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11 Set 2018

PÚBLICA, GRATUITA E DE QUALIDADE: SOCIALISTAS SÃO TORCEDORES DO FOOTBALL AND ATHLETIC CLUB

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Só mesmo apelando para o bom humor, porque o conserto dos estragos que a esquerda produziu nas universidades públicas com sua politização e partidarização é tarefa para décadas e isso na melhor das hipóteses, que é a da eleição sucessiva de políticos em sintonia com o século XXI.

 

Quando comecei a lecionar na Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, no primeiro semestre de 1992, fiquei impressionado com as várias barraquinhas de partidos políticos instaladas no hall dos elevadores. Partidos em um lugar acadêmico? Isto já seria bastante para causar perplexidade. Porém, o que seria apenas perplexidade transformou-se em sentimento mais forte, algo como assombro misturado com tristeza e frustração, quando percebi que todas as bancas eram de partidos de esquerda – não de uma esquerda refinada como a do PSDB, mas daquela completamente bronca, do tipo “quem bate cartão não vota em patrão”.

Distribuíam panfletos e vendiam bottons e camisetas estampadas com alguns dos maiores assassinos da história da humanidade, dentro de um espaço que deveria destinar-se a buscar conhecimento científico, a pesquisas acadêmicas e a de gerar ideias que poderiam influenciar os partidos. Mas não! Percebi que ali era o poste que estava a urinar sobre o cachorro e que tudo parecia andar na contramão, porque eram aqueles partidos rupestres que executavam a tarefa de impor suas ideologias prontas goela abaixo dos alunos incautos. Cheguei a perguntar-me se havia mesmo prestado concurso para uma universidade ou se errara o endereço. Constatado que não me equivocara, tive que cumprir com minha obrigação e encarar o trabalho de frente.

Foi até engraçado no começo. Uma professora (na época muito popular entre os alunos e que chefiava um departamento que não era o meu) consultou-me se concordaria em ministrar a disciplina de Introdução à Economia, que pertencia ao seu departamento. Quando respondi que sim (recém-chegados devem sempre dizer sim), a coleguinha mostrou-me o programa e uma bibliografia em que só havia autores como Maria da Conceição Tavares, Inácio Rangel, Celso Furtado, Carlos Lessa, Luciano Coutinho e outros com o mesmo viés. Disse-lhe então que

preferia assumir outra matéria de meu departamento, Economia Monetária, alegando que uma das áreas de especialização de meu doutorado fora justamente a que estuda a moeda. Uma desculpa esfarrapada, naturalmente, porque qualquer economista que se preze está apto a ensinar cadeiras de introdução à nossa ciência. Mas meu argumento “colou”, acho que nem tanto por sua força bastante discutível, mas pela cara nada amigável que devo ter feito ao ler aquela bibliografia tétrica.

Hoje, pesando benefícios e custos, vejo que, mesmo naquele ambiente acadêmico hostil, consegui resultados positivos, principalmente porque acredito que tenha cumprido com minha obrigação – profissional e moral – de libertar as cabeças de milhares de jovens das minhocas socialistas que lhes foram introduzidas desde a mais tenra idade e que alguns colegas se empenhavam em transformar em cobras. E, mais do que isso, mostrar-lhes algo além do socialismo retrógrado, do keynesianismo e da teoria econômica mainstream, como soe ser a Escola Austríaca de Economia. Quem se der ao trabalho de consultar meu Currículo Lattes (esse monumento à burocracia facilitador de vaidades e da padronização por baixo), poderá ver que chegam a centenas as monografias que orientei baseadas na tradição iniciada por Carl Menger.

Contudo, a bem da verdade, quando comparo a Economia com as outras 31 unidades da UERJ, sinto-me como se tivesse trabalhado durante 25 anos no paraíso, porque lá os alunos têm acesso a todas as correntes de pensamento econômico, embora nos últimos anos o número de professores intervencionistas e socialistas tenha aumentado relativamente ao dos liberais.

Percebi que essa ocupação por partidos de esquerda começara, ainda timidamente, no início dos anos 70 e que não se restringia à UERJ, mas estendia-se a todas as nossas universidades públicas e que era cada vez mais forte o processo de envenenamento da academia por aquelas ideias completamente ultrapassadas e que sempre se mostraram desastrosas quando postas em prática. De fato, pude ver de muito perto que o atraso mental dos intelectuais que não pensam e dos estudantes que não estudam só é comparável ao dos professores que não ensinam, mas doutrinam, como naquele dia triste de 1999, em que ninguém menos que Fidel Castro, engambelado como um deus pela reitoria e por muitos professores foi homenageado e falou para centenas de autômatos sobre Globalização como causa de exclusão social. Obviamente, preferi ficar em casa.

Com a pandemia vermelha que se alastrou pelo país de 2003 até o impeachment da presidente que via sempre cachorros atrás de crianças enquanto estocava ventos e dobrava metas, a ocupação das universidades públicas e o seu uso para fins de doutrinação tornou-se cada vez mais agressiva e desavergonhada.

Não tenho mais paciência para gastar meu tempo explicando que ser comunista em pleno ano de 2018 equivale, para usar uma linguagem popular, a declarar-se torcedor do Football and Athletic Club, uma equipe - coincidentemente, de camisa vermelha - que disputou os primeiros campeonatos do “velho e violento esporte bretão” da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro - que naqueles tempos era ainda maravilhosa - e que foi extinta em 1912. Sim, ser comunista  hoje em dia, depois do que a história do século XX nos ensinou e a Venezuela ainda insiste em revelar despudorada e descaradamente, é como torcer pelo Football and Athletic Club, ou cheirar rapé para espirrar, comprar roupa nas Lojas Ducal e escovar os dentes com Kolynos.

Um dos motes que mais se ouvem nesses antros de esquerdismo vulgar em que metódica e progressivamente transformaram universidade pública brasileira é o da “em defesa da universidade pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada”. Quatro tolices em uma solitária e curta frase!

A primeira é que ela pode ser pública no sentido de ser estatal, mas não pertence ao público, não é minha e nem sua, porque eu e você só podemos usá-la se formos aprovados em algum exame seletivo.

A segunda é que essa gente ainda não entendeu o ensinamento mais do que surrado de Milton Friedman de que não existe nada grátis, seja um almoço, seja um curso em uma universidade, pois alguém necessariamente está pagando – no caso, impostos - para que outros estudem de graça.

Outra bobagem é defender a “qualidade”, por uma razão simples: quem é o idiota que é contra alguma coisa, seja uma universidade, um sapato ou lá o que for que não tenha qualidade? Dizer que é a favor da qualidade é um truísmo, soa como ser a favor de cantores afinados e contra os desafinados, ou como preferir vitórias a derrotas.

Por fim, resta a tal expressãozinha “socialmente referenciada” que, a rigor, em se tratando de universidades, é uma redundância, já que todas elas existem dentro da sociedade. Porém, quem conhece o dialeto da esquerda sabe que, quando se referem a uma universidade socialmente referenciada, o que estão dizendo é que deve ser alguma engenhoca que defenda ideias socialistas e comunistas – e apenas essas.

Vamos, lá, Football and Athletic, à vitória! O campeonato de 1906 ainda não está decidido!...

Só mesmo apelando para o bom humor, porque o conserto dos estragos que a esquerda produziu nas universidades públicas com sua politização e partidarização é tarefa para décadas e isso na melhor das hipóteses, que é a da eleição sucessiva de políticos em sintonia com o século XXI.

 

 

 

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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