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08 Mar 2005

O Que é O Foro de São Paulo?

Escrito por 

[...] perguntamos ao leitor: você sabe o que é o dito Foro de São Paulo? Não? Então vamos aos fatos.

Recentemente, o historiador Felipe Alencastro, mais conhecido do público pelos seus artigos publicados na revista Veja do que pelo seu trabalho acadêmico, havia afirmado, quando perguntado sobre o Foro de São Paulo, uma organização que reúne partidos e movimentos comunistas de toda a América Latina, respondeu apenas que essa referida organização não existia e que a mesma, não passaria dos delírios de um intelectual de extrema-direita que escreve em um jornal do Rio de Janeiro.

No caso, estava a se referir ao filósofo Olavo de Carvalho, um observador independente (não de extrema-direita). Não pretendemos aqui defender o referido filósofo, visto que o mesmo é bem grandinho e sabe muito bem se defender de acusações levianas como essa. Mas, perguntamos ao leitor: você sabe o que é o dito Foro de São Paulo? Não? Então vamos aos fatos.

O Foro de São Paulo existe? Bem, segundo as informações fornecidas pelo web site da referida organização (http://200.155.6.3/site/temp_fsp/html/historia.asp), esse foi fundado em 1990 pelo Partido dos Trabalhadores (PT), onde procurou-se reunir partidos e organizações de esquerda de toda Latino América e Caribe com o objetivo de analisar a conjuntura da época, ou seja, a quedo do Muro da Vergonha (de Berlim) que marcou o fim do Socialismo Real.

Segundo a organização, os seus encontros e a sua atual posição reafirma "[...] a vontade política de continuar esta trajetória de diálogo entre as diversas tradições de esquerda. Os balanços políticos, ano após ano, mostram a crescente influência dos partidos do Foro de São Paulo na América Latina". Trocando em miúdos: a URSS caiu, mas a ação continua sob nova estratégia.

O seu primeiro encontro foi sediado na cidade de São Paulo em julho de 1990, onde se conseguiu reunir 48 partidos e organizações políticas esquerdistas. Depois deste encontro, sucederam-se outros em Manágua (1992), Havana (1993), Montevidéu (1995), San Salvador (1996), Porto Alegre (Brasil - 1997), México (1998), Manágua (2000), Havana (2001), Antigua (Guatemala - 2002), São Paulo (fevereiro - 2004) e o próximo estará ocorrendo esse mês, na cidade de Quito, no Equador, segundo nota publicada no site do Partido dos Trabalhadores em 27/02/04(http://www.pt.org.br/site/secretarias_def/secretarias_int_box.asp?cod=234&cat=10&cod_sis=9).

Ainda na página do PT, os mesmos apresentam as resoluções dos grupos de trabalho que foram desenvolvidos no encontro e, entre as que mais nos chamam a atenção é a que faz referência a postura que os partidos e organizações de esquerda devem tomar com relação à Colômbia, condenando os "abusos" da OEA e do governo de Alvaro Uribe Vélez, condenando qualquer ação militar que seja investida por esses contra os "movimentos populares" (entenda-se as FARC), mas, não há nenhuma linha sequer condena a ligação das FARC ao narcotráfico e a sua truculenta ação no território colombiano que impõe terror aos campesinos que dizem defender como uma atitude desumana. O por quê disso é obvio: as FARC fazem parte do dito Foro que o distinto historiador afirma não existir.

Já em 23 de novembro de 2004, o Foro que não existe deu uma declaração à impressa onde se lê que os avanços "dos partidos membros do Foro de São Paulo que participaram nas eleições municipais de Brasil, Chile e Equador, com atenção especial para os resultados vitoriosos obtidos pela Frente Sandinista de Libertação Nacional na Nicarágua e pelas forças que apóiam o Presidente Chávez nas eleições regionais de Venezuela. [...]Denuncia e repudia o assassinato do Promotor Público da Venezuela, Danilo Anderson, como expressão do terrorismo ao serviço dos inimigos do Governo democrático do Presidente Hugo Chávez". Conforme nos informa o site do PT, ou seja, não é nenhuma documentação secreta, basta acessar o endereço e ler na íntegra a documentação que contém o que dissemos (http://www.pt.org.br/site/secretarias_def/secretarias_int_box.asp?cod=484&cat=10&cod_sis=9) para verificar que não é delírio e muito menos mentira.

Se o leitor ainda não consegue visualizar a virulência de tudo isso e as suas capciosas ligações com o Partido dos Trabalhadores e bem como as implicações disso para nossa nação, basta que tomemos conhecimento do conteúdo das declarações feitas por Frei Beto (também membro fundador do Foro de SP) no último Fórum Mundial Social de Porto Alegre, onde o mesmo afirmou que:
"[...] para ensinar os "movimentos sociais" a fazerem nos próximos meses uma inteligente e bem calculada "pressão popular" sobre o governo Lula, de maneira que este possa ir se deslizando à esquerda, alegando o clamor popular. Nesse sentido, o frade explicou que Lula "chegou ao governo, mas não ao poder"; que o presidente tem necessidade de "conquistar parcelas gradativas do poder, dentro da legalidade burguesa, como dizia Gramsci"; e que essa "conquista" progressiva do poder real só será possível se os "movimentos sociais" pressionarem o governo. "Governo, é que nem feijão: só funciona na panela de pressão", afirmou o frade revolucionário".

Entretanto o frade advertiu que: "[...] a agitação social deve ser feita pelas esquerdas com cabeça fria, evitando cometer imprudências do passado, pelas quais tentaram apressar a marcha e, com isso, meteram medo na população: "Lênin disse que o esquerdismo se transforma na doença infantil do comunismo quando, ao invés de atrair o povo, o assusta", lembrou Frei Betto, acrescentando que é preciso uma "mobilização permanente, mas com cuidado, para evitarmos que o governo Lula caia no colo da direita", Segundo Destaque Internacional - Informes de Conjuntura - Ano VII - Nos. 161-162 - Buenos Aires / Madri - Fevereiro, 2005 - Responsável: Javier González (tradução de Graça Salgueiro).

Bem, as informações estão aí. Só não vê quem não quer, ou porque pensa que o que não aparece no Jornal Nacional e na coluna do Alencastro não existe só porque não foi noticiado. Mas, mesmo assim, arriscamos lembrar que, de nada adianta tapar o sol com a notícia que, cedo ou tarde, gostando ou não, a verdade nos queima a retina.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:15
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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