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06 Mar 2005

Já Temos Curandeiros Demais

Escrito por 

De minha parte como prezo muito minha saúde, daqui para diante quando for procurar um médico só vou fazer duas perguntas: (1) Você é daqueles que passaram no vestibular graças ao sistema de cotas? (2) Você é formado em Cuba?

Nestes bicudos tempos pós-modernos, há uma verdadeira inflação dos chamados “alternativos”: direito alternativo, economia alternativa, matemática alternativa und so weiter. (Besteira pouca é bobagem!) E como não poderia deixar de ser, há também uma medicina alternativa.  Pajelança é o que mais se vê por aí. Como sou um dos poucos brasileiros não-desmemoriados, lembro-me bem de uma surpreendente manchete de jornal de uns vint’anos atrás: MÉDICOS CUBANOS DESCOBREM CURA DO CÂNCER

Seria verdade mesmo? Se fosse, os descobridores da cura desta doença maldita que assola a humanidade seriam candidatos imbatíveis ao Prêmio Nobel de Medicina – pensava eu com meus botões... Lendo a reportagem, fiquei sabendo que a cura era obtida com  barbatanas de tubarão. E eu que pensava que elas só serviam para fazer um delicioso prato da culinária chinesa...

À primeira vista, parecia um completo disparate, mas as aparências enganam. Afinal  de contas, a penicilina foi descoberta no mofo e a vacina Sabin – a da poliomielite – foi extraída do cérebro do macaco Rhesus existente na África central. Diante disso, não era de causar espécie que a cura do câncer pudesse estar onde menos se pensava que estivesse: nas barbatanas do tubarão. Como já  dizia o Barão de Itararé, DALI DE ONDE MENOS SE ESPERA, DALI MESMO É QUE NÃO SAI COISA NENHUMA. Médicos cubanos vieram ao Brasil para apresentar sua notável descoberta. As esquerdas delirantes fizeram uma festa para comemorar o grande feito da avançadíssima medicina socialista cubana e até os médicos brasileiros estavam curiosos para saber como se operava a cura.
Numa reunião acadêmica com os médicos cubanos, eles fizeram umas perguntinhas de praxe: Que tipos de câncer isto cura? Qual o agente terapêutico? Produz efeitos colaterais? Caso produza, quais? Quais as estatísticas das curas? Vocês possuem relatórios de acompanhamentos de casos? Como nenhuma destas perguntinhas foi respondida, os médicos brasileiros – assim como quaisquer médicos do Primeiro Mundo certamente fariam – desconfiaram que não era coisa para se levar a sério.

O socialismo sempre foi produtor de poderosos mitos. Em 1991, com a desconstrução do Império do Mal (URSS), Cuba deixou de receber sua gorda mesada e estava matando cachorro a grito e jacaré a rabo-de-arraia. Mesmo assim, os papagaios da esquerda impensante não se cansavam de repetir: “Pelo menos a educação e a medicina em Cuba são excelentes”... E ainda há aqueles que, até hoje,  acreditam piamente nessa bazófia! É mais fácil destruir um poderoso exército do que um arraigado mito!

É verdade que em Cubanacan, misterioso pais del amor, não há analfabetos. Todos sabem ler. Todos  sabem ler só em espanhol. Os mais velhos sabem ler em russo também. Todos sabem ler EL GRANMA – “mais de um jornal é desperdício de papel” (Fidel Castro). Todos sabem ler os clássicos do marxismo-leninismo-castrismo-guevarismo. E todos sabem aplicar a fabulosa lógica dialética para resolver todo e qualquer problema, desde unha encravada até ameaça de possíveis tsunamis. Além disso, todos são muito bem alimentados: MOROS Y CRISTIANOS CON BANANA FRITA todo santo dia. Aos sábados, DOS HUEVITOS.

Uma vez por mês, uma boa penosa com PIÑA COLADA. Como se sabe, PIÑA COLADA é feita com abacaxi, e Cuba tem se notabilizado como uma dos maiores produtores de abacaxis do mundo. Só perde para Coréia do Norte.

E a medicina? É uma verdade dolorosa, mas é uma verdade. E indolor ou dolorosa, não deixa de ser o que é. SOMENTE PAÍSES RICOS TÊM EXCELENTE MEDICINA. País pobre, medicina indigente. Por que? O custo da medicina de boa qualidade é muito alto. Não basta formar bons médicos, é preciso ter bons hospitais, bons laboratórios de pesquisas clínicas, boas residências médicas, bons aparelhos de exames e de cirurgia. Enfim, não se faz boa medicina sem o apoio indispensável de alta tecnologia, e os médicos que não contam com esse apoio – malgrado bem formados e bem intencionados – ficam de mãos atadas: pouco ou nada podem fazer por seus atendidos.

E desde quando Cuba possui alta tecnologia? Os discos de vinil, a máquina de escrever e os Cadillacs 58 são as ultimas novidades tecnológicas que chegaram por lá. O que lá há é médicos de família que visitam periodicamente seus clientes, tiram a pressão dos velhinhos e mandam as crianças pôr a língua para fora, fazem farta distribuição de analgésicos e xarope de melado com limão bravo e agrião para tosse. Ninguém fica sem atendimento médico, é verdade. Mas depende da doença...

E os médicos, por sua vez, têm que dar um jeitinho para viver, vendendo doce de banana na rodoviária ou caldo de cana na zona. Ganhando o equivalente a 20 dólares por mês, ganham muito menos que um brasileiro que ganha salário mínimo! Como se sabe em Cuba não há prostituição, as mulheres da vida se oferecem para qualquer um por pura exuberância libidinosa, mas se o  distinto quiser colaborar com uns 5 dólares, aí elas têm orgasmos múltiplos. Mas eis que abro o www.rplib.com.br e me deparo com a seguinte manchete: CIZÂNIA MÉDICA

Como sou vidrado em cizânias, em altercações, quizilas, querelas, quiproquós, arranca-rabos, usw., começo a ler o artigo e eis, para meu completo pasmo, o que encontro: “Uma dor de cabeça de dimensões federais aguarda 600 brasileiros que foram estudar em Cuba. Negociações que podem liberá-los de realizar no Brasil exames de praxe para reconhecimento de diploma  revoltam entidades médicas [obs. nossa: e com JUSTA INDIGNAÇÃO] para as quais o governo vem concedendo privilégios que rebaixam o exercício da Medicina. Pais de alunos sustentam que a oposição de conselhos de associações profissionais é movida por corporativismo.” (obs. nossa: e eles são movidos pela Lei de Gérson e esquerdismo irrecuperável) (Itamar Melo em ZERO HORA, 20 /02/ 05).

Para encurtar uma longa história: se o sujeito é portador de um diploma de graduação em medicina da Universidade Johns Hopkins, da Faculdade de Medicina de Harvard, de Oxford ou de Frankfurt, usw., ele é obrigado a fazer os exames de praxe para avaliar sua competência (puro corporativismo da classe médica brasileira. Quem somos nós para reprovar o que uma dessas renomadas instituições aprovou?).  Mas se o sujeito é portador de um papelucho dado pela avançadíssima Universidad de Latino-América em Cuba, ele estará dispensado de qualquer exame (Pura ideologia comunista. Quem somos nós para reprovar o atestado ideológico fornecido pelo punho do próprio El Coma Andante?!).

E além disso, porque querem ser dispensados do referido exame enquanto os formados por outras universidades estrangeiras nunca propuseram tal coisa? Só há uma explicação: consciência de que sua competência ideológica é tão grande quanto sua incompetência médica. Competentes fossem, nada teriam a temer, mas  agindo como agem,  eles parecem até os estudantes brasileiros que se recusaram a fazer o provão...

De minha parte como prezo muito minha saúde, daqui para diante quando for procurar um médico só vou fazer duas perguntas: (1) Você é daqueles que passaram no vestibular graças ao sistema de cotas? (2) Você é formado em Cuba? Caso a resposta seja afirmativa para uma ou outra dessas questões, sebo nas canelas, porque não tenho nem fervor ideológico esquerdista nem vocação para cobaia: tenho é bom senso e muito amor à minha pele.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:15
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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