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18 Mar 2005

O Fascínio Pelo Leviatã e o Horror ao Mercado

Escrito por 

O Estado forte pode vender a ilusão que se dedica a resolver os problemas da vida coletiva

O pior conservadorismo é o que se apega a teorias que a experiência se encarregou de derrubar. Causa espécie, depois de comprovada a inépcia do planejamento central e a eficiência da economia de mercado, a força dos grupos que sonham em repetir a experiência socialista na América Latina. Esquecem da observação de Marx: “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. A evidência empírica acumulada no século XX foi mais do que suficiente para demonstrar que até mesmo no plano da qualidade de vida o socialismo real ficou muito atrás das sociedades que praticaram a democracia associada à economia de mercado. Nunca houve antes na história da humanidade a oportunidade de se cotejar a performance de dois regimes políticos e dois sistemas econômicos vendo-os em ação em duas nações que antes da Guerra Fria constituíam uma só sociedade.

Foi possível fazer comparações objetivas entre sociedades - Alemanha Ocidental e Oriental, Coréia do Sul e do Norte – que tinham se tornado institucionalmente muito dessemelhantes, mas que tinham a mesma história, os mesmos costumes e tradições. Sendo assim, a que atribuir a recusa obtusa em reconhecer fatos e em medir desempenhos?

Fatores culturais, como a doutrinação maciça que a intelligentzia esquerdista hegemônica põe em prática, só em parte explicam o fenômeno do “ideal”, ideologicamente manipulado, que despreza a experiência dos povos. A razão mais funda é política. O mercado não tem como ser apreciado e valorizado por autoritários e aprendizes de ditadores pela simples razão de que, para bem funcionar, não pode ser submetido a controles diferentes dos que visam a garantir a concorrência e preservar o império do consumidor. Quanto mais poder, para além das poucas regulações indispensáveis, se exerce sobre o mercado pior é sua funcionalidade. Por isso controles dispensáveis, que só servem para gerar poder para os controladores, não têm como ser impostos e justificados.

Em virtude de o encabrestamento do mercado acarretar seu desfiguramento, seus adversários percebem que é melhor tentar destruí-lo que subjugá-lo. O tanto que se pode fazer para dominá-lo não se traduz em poder sobre a sociedade. Um mercado manipulado, dirigido por burocratas que determinam que empresas devem ser apoiadas, perde totalmente sua essência e sua razão de ser. Já não está mais sujeito às decisões soberanas dos consumidores. Como os autoritários e totalitários ambicionam deter mais e mais poder e o mercado não se presta a seus projetos de mando, a tendência é atacá-lo sistematicamente com vistas a substituí-lo por uma economia de comando na qual o Estado, os que o pilotam, fica senhor de tudo em sentido literal e figurado. Também se inscrevem entre os inimigos do mercado os intelectuais que sonham com um Poder que, à maneira de um Demiurgo, refaça o mundo do zero introduzindo todo tipo de controle para impedir que os interesses individuais se expressem e sejam de maneira regrada perseguidos.

Não é por acaso que o Estado é venerado pelos que satanizam o mercado. O Estado, na sua versão enxuta e eficiente, é instituição de vital importância: desincumbe-se de missões, dentre as quais se destaca a proteção do cidadão, que não têm como ser delegadas aos agentes privados. Transforma-se no mais frio dos monstros quando passa a controlar a vida das pessoas, quando é capturado por uma elite que distribui seus tentáculos de dominação por toda a sociedade. É com a implantação do Estado-leviatã, senhor de tudo, que sonham os que inflacionam demandas sociais para depois, uma vez conquistado o poder, solenemente desprezá-las e reprimi-las. O Estado é adorado pelos autoritários e totalitários não pelas nobres funções que abraça, e sim por ser possível por seu intermédio controlar tudo e todos. Por dar azo a que os abutres da liberdade conquistem o poder total.

Por não ensejar nada disso o mercado é execrado. O Estado totalitário provou que Hitler, Stalin, Mao et caterva foram mais poderosos que os velhos absolutistas. Os monarcas que prepararam o dilúvio da revolução francesa não concentraram um décimo do poder dos regimes comunistas.

O Estado forte pode vender a ilusão que se dedica a resolver os problemas da vida coletiva. Já o mercado, com suas falhas naturais, não propicia a concentração de poder porque os conhecimentos que em seu interior circulam estão dispersos e os mecanismos de concorrência não admitem um Grande Gestor. Precisa ser disciplinado para bem funcionar – sem reservas de mercado, oligopólios e outras deformidades – não para dar poder a este ou aquele agente. As outras instituições – e o próprio Estado – são fundamentais para que o mercado funcione de modo a servir sempre ao consumidor. Como o mercado não é entidade materializável como o Estado, não há como conquistar seu aparato e controlá-lo com mão de ferro. Seu funcionamento é necessariamente descentralizado. Daí se ajustar tão bem às instituições democráticas que distribuem e limitam o Poder. É isso que o torna tão pouco sedutor aos que anseiam ter mais e mais poder. O Estado, por deter o monopólio do uso da força física, pode facilmente se tornar concentracionista invadindo cada vez mais o espaço das ações e decisões individuais. Há sociedades, como a brasileira, que ficam inertes diante de seu avanço. Marx, que apregoava que no comunismo o Estado desapareceria, infelizmente não viveu para ver que o socialismo só produziu sua descontrolada expansão.

Marx mostrou-se ingênuo com relação aos mecanismos geradores de poder ao supor que a ditadura do proletariado teria um prazo de validade findo o qual se dissolveria sozinha. A pressuposição – o quanta credulidade! – era de que o poder só é disputado de modo selvagem por subsistirem entre as pessoas fortes diferenças materiais. Na América Latina o viés antimercado se manifesta como expressão do antagonismo ao lucro. O sonho da maioria é viver às custas do Estado. Só que este só é forte e próspero quando se torna sócio de um mercado pujante que lhe proporciona, pela via dos tributos, abundância de recursos. Só o entorpecimento do povo e a hipnotismo do demagogo explicam a difusão da crença de que o Estado, enfraquecendo ou destruindo o mercado, tem muito a oferecer a sociedade em termos materiais.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:14
Alberto Oliva

Filósofo, escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior). Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução", "A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia".

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