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20 Jun 2018

A “CERTIDÃO DE ANTECEDENTES CRIMINAIS” DA NOSSA REPÚBLICA

Escrito por 

Omitiram também a você, certamente, que durante a República Velha houve muitas fraudes eleitorais e o coronelismo campeava explicitamente e sempre “passaram batidos” na hora de informar sobre as suspeitas recorrentes de fraudes nas urnas Smartmatic. Ou não?

 

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Introdução

É claro que você estudou História do Brasil e que deve lembrar-se até de todos ou de pelo menos alguns de seus professores. É inequívoca também a importância de conhecermos as origens de nosso país, a formação do povo e da sociedade e os acontecimentos importantes que se sucederam até os nossos dias. Ninguém poderá negar essas obviedades.

Infelizmente, porém, é quase certo que deixaram de ensinar a você todas as informações que vou listar neste artigo, porque a História que é lecionada nas escolas brasileiras é completamente deturpada e eivada por uma abominável ideologia que contamina, segundo pesquisa de 2016, 85% dos professores dessa importantíssima disciplina, segundo nos informa matéria do jornal A Gazeta do povo, de Curitiba, com base no trabalho acadêmico intitulado “Esquerda ou Direita? Professores, Opção Política e Didática da História”, de Caroline Pacievitch e Luis Fernando Cerri, professores de História, respectivamente, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).  O trabalho pode ser baixado aqui.

A dupla de docentes fez um levantamento com 288 professores de História no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Em resposta a uma das perguntas do questionário - sobre em qual partido costumam votar nas eleições -, 84,5% dos professores brasileiros disseram preferir siglas de esquerda ou centro-esquerda.  As de centro, centro-direita e direita – permita-me ressalvar que sou avesso a essa classificação -, somadas, corresponderam a somente 15,5% dos entrevistados. 

A Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) – entidade sabida e incontestavelmente de esquerda, embora insista em camuflar isso – em relatório de 2004, chegara a conclusões semelhantes: quando perguntados se concordavam com a afirmação “a liberdade e a igualdade são importantes, mas se tivesse que escolher uma das duas, consideraria a igualdade como mais importante, isto é, que ninguém se veja desfavorecido”, 75,5% dos entrevistados optaram pelo “sim”. Embora o relatório da Unesco tenha escapulido sub-repticiamente dos  termos esquerda e direita, esse dado costuma ser usado para nortear currículos simpáticos à esquerda.

Entretanto, Pacievitch e Cerri sustentam que os professores, atualmente, têm um papel limitado de influenciar o pensamento do aluno, uma crença a meu ver a ser discutida, embora, para bem de todos os que prezam a liberdade, a Internet – especialmente as chamadas redes sociais - esteja progressivamente contribuindo para criar obstáculos às doutrinações políticas nas salas de aula.

Dadas essas explicações, passo a relatar a verdadeira folha corrida, que mais se assemelha a um prontuário policial, da república brasileira, com dois objetivos: divulgar o que deveria (mas certamente não foi) ter sido ensinado e mostrar dados em apoio à tese de que a república em nosso país não corresponde à formação histórica do nosso povo, de que sua imposição foi um autêntico golpe, de que os brasileiros, contrariamente aos norte-americanos - que são republicanos (e não apenas “estão” republicanos), embora “estejam” republicanos desde 1889, não são, devido às suas raízes históricas, republicanos, mas monarquistas, embora, devido à ignorância que lhes é imposta pela omissão, por parte de nossos livros didáticos à la MEC, de fatos importantes, não se deem conta disso.

A “folha corrida” republicana

Para começo de conversa, enquanto no Brasil Imperial tivemos uma só Constituição - a de 1824 -, nos 129 anos decorridos desde 1889, tivemos o incrível número de seis constituições federais, nos anos de 1891, 1934, 1937, 1946, 1967 e 1988. Você acha isso bom?

Mudamos nosso sistema monetário nove vezes: réis até 1941, cruzeiro em 1942, cruzeiro novo em 1967, novamente cruzeiro em 1970, cruzado em 1986, cruzado novo em 1989, cruzeiro mais uma vez em 1990, cruzeiro real em 1993 e real desde 1994. É muita volubilidade, não acha?

Nosso Congresso, por sua vez, chega a nos fazer lembrar aquelas casas de tolerância e cassinos do passado, que eram sistematicamente fechados pela polícia para serem reabertos algumas propinas depois, porque foi fechado simplesmente seis vezes: em 1891, de 1930 a 1934, de 1937 a 1946, em 1966, de 1968 a 1969 e em 1997.

Os locatários dessa verdadeira “casa da mãe Joana” – ou seja, os presidentes -, por sua vez, foram despejados em seis golpes de estado, nos anos de 1889, 1930, 1937, 1945, 1955 e 1964.

Adicionalmente, tivemos um referendo absolutamente ignorado pelo governo, o das armas (2005), e um plebiscito em que as regras do jogo foram manipuladas para que o resultado favorecesse o regime republicano presidencialista (1993), inclusive com dois golpes baixos, instrumentalizados pela lei 8.624, de 4 de fevereiro de 1993, cujo objetivo era legitimar, após 104 anos, o golpe militar que impôs a república aos brasileiros em 15 de novembro de 1889. O primeiro, um ouchi gari, foi proibir os membros da família imperial de fazerem campanha e o segundo, um harai-goshi, foi alterar o dia da votação, constitucionalmente prevista para 7 de setembro, data que nos remete à Independência e valores monárquicos, antecipando-o para 21 de abril, um  feriado que presta homenagem a Tiradentes, galgado à condição de herói nacional pelo golpe de 1889, que – e duvido também que seu professor de História tenha mencionado isto a você -, que, se tivesse sido exitoso, separaria Minas do resto do Brasil, com a consequência intuitiva de que nosso país seria esfacelado em dezenas de republiquetas, à semelhança ao que ocorreu com a América Latina espanhola. Por falta de ídolos, os republicanos do séc. XIX transformaram Tiradentes no símbolo do “heroi” que morreu em prol da “liberdade”.

Voltando ao “prontuário policial”, você sabia que 13 presidentes foram depostos, seja constitucionalmente mediante impeachments, mortes, renúncias ou golpes (e até um suicídio) e, portanto, não cumpriram seus mandatos? Eis a relação: Deodoro (1891), Afonso Pena (1909), Rodrigues Alves (1918). Washington Luís (1930), Júlio Prestes (1930), Getulio (1945 e 1954), Carlos Luz (1955), Jânio Quadros (1961), João Goulart (1964), Costa e Silva (1969), Tancredo Neves (1985), Collor (1992) e Dilma (2016). Treze presidentes afastados em 129 anos significa aproximadamente um presidente deposto a cada década.

Algum de seus professores lhe disse também que, se incluirmos as posses de interinos, 31 de nossos presidentes não foram eleitos pela via direta? Foram eles: Deodoro (1889), Floriano (1891), Prudente (1894), Campos Sales (1898), Rodrigues Alves (1902), Afonso Pena (1906), Nilo Peçanha (1909), Hermes da Fonseca (1910), Venceslau Braz (1914), Rodrigues Alves (1918), Delfim Moreira (1918), Epitácio Pessoa (1919), Arthur Bernardes (1922), Washington Luiz (1926), Júlio Prestes (1930), Getulio (1930), José Linhares (1945), Café Filho (1954), Carlos Luz (1955), Nereu Ramos (1955), Ranieri Mazzilli (1961 e 1964), João Goulart (1961), Castelo Branco (1964), Costa e Silva (1967), Médici (1969), Geisel (1974), Figueiredo (1979), Tancredo (1985), Sarney (1985), Itamar (1992) e Temer: (2016). Sabendo que, de Deodoro a Temer, 37 pessoas ocuparam o cargo de presidente da república, então 84% deles não foram chegaram aos cargos por meio de eleições diretas.

Omitiram também a você, certamente, que durante a República Velha houve muitas fraudes eleitorais e o coronelismo campeava explicitamente e sempre “passaram batidos” na hora de informar sobre as suspeitas recorrentes de fraudes nas urnas Smartmatic. Ou não?

No que diz respeito a revoltas, guerrilhas e revoluções, o número chega a 32, o que corresponde a um UFC de quatro em quatro anos: o golpe republicano (1889); a Primeira Revolta de Boa Vista (1892-1894), a Revolta da Armada (1892-1894), a Revolução Federalista (1893-1895), a Guerra de Canudos (1893-1897), a República de Curani (1895-1900), a Revolução Acreana (1898-1903), a Revolta da Vacina (1904), a Segunda Revolta de Boa Vista (1907-1909), a Revolta da Chibata (1910), a Guerra do Contestado (1912-1916), a Sedição de Juazeiro (1914), as Greves Operárias (1917-1919), o Levante Sertanejo (1919-1930), a Revolta dos Dezoito do Forte (1922), a Revolução Libertadora (1923), a Coluna Prestes (1923-1925), a Revolta Paulista (1924), a Revolta de Princesa (1930), a Revolução de 1930, a Revolução Constitucionalista (1932), a Revolta Mineira (1935-1936), a Intentona Comunista: (1935), o Caldeirão de Santa Cruz do Deserto (1937), a Revolta de Jacareacanga (1955-1956), a Revolta das Barcas (1959), o Contragolpe de 1964, a Luta Armada (1965-1972), a Guerrilha de Três Passos (1965), a Guerrilha do Caparaó (1967), a Guerrilha do Araguaia (1967-1974) e a Revolta dos Perdidos (1976).

Coincidentemente, 32 também foi o número de episódios do mesmo tipo ocorridos nos 67 anos do Império (1822-1889), ou seja, um MMA a cada dois anos. Mas isso não significa que a república é duas vezes mais pacífica do que o Império, porque não podemos nos esquecer de que o período monárquico foi um tempo de consolidação de uma nação com imensa extensão territorial, ao passo que no período republicano tal processo já havia sido consolidado.

Foram os seguintes os episódios ocorridos entre 1822 e 1889: Confederação do Equador (1823-1824); Guerra da Cisplatina - Brasil contra Argentina e rebeldes uruguaios (1825-1828); Revolta dos Mercenários - mercenários contra o Império, Rio de Janeiro (1828); Noite das Garrafadas - insurreição popular e confronto entre brasileiros e portugueses, Rio de Janeiro (abril de 1831); Cabanada - insurreição popular, Pernambuco e Alagoas (1832-1835); Federação do Guanais - revolta separatista e republicana, Bahia (1832); Revolta do Ano da Fumaça - Minas Gerais (1833); Revolta de Carrancas - insurreição escrava, Minas Gerais (1833); A Rusga - revolta entre conservadores monarquistas e republicanos, Mato Grosso (1834); Cabanagem - insurreição popular, Pará (1835-1840); Revolta dos Malês - insurreição religiosa, Bahia (1835); Revolução Farroupilha - revolta separatista e republicana, Rio Grande do Sul (1835-1845); Sabinada - insurreição popular, Bahia (7 de novembro de 1837-1838); Balaiada - insurreição popular, Maranhão (1838-1841); Revoltas Liberais - São Paulo e Minas Gerais (1842); Revolta dos Lisos - Alagoas (1844); Motim do Fecha-Fecha - Pernambuco (1844); Motim do Mata-Mata - Pernambuco (1847-1848); Insurreição Praieira - revolta liberal e republicana, Pernambuco (1848-1850); Guerra contra Oribe e Rosas - Brasil, Uruguai e rebeldes argentinos contra Argentina (1850-1852); Revolta do Ronco de Abelha - Nordeste (1851-1854); Levante dos Marimbondos - Pernambuco (1852); Revolta da Fazenda Ibicaba - São Paulo (1857); Motim da Carne sem Osso – insurreição popular, Bahia (1858), Guerra contra Aguirre - Brasil e rebeldes uruguaios contra o Uruguai (1864-1865); Guerra do Paraguaia – Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai (1865-1870); Revolta dos Muckers - insurreição popular-messiânica, Rio Grande do Sul (1868-1874); Revolta do Quebra-Quilos - insurreição popular, Nordeste (1874-1875); Guerra das Mulheres - insurreição popular, Nordeste (1875-1876); Revolta do Vintém -  insurreição popular, Rio de Janeiro (1880); nova Revolta do Vintém, Curitiba (1883); e, por fim, o golpe militar de 15 de novembro de 1889, no Rio de Janeiro com a imposição da república contra a vontade de praticamente toda a população.

Algumas lições

Depois desse singelo relato histórico, parece que o primeiro ensinamento a ser entendido é que na república brasileira a tranquilidade (a tal “ordem” inserida pelos positivistas republicanos na bandeira nacional) tem sido a exceção e os distúrbios, de diversas naturezas, a regra. Nosso país raramente tem sido o mar sereno em que costumamos imaginar que estamos viajando e a crise dos nossos dias é apenas mais uma dentre tantas outras que, parece correto supor, é a maior de todas. 

A segunda – e importantíssima – ensinança a ser absorvida é que vivemos em um país que sempre foi manipulado pela classe política, da turma do café com leite aos coronéis, desses aos populistas e desses últimos ao inacreditável, triste e devassado espetáculo de corrupção que vem escandalizando o mundo, que desnudou uma verdadeira quadrilha de criminosos incrustada nas entranhas do Estado e estimulada por nosso presidencialismo mambembe e gerador desse monstro chamado capitalismo de compadrio, desnudado pela Operação Lava Jato.

Ou seja, a república no Brasil vem sendo, desde sua decretação, uma farsa dissimulada de democracia, um embuste fantasiado de representatividade, uma falcatrua disfarçada de legitimidade. Aqui não se pode aplicar a máxima dos banqueiros do jogo do bicho, a de que “vale o que está escrito”, porque está grafado em nossa atual constituição – que, como sabemos, já é a sétima filha de nossa excitação inexaurível para escrever magnas cartas e é, indubitavelmente, a mais lunática dentre todas as sete – que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição” (título I, art. 1º, parágrafo único), quando sabemos que, na realidade, ele emana do concubinato ostensivo da vontade de poder da classe política com o interesse das organizações, igualmente corruptas, que se nutrem reciprocamente e que esse poder pode até ser legalizado em nome do povo, mas que é exercido por ratazanas que se utilizam descaradamente do nome e da ignorância do povo para se perpetuarem na atividade de saquear a Nação.

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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