia e trancam o progresso.

Há outros elementos comuns às duas escolas, mas o importante é frisar, como fez o Prof. Israel M Kirzner, o mais proeminente economista vivo que segue a tradição de Carl Menger: [3]

“É importante não exagerar as diferenças entre as duas correntes... Existe uma quase surpreendente coincidência entre suas visões sobre muitas questões importantes de política econômica... mas ambas possuem basicamente o mesmo entendimento correto de como funciona um mercado, e isso é responsável pelo saudável respeito que as duas abordagens dividem em comum por suas realizações.”

Como se sabe, há divergências entre austríacos e monetaristas, porém praticamente todas são de caráter teórico e, portanto, de pouca ou nenhuma relevância para a situação que o Brasil vive hoje. [4]

(b) Nas condições atuais, pragmatismo é sinônimo de prudência e sabedoria.

Como já escrevi no início, o Brasil está na linha de largada de uma nova era, depois de muitos anos de estagnação provocada pela mesmice esquerdista da social democracia, em um verdadeiro minueto dançado nos salões da velha política por um refinado PSDB e um tosco PT, apoiados na orquestra mercenária do atual MDB. A boa nova é que o lulopetismo perdeu, o PSDB desmilinguiu-se, o MDB levou um direto no queixo e venceu o candidato que nos surpreendeu com uma proposta realmente liberal para a economia, reformadora na política e conservadora – como é quase toda a população brasileira – em termos morais e de costumes. É tempo de coisas novas na economia, na política e nos valores morais. 

O que é importante é que estamos diante da possibilidade efetiva de nos libertamos da semiescravidão que o ancien regime nos impôs. Ora, esse é um objetivo preconizado por economistas como Friedman e Hayek, Gary Becker e Mises, George Stigler e o próprio Rothbard, todos, aliás, membros da Mont Pelerin Society.

Esse é meu recado – que espero seja bastante claro – para certos radicais de Facebook, leftlibs (alguns ainda imberbes) que nunca escreveram mais do que “textões” nas redes sociais e youtubers em busca de seguidores e cliques em seus sininhos, defendendo valores que os identificam com várias pautas da esquerda, principalmente no que se refere aos valores morais e quando defendem a extinção do Estado. [5] 

Estando o Brasil atravessando a maior crise econômica e moral de sua história, com 12 milhões de desempregados, o sistema político e instituições como o Judiciário e o Congresso em descrédito e diante da possibilidade inegável que todos esses problemas sejam enfrentados da forma correta, depois de mais de trinta anos de rame-rame social democrata, agravado inacreditavelmente na era de trevas do petismo, só posso classificar como imaturidade ou tolice, ou ambas, bater o pé em libertarianismos radicais e arabescos teóricos.

Que importância tem, em termos pragmáticos e considerando a enorme crise e a possibilidade de sairmos dela, por exemplo, se o melhor método para estudar a economia é a Praxiologia de Mises ou o Positivismo de Friedman, ou se imposto é ou não roubo, ou se o processo de mercado austríaco é superior ou não à análise neoclássica de equilíbrio? Respondo: nenhuma! Não vamos enfraquecer nossas forças com divisões teóricas. No futuro, depois que a casa do mundo real estiver razoavelmente arrumada, aí sim, podemos convidar os monetaristas para uma sala e brigar com eles, tendo uma lousa e carteiras como cenário. O mundo, gente, definitivamente, não é uma sala de aula. Será tão difícil entender?

Ademais - e para encerrar - esta é pela primeira vez, desde que me entendo como analista econômico, lá no início dos anos 80, que tenho sentido a forte sensação de que vou falar bem de um governo... Isso não tem preço e preciso ver como se faz.

 

Notas bibliográficas

[1] Lucas, R. e Rapping, L., Real Wages, Employment, and Inflation, in: Journal of Political Economy, 1969, vol. 77, issue 5, 721-54.

[2] Mark Skousen publicou um livro que discute de maneira muito interessante as convergências e divergências entre as duas escolas: Vienna & Chicago: Friends or Fues? A Tale of Two Schools of Free-Market Economics. Washington. Regniring. 2005.

[3] Kirzner, Israel M., Divergent Approaches in Libertarian Economic Thought.Intercollegiate Review (January-February), p.102.

[4] As principais são a questão metodológica (uma divergência teórica importantíssima); o contraste (também teoricamente importante), entre a visão monetarista de mercados em equilíbrio e a abordagem austríaca do processo de mercado; a questão das “falhas de mercado” (cuja existência os austríacos negam); o melhor meio que o governo deve usar para que a moeda seja “saudável”, se deve regra x de Friedman para a política monetária com banco central “independente” ou o padrão ouro, ou o free banking, a necessidade ou não da existência de bancos centrais e das reservas fracionárias; e, por fim, as questões relativas à chamada “macroeconomia” e às teorias do capital, da moeda, dos juros e dos ciclos econômicos.

[5] É bom não nos esquecermos de que o próprio Lenin (em, por exemplo, O Estado e a Revolução), defendeu enfaticamente o fim do Estado, muito embora o seu conceito de Estado (assim como o de Marx), fosse o de “Estado da burguesia”, um fruto da sociedade sempre dividida dialeticamente em classes  e que a condição para a extinção desse Estado seria o fim prévio do capital e do capitalismo e, com isso, o das próprias classes sociais.

 

 

 

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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