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05 Ago 2018

ATRAVESSANDO O CORREDOR

Escrito por 

Num mundo cada vez mais polarizado e com as redes sociais sendo confundidas com a realidade, faz-se necessário “atravessar o corredor”. Sair de sua pequena bolha e conversar, de fato, com o outro lado. As mudanças do Facebook, porém, ajudaram a alimentar a câmara de eco e o viés de confirmação de cada um.

Num mundo cada vez mais polarizado e com as redes sociais sendo confundidas com a realidade, faz-se necessário “atravessar o corredor”. Sair de sua pequena bolha e conversar, de fato, com o outro lado. As mudanças do Facebook, porém, ajudaram a alimentar a câmara de eco e o viés de confirmação de cada um.

A esquerda fala muito em tolerância e pluralidade, mas tem se mostrado a mais intolerante e dogmática na prática. Sua tática, cada vez mais radical, tem sido demonizar os adversários, tratados como pessoas ruins. É o monopólio das virtudes que impede qualquer contato com conservadores. O corredor fica fechado.

Quando alguém tenta atravessa-lo, é alvo de uma patrulha organizada e barulhenta. O caso mais recente foi o do ator Mark Duplass nos Estados Unidos. Ele esteve com o conservador Ben Shapiro e publicou um comentário elogiando suas boas intenções, e recomendando que seus colegas “progressistas” acompanhassem suas opiniões, mesmo não concordando muito com elas.

Foi alvo de tanto ataque que acabou publicando um covarde pedido de desculpas, alegando não endossar preconceitos, ódio, homofobia, xenofobia ou intolerância. Ou seja, acusou Shapiro de ser isso tudo logo depois de elogiar seu caráter! Os esquerdistas não aceitaram qualquer aceno ao outro lado do corredor. Na teoria, podem dialogar com conservadores, mas não com esse conservador específico. Ou com Jordan Peterson, Jonah Goldberg, Dave Rubin etc.

No fundo, não aceitam conversa com conservador algum. E ainda usam a tática de dizer que os conservadores de hoje são piores, como se aceitassem conversar civilizadamente com um William Buckley da vida. Na verdade, a esquerda não tolera divergência alguma, e precisa retratar seus oponentes intelectuais como monstros justamente para impedir o debate.

Isso não é exclusividade da esquerda, claro, apesar de ser um fenômeno mais presente entre “progressistas”. Mas vemos muitos à direita agindo da mesma forma.

No Brasil tivemos o caso da seita reacionária detonando Janaina Paschoal após ela tecer críticas a uma ala de seguidores do Bolsonaro, que seria um PT com sinal trocado. O alvo foi certeiro: essa turma comprovou o alerta, e passou a xingar a advogada. Não há espaço para divergências saudáveis: ou ela se mostra leal ao líder, ou é uma traidora infiltrada.

Não acho que devemos debater com todos, até porque há quem não aceite a premissa de um debate civilizado. Petistas, comunistas em geral e fascistas estão nessa categoria. Mas se não atravessarmos o corredor para ouvir o que o outro tem a dizer, estaremos nos fechando em tribos fanáticas. Dá a sensação de que só nosso grupo é bom de verdade, mas encerra qualquer possibilidade de crescimento intelectual.

 

Fonte: ISTO É

Última modificação em Domingo, 05 Agosto 2018 12:22
Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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