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18 Mar 2005

Os Alicerces de Uma Sociedade Democrática

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Preferimos ser passivos e apenas ficar vendo a caravana de informações passar ladrando como cães acovardados diante de nossa própria inércia existencial.

Uma obra pouco lida e discutida em nossa pátria é Da Democracia na América, do intelectual francês Alex de Tocqueville, obra a qual ele escreveu após uma visita aos EUA nos idos do século XIX onde procura descrever os aspectos dessa sociedade.

Nela, o autor aponta a importância que a livre-imprensa tem em uma nação para que essa possa ser uma sociedade democrática de fato, pois, é impossível para uma nação se dizer democrática quando procura criar mecanismos que cerceio da liberdade de expressão e quando a população se porta de maneira apática diante das informações que lhe chegam através de um minguado conglomerado de meios de comunicação.

Nesse sentido, segundo o autor, seria muito mais importante para a manutenção da ordem democrática a liberdade de expressão do que o direito ao voto. E justamente neste ponto que, até os dias de hoje, essa nação nos chama à atenção, pois, deste os tempos de Tocqueville, o que mais há nos EUA são jornais, rádios, canais de TV comunitários, web sites informativos, enfim, uma complexa rede de comunicação onde cada associação, cada entidade e mesmo muitos indivíduos possuem seu eco de comunicação.

Quanto a nós, nos restringimos a meramente ver e ouvir o que nos é transmitidos pelos grandes meios de comunicação que se fazem presentes em nossa sociedade. Temos inúmeras associações, mas poucas procuram manifestar suas preocupações com a sua comunidade, de compartilhar suas visões de mundo para a sociedade através de fanzines ou boletins informativos. Preferimos ser passivos e apenas ficar vendo a caravana de informações passar ladrando como cães acovardados diante de nossa própria inércia existencial.

Ficamos a nos ufanar de nosso sistema de urnas eletrônicas como um exemplo para o mundo e acabamos por não prestar atenção que tão moderno sistema de votação contrasta com colégios da rede pública carecendo de toda ordem de recursos, com uma boa parte da população analfabeta (literalmente) e outro bom tanto na condição de analfabetos funcionais. Temos a urna eletrônica e uma grande massa palperizada por um sistema patrimonialista que sufoca a sociedade com uma carga tributária extorsiva na promessa de solucionar essa periclitante situação.

Uma sociedade democrática não se faz meramente com engenhocas eletrônicas e com programas ditos sociais, mas sim e principalmente, com uma sociedade organizada através de várias associações manifestando o seu direito de livre-expressão que o atual governo tanto sonha cercear com o seu projeto do Conselho Federal de Jornalismo e com a dita ANCINAV e que nós, pacatos cidadãos, ficamos a ver pela telinha ilusionista da televisão como se fosse a coisa mais salutar do mundo. Talvez por essas e outras que continuamos a ser uma República de Bananas no pior sentido que essa expressão possa vir a ter.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:14
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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