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04 Out 2018

MILITARES E SKATISTAS

Escrito por 

Já faz um tempo vi uns garotos com uniforme da escola da polícia militar aqui de Florianópolis saindo de seu turno e rumando em direção ao ponto de ônibus. Nada me chamaria atenção, não fosse o fato de que um deles estava segurando um skate. Quando vi aquilo, algo arranhou no meu cérebro, como uma agulha no disco sujo. Parecia não combinar.

 

Já faz um tempo vi uns garotos com uniforme da escola da polícia militar aqui de Florianópolis saindo de seu turno e rumando em direção ao ponto de ônibus. Nada me chamaria atenção, não fosse o fato de que um deles estava segurando um skate. Quando vi aquilo, algo arranhou no meu cérebro, como uma agulha no disco sujo. Parecia não combinar… Mas, ÊI! Que idiota! E por que não?! Isso, por quê? Por que diabos um garoto que estuda em uma das melhores escolas de Florianópolis não pode, em seu tempo livre, andar de skate? E cá entre nós, qual corôa não tem inveja de poder fazer aqueles malabarismos? Eu, pelo menos, tenho.

Daí me vi em um preconceito idiota, do qual muitos de nós nutre em relação aos chamados “lugares da sociedade”. E não é a toa que muitas vezes nos damos mal, justamente, por causa disto… “Ele parecia tão honesto, bem vestido(sic), não pensei que fosse assaltar” ou pior, “ele me tratou tão bem no início, achei que seríamos um casal feliz até que um dia me bateu e depois quando não quis transar com ele, me estuprou”. Quem já não ouviu uma história similar, talvez com menor grau de violência e agressividade, mas de alguém que se enganou porque se baseou numa imagem preconcebida, o que chamamos de estereótipo? E creiam-me, isto é o que mais tem. Lembro-me quando tinha cabelo comprido e barba e as catracas “eletrônicas” misteriosamente travavam para mim, mas depois com o cabelo curto e barba feita, até ganhava alguns olhares simpáticos. O que verdade seja dita, não me tornava menos rabugento.

Agora me lembrei de quando dava aula em um cursinho na cidade de Lorena, SP, no chamado Vale do Paraíba, cidade no caminho do Rio de Janeiro ao longo da Rodovia Presidente Dutra. Eu chegava na cidade domingo a noite para começar no dia seguinte, pela manhã e os proprietários do curso construíram um “puxadinho” ao lado da secretaria onde enfiaram uns beliches professores-itinerantes como eu dormirmos. Como o vigia trabalhava em mais de um emprego combinamos com ele de pularmos muro, não precisando mais acordá-lo. Eu fazia isto há meses até que um dia, um professor novo de matemática, cujo apelido era “Grego” porque gostava da matéria desde criança fez o mesmo só que daí, a polícia veio. Detalhe, ele era negro e devia ter seus 1,90m. Não tenho como provar, mas tá na cara que o critério utilizado por quem o viu pular e acionou a polícia foi algo que me eximia de culpa previamente tendo feito a mesma coisa que era pular o muro. Essas relações ainda são marcadas no Brasil por imagens que as pessoas têm de raça, religião, sexo etc. e reconhecer isto não me torna um “esquerdista”, assim como desdenhar disto não me torna um “direitista”, apenas um ignorante.

Quando conversamos sobre o que as pessoas esperam das outras, a melhor e mais óbvia forma é conhecer o trabalho delas, isto é, não por suas palavras, afinal, como diz o Dr. House “todo mundo mente”, consciente ou inconscientemente. Observar o trabalho dos outros é analisar como agem e isto para mim já diz muito sobre como deveríamos ver o trabalho das escolas militares, não pelo que imaginamos de seu ensino, mas pelos seus resultados. Resultados estes não só nas notas ou aprovações de seus alunos em cursos superiores, mas a própria conduta desses jovens, muitos dos quais não seguirão carreiras militares, mas se tornam já durante seus períodos de estudo, cidadãos melhores.

O mais importante nisto tudo é ter opções e para as periferias urbanas coalhadas de agentes da violência, este tipo de escola lhes oferece algo escasso, o senso de disciplina e responsabilidade. Se o sujeito não se adaptar, achar “opressivo” ou algo do gênero é simples: basta sair e escolher outro tipo de escola. Mas o que não se pode é eliminar a chance de oferecer isto a quem mais precisa, simplesmente porque se nutre um preconceito tolo.

Mas nosso país está pleno de gente ignorante em cargos-chave. Não sei se o Brasil é mais prejudicado pelos bandidos ou pelos burros. Só para ilustrar o que digo, eu vi a Marina dizer que quer criar uma bolsa, para aqueles estudantes beneficiários do Bolsa-Família, ou seja, que já são beneficiados por uma bolsa para NÃO ABANDONAREM A ESCOLA! Ela está partindo da premissa que o sujeito abandona para ir trabalhar! Nada mais falso! Abandona de vagabundo mesmo, pelo fato de ganhar tudo sem fazer nenhum esforço! A escola pública já é, por si só uma bolsa de estudos, será que não se tocou?! Essa mulher, que ainda bem despenca nas pesquisas é o tipo de político sem pés na realidade que inventa moda e acaba por incentivar a perda moral.

Já li muitas das propostas dos presidenciáveis para a Educação e, sinceramente, não é com ensino integral, sala de informática, métodos inovadores, crédito para educação (que só beneficiam poucos que já cumpriram o ensino básico) ou outra coisa que irão revolucionar a educação brasileira, mas sim com português e matemática e DISCIPLINA para conseguir passar aqueles conteúdos básicos, básicos, básicos. Depois disto é que virão outras medidas, aliás, bem vindas. Enquanto políticos de carreira prometem algo que erra o alvo do PRINCIPAL PROBLEMA, um procurador de Mato Grosso do Sul criou uma das leis mais realistas do país, a chamada Lei Harfouche que penaliza delinquentes com medidas alternativas, mas que não os deixa sob o manto hipócrita da impunidade. E lamento muito seu desconhecimento até mesmo por aliados, cujo fogo deveria ser lançado contra aqueles que atentam contra os contratos sociais como pela necessidade de respeito em sala de aula. Mesmo economistas liberais, famosos, professores do Insper, coisa e tal que se metem a falar de educação ignoram, SOLENEMENTE, este aspecto. Eu sei, com conhecimento de causa porque já os indaguei sobre isto e tudo que vi foi descaso, desdém e ignorância sem vontade de conhecer, tipo “como eu não sei nada sobre isso prefiro ignorar”. Então, meu caro, vá, vá com deus para o teu inferno.

É isso meus caros, então a escola militar hoje em dia, nada mais é do que aquela velha escola pública que eu, décadas atrás tive, com um mínimo de regras observadas que permitia a execução da aula pelo professor. E o jeito que é hoje em dia, que tipo de professor sobrevive e se dá bem? O VAGABUNDO, aquele adorado no início e detestado depois porque permite tudo e não ensina NADA. É contra isso que me insurjo, essa auto-enganação que vivemos no país, de que tudo se dá um jeitinho e as reformas simples e necessárias, cujas medidas não são difíceis de entender, são adiadas.

Em algum ponto da história, nós civis perdemos o rumo. Precisamos reaprender como se faz e nada melhor do que ter humildade e perguntar COMO para quem sabe fazer.

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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