Sáb10202018

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

05 Jun 2018

SEGURANÇA PÚBLICA - PARTE 14 - Segurança Pública - O Papel da Mídia II

Escrito por 

Em resumo, ao se discutir o problema da segurança pública em uma coletividade, não se pode deixar de registrar que, sendo segurança um estado, gerado a partir de uma sensação, um sentimento, o papel da mídia nessa coletividade é de transcendental importância, até porque, infelizmente, pode gerar deformidades da realidade a ser retratada, contribuindo negativamente para a construção dessa sensação, desse sentimento de segurança.

 Ler SEGURANÇA PÚBLICA - PARTE 13

Após o fracasso das tentativas da esquerda, no Brasil, em 1935 e, particularmente, ao longo da década de 60, ambas alicerçadas no conceito de que a tomada do poder deveria ocorrer a partir de movimentos armados, os responsáveis maiores pela obstinada determinação de implantar no país uma sociedade submetida a um regime comunista, decidiram reorientar seus esforços na direção de seguir os ensinamentos preconizados por Antonio Gramsci em sua obra Cadernos do Cárcere.

Para que se possa acompanhar, de forma lógica, consentânea, as considerações que se fará na sequência desse artigo, parece próprio que se recorde alguns conceitos cristalizados por Gramsci em sua obra, os quais foram, brilhante e didaticamente, expostos por Sérgio Augusto de Avelar Coutinho em seu livro “A revolução Gramscista no Ocidente”.

Dois conceitos de Gramsci são basilares e precisam ser compreendidos para que se tenha a capacidade de analisar, de forma isenta, a realidade do Brasil nos dias de hoje. São eles: Hegemonia e Consenso.

Como nos ensina Sérgio Coutinho, Hegemonia, para Gramsci seria:

“A condição ou capacidade de influência e de direção política e cultural que, por intermédio de organismos sociais voluntários, um grupo exerce sobre a sociedade civil, que esta exerce sobre a sociedade política e que o partido da classe exerce sobre todo o processo revolucionário, sobre a sociedade civil e sobre a sociedade política”. (Grifo aposto)

Para Gramsci, Consenso seria:

“Conformação coletiva do grupo social, espontânea e livre, com as iniciativas do estado, que as propõe como necessárias para alcançar os fins que a sociedade pretende”. (Grifo aposto)

Para que se possa obter o resultado sugerido por Gramsci de que se imponha uma realidade consensual no contexto da coletividade, a partir de uma influência política e cultural hegemônica, Gramsci propõe que se utilize “os aparelhos privados portadores materiais de hegemonia, que são os organismos sociais coletivos voluntários, relativamente autônomos ante a sociedade política”.

Objetivamente, segundo Gramsci, esses aparelhos portadores de hegemonia são, por exemplo: clubes, sindicatos, corporações, partidos, igrejas, órgãos de comunicação de massa, editoras, expressões artísticas, movimentos populares, entre outros.

Com essa compreensão, particularmente a partir da década de 70, esses espaços identificados como portadores de hegemonia foram sendo progressivamente infiltrados, em todo o país, por simpáticos às ideias de esquerda.
Particularmente, o ambiente acadêmico, recebeu atenção especial e, há que se reconhecer que, inteligentemente, essa estratégia era pertinente, na medida em que da academia se iria espargir profissionais para todas as áreas de atividades da sociedade.

Especialmente, foi dada atenção particular às áreas de ciências humanas e sociais. Setores como os da advocacia, assistência social, jornalismo, entre outros, passaram a ser alvo de intensa ação de cooptação para a construção do que ficou batizado como sendo “um discurso politicamente correto”. Uma verdadeira lavagem cerebral foi levada a efeito, entre os universitários, com o propósito de consolidar “verdades incontestáveis” no seio da sociedade.

A ideia fundamental era de que, se todos pensam igual e acreditam nas mesmas coisas, não deverá haver questionamentos maiores diante de ações políticas e governamentais do partido que se apresentar como representante único dessas verdades. Ainda que possa haver algum tipo de questionamento, isso seria de magnitude insignificante e seria abafado pela vontade coletiva.

O prezado leitor talvez esteja se perguntando: o que toda essa reflexão tem a ver com o papel da mídia no contexto da segurança pública, que é sobre o que o presente artigo se propõe discutir?

Ocorre que, no desempenho de sua atividade profissional, ainda que inconscientemente, cada cidadão tenderá, naturalmente, a pautar suas ações com base nas convicções, nos valores, nas crenças, nas verdades que introjectou em sua consciência até então.

Naturalmente, se mostra lógico que, quando se desenvolve um esforço orquestrado com o propósito de formar profissionais que acreditem nas mesmas verdades, esses profissionais assumam as mesmas referências que lhes foram impingidas numa determinada fase de sua formação como cidadãos. Esses indivíduos, no desempenho de suas atividades profissionais, ainda que inconscientemente, irão se comportar refletindo em suas ações essas “verdades” nas quais piamente acreditam.

É subordinada a essa realidade que a mídia pode interferir e interfere decisivamente na construção do estado de segurança ou insegurança que matiza uma coletividade, em cada espaço e em cada tempo.

Ainda que com o propósito nobre, correto, inquestionável, de pretender levar, a todos os integrantes de uma coletividade, informações que lhes permitam ir, no tempo, construindo suas convicções sobre a realidade em que está inserido, as empresas de comunicação social, por intermédio do desempenho dos seus profissionais, seja em função de seus interesses financeiros (como se viu no artigo anterior) ou mercê de motivações político-ideológicas de seus profissionais, das quais se permitiram impregnar desde os bancos acadêmicos e que poderão ter se consolidado no exercício profissional, na convivência com seus chefes e pares, correm sério risco de contribuir para a construção de uma fotografia da realidade que gere medo, insegurança, seja quanto à preservação da pessoa humana, seja do seu patrimônio.

O prezado leitor que frequenta esse espaço, certamente, dispensa que se registre circunstâncias específicas que comprovem as reflexões anteriores. Sem dúvida terá sido espectador, ouvinte ou leitor de matérias que, claramente, ao enfatizar detalhes de fatos ocorridos na coletividade, terá se dado conta dos reflexos daninhos que viriam a causar no imaginário coletivo.

É notório que, determinadas empresas de comunicação social acabam por serem chanceladas por carimbos que refletem suas posições políticas, decorrentes das convicções de seus responsáveis maiores e/ou da maioria de seus profissionais de maior prestígio.

Nesse contexto, parece fácil imaginar a pressão que paira sobre profissionais de menor escalão, ao cobrir um evento, ou produzir uma matéria, para, ainda que não se alinhe às convicções de seus superiores, discrepar da linha de exposição que, sabe, estará indo de encontro ao interesse da empresa e/ou desses superiores.

Interessante destacar que é comum se observar que o mesmo fato é noticiado de forma diversa, quando se observa a informação retratada em veículos diferentes. Um observador mais atento e informado, constatará que, os detalhes destacados nas matérias, em cada veículo, estarão guardando alguma lógica com a postura política da empresa e/ou dos profissionais que ancoram direta ou indiretamente a produção dessa matéria.

Em resumo, ao se discutir o problema da segurança pública em uma coletividade, não se pode deixar de registrar que, sendo segurança um estado, gerado a partir de uma sensação, um sentimento, o papel da mídia nessa coletividade é de transcendental importância, até porque, infelizmente, pode gerar deformidades da realidade a ser retratada, contribuindo negativamente para a construção dessa sensação, desse sentimento de segurança.

É constrangedor, mas não seria honesto se deixar de registrar, igualmente, (e esse é o aspecto repugnante dessa reflexão) que essas deformidades, poderão ser intencionais, com o propósito, em alguns casos, de favorecer pessoas ou grupos, na medida em que acabam por materializar a manipulação de cidadãos, de mentes, de coletividades.

Infelizmente, nos espaços de comunicação social há sempre o risco de que, no desempenho de sua atividade profissional, determinados indivíduos se valham desses espaços para conduzir verdadeira militância política, o que, há que se registrar, se constitui no mais absoluto desrespeito ao cidadão comum, uma vez que ele não é alertado para esse fato e, por isso, recebe as informações veiculadas, acreditando que são retrato fiel dos fatos e atos noticiados.

 

 

 

Última modificação em Quinta, 21 Junho 2018 14:17
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP.

Website.: www.rplib.com.br/

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.