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30 Ago 2018

O QUINTO PODER

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Em todo caso, não só o PT e o PSDB, mas todos os candidatos já se uniram para destruir Bolsonaro, o chamado mito, usando para isso especialmente o palanque eletrônico. Será o embate tradicional da velha e carcomida política contra uma espécie de novidade política e meios ainda mais modernos de comunicação. Resta aguardar para poder avaliar quando as urnas forem abertas qual é a força do palanque digital.

 

Em 1914, aparece referência ao quarto poder na obra La République des Camarades, de Robert de Jouvenel, no sentido de demonstrar a importância do jornal para políticos. Segundo o autor:

“No Palais-Bourbon, os políticos mais em evidência de vez em quando se detêm algum tempo na sala de espera para distribuir apertos de mão aos informantes parlamentares e para lhes explicar suas atividades. E quando um parlamentar conhecido se abstém durante muito tempo de frequentar essa pequena bolsa de confidências e difamações, sua pessoa pode ser vista a perambular tristemente de grupo em grupo, à cata de jornalista que se disponha a vir solicitar confidências destinadas ao grande público.

Virá depois o rádio, com seu enorme poder de ampliar a voz. Como explicou Mac Luhan, “o rádio simplesmente permitiu a primeira experiência de massa da explosão eletrônica”. Não somente foi usado por líderes políticos, como permitiu o entretenimento, especialmente novelas, venda de produtos e, até fake news, como a transmissão nacional, em 1938, da adaptação da Guerra dos Mundos, de H. G, Wells, por Orson Welles. Os americanos entraram em pânico pensando que os marcianos tinham invadido o mundo.

Na década de 50 surge a televisão. Então, a palavra se fez imagem e habitou entre nós. Esse meio de comunicação contribuiu de forma marcante para influenciar costumes, atitudes, valores, assim como ampliou o espaço público para o poder dos políticos.

Além de fonte de lazer de entretenimento, a TV tornou-se o palanque eletrônico, termo que criei em um dos meus livros, O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – a ética da malandragem. Serviu, pois, como palco para campanhas políticas, propagandas governamentais, promoção ou destruição de personalidade políticas. Como afirmou Roger-Gérard Schwartzenberg, na sua obra O Estado Espetáculo, “Associada ao rádio, atualmente a televisão se transformou no principal esteio da mediapolítica e do star system na vida pública”. Acrescento que a mídia se tornou o quarto poder ampliado.

Mas eis que outro poder se alevanta, graças a anotável invenção do computador. Então, os meios digitais se transformam nos palanques digitais da esfera política. Chega a Internet inaugurando o quinto poder com suas mídias interativas: WhatsApp, Twitter, Instagram… Nesse meio não apenas se recebe a informação, mas se repassa informação, discute, opina, polemiza, ama ou odeia, destrói ou constrói, como é próprio da humanidade. Uma interação muito acima do quarto poder. Nesse espaço livre não é preciso o conhecimento físico, pois o contato se faz de mentes para outras mentes e tudo se processa numa velocidade espantosa e instantânea através da Rede.

Se no início a Internet era pouco accessível, hoje grande população mundial pode navegar no mundo virtual. E quando alguém encontra um tema ou assunto que representa uma aspiração, uma ideia, algo que toque as emoções e as necessidades comuns, pode mobilizar multidões.

Um tema motivador/mobilizador pode trazer à tona outros temas mobilizadores. Por exemplo, em, 2013, a manifestação contra o aumento de vinte centavos no preço dos ônibus, encabeçado pelo grupo passe livre, culminou em um grande movimento popular baseado em insatisfações difusas, que acabaram focando no Fora Dilma, Fora Lula, fora PT. Milhões foram às ruas em todo Brasil, convocados por redes sociais e o resultado foi o impeachment de Dilma Rousseff.

Nesta eleição poderemos observar se o quinto poder se imporá ao quarto poder. Isto porquê, de um lado temos o candidato Jair Bolsonaro, filiado a um pequeno partido, sem recursos financeiros, com míseros segundos de televisão, mas apoiado pelas redes sociais a ponto de ser chamado de fenômeno.

De outro, um candidato como Geraldo Alckmin, pertencente a um grande e tradicional partido, apoiado por um grupo de partidos, com o maior tempo de televisão e de recursos financeiros partidários. Alckmin já profetizou que o segundo turno será disputado entre ele e o candidato do PT. Uma união que pode parecer de inimigos, mas que sempre teve o profundo amor do PSDB o qual pode ser ilustrado pela devoção de Fernando Henrique Cardoso a Lula. Quem sabe até, se Alckmin vencer, seu primeiro ato será conceder indulto ao presidiário.

Em todo caso, não só o PT e o PSDB, mas todos os candidatos já se uniram para destruir Bolsonaro, o chamado mito, usando para isso especialmente o palanque eletrônico. Será o embate tradicional da velha e carcomida política contra uma espécie de novidade política e meios ainda mais modernos de comunicação. Resta aguardar para poder avaliar quando as urnas forem abertas qual é a força do palanque digital.

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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