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08 Mai 2018

SEGURANÇA PÚBLICA – PARTE 13 – O PAPEL DA MÍDIA - I

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Nesse contexto, no mundo de hoje, no qual as comunicações ganharam dimensão ilimitada no tempo e no espaço, o papel dos órgãos de imprensa ganha um peso específico extremamente importante, na medida em que expande as fontes da informação que chega ao cidadão para além dos espaços físicos que envolvem a sua rotina de vida.

 

Ler SEGURANÇA PÚBLICA - Parte 12

O artigo anterior dessa série procurou enfatizar que a despeito de violência ser algo concreto, diferentemente, segurança é algo abstrato, uma sensação, um sentimento, que reflete um estado. Não é algo concreto, mensurável, igual para todos que ocupam um mesmo espaço social.

Complementarmente, no artigo anterior, se procurou caracterizar que esse estado de segurança, ou de insegurança é resultante de um sem número de circunstâncias que matizam esse mesmo espaço social.

A realidade do quadro da educação, da saúde, do transporte, do acesso aos serviços públicos, da competência e dedicação profissional dos servidores públicos, da eficácia do desempenho dos órgãos públicos no atendimento das demandas do cidadão... em suma, da efetividade da atuação da máquina pública é que vai construir, como resultante, o estado de segurança, ou insegurança que vai estar impregnando o espírito de cada cidadão.

É igualmente importante que se compreenda que insegurança não está pura e simplesmente vinculada aos riscos materiais aos quais o cidadão está submetido. Não é só o temor de ser alvo de violência física ou de ter seus bens materiais passíveis de ação criminosa. Insegurança envolve, igualmente, a sensação de imprevisibilidade com relação ao dia de amanhã do cidadão.

São as informações que chegam ao cidadão comum com relação ao que experimentam seus entes mais próximos, seus amigos no trabalho, no bairro, no clube, nos deslocamentos no transporte, nas vias públicas, que vão, paulatinamente, construindo, no seu íntimo, uma sensação de segurança, de tranquilidade, de paz, ou, diversamente, um sentimento de medo, de intranquilidade, de dúvida com relação ao que lhe pode acontecer.

Nesse contexto, no mundo de hoje, no qual as comunicações ganharam dimensão ilimitada no tempo e no espaço, o papel dos órgãos de imprensa ganha um peso específico extremamente importante, na medida em que expande as fontes da informação que chega ao cidadão para além dos espaços físicos que envolvem a sua rotina de vida.

Não são mais os fatos ocorridos nos espaços do entorno do seu lar, do seu trabalho, da escola dos seus filhos, dos seus parentes mais próximos que abastecem e influenciam o sentimento que o abraçará, gerando a compreensão de que habita um espaço matizado por um estado de segurança (ou insegurança).

Hoje, em tempo real, o cidadão tem acesso ao que ocorre no mundo inteiro.

Assassinatos brutais, ocorridos no outro lado do mundo, em tese, não deveriam sensibilizá-lo a ponto de interferir na sensação de segurança que o caracteriza. No entanto, na medida em que esses fatos são, diuturnamente, trazidos ao conhecimento de todos, acabam, ainda que sub-repticiamente, gerando um mal-estar que contribui para acachapá-lo espiritualmente.

Assim sendo, parece pertinente que se dedique alguma reflexão para buscar compreender o papel da mídia nesse contexto.

De pronto, cabe que se procure entender qual seria a motivação que define a razão de ser da existência de empresas devotadas a levar ao cidadão comum informações sobre a realidade do espaço físico em que ele se encontra e vive.

Parece inquestionável que qualquer representante maior de qualquer dessas empresas atestará que o que justifica a existência de cada uma delas é o propósito de manter esse cidadão informado da sua realidade. Certamente dirá que é um direito do cidadão se manter adequadamente informado sobre as características dessa realidade, dos fatos que nela ocorrem, tudo com o objetivo de lhe propiciar os subsídios mais completos para que possa se posicionar nela (nessa realidade), segundo seu entendimento, da forma mais correta.

Perfeito. Não se poderia imaginar nada diferente. Do presidente de qualquer empresa de comunicação, passando pelos mais graduados profissionais, até os responsáveis pelos mais simples encargos, todos serão unânimes em afiançar que tudo ali se faz com o foco maior de levar aos seus espectadores, ouvintes ou leitores as informações mais fidedignas, com absoluta oportunidade.

No entanto, seria inocente não se agregar a essas considerações a circunstância de que se está falando de empresas.

Ora, empresas existem para gerar produtos e serviços. Ocorre que só têm sentido sua existência se sobreviverem no tempo. Não se criará uma empresa, em qualquer que seja a área se não se tiver expectativa de que ela subsista no tempo.

Essa sobrevivência envolve circunstâncias econômicas e financeiras. O funcionamento, a sobrevivência da empresa implica em custos. Assim sendo, para fazer face aos custos é imperioso que ela tenha receitas. O problema é aritmético. As receitas necessitam ser maiores que as despesas.

Quais as maiores fontes de receita das empresas de comunicação? São, em tese, aquelas decorrentes do aluguel de seus espaços midiáticos para divulgação de informações de interesse dos contratantes desse serviço.

Ora, outras empresas e entidades, necessitando divulgar seus serviços e produtos, contratam as empresas de comunicação para que, nos seus horários de funcionamento, divulguem os anúncios de seus interesses. Assim, as contratantes ampliam suas possibilidades de negócio de seus produtos e serviços (ampliam suas receitas) e, em contrapartida, a empresa de comunicação, pelo serviço prestado, faz jus, igualmente a receita correspondente.

Naturalmente, a questão que advém ao presente processo reflexivo seria: por que uma empresa determinada decide anunciar seus serviços ou produtos numa específica empresa de comunicação? Acredito que o prezado leitor, de pronto, dirá que isso se dará em razão de dois aspectos principais. Primeiro, a expectativa de que divulgado seus produtos ou serviços naquela específica empresa de comunicação, haverá maior probabilidade de que suas receitas aumentem. Segundo, em razão do custo desse serviço contratado àquela específica empresa de comunicação.

A consequência imediata desse processo reflexivo (e aí começam a surgir circunstâncias complexas que podem interferir nos propósitos maiores das empresas de comunicação) é a de que, uma empresa qualquer, que contrate outra da área de comunicação para divulgar seus produtos e serviços, acredita que o seu público-alvo, será atingido pela programação da empresa contratada. Não teria sentido se contratar a divulgação do que quer que seja, se não se tem convicção de que essa divulgação produzirá os resultados financeiros esperados.

Prosseguindo, se conclui que as empresas de comunicação para serem contratadas para divulgar produtos e serviços de terceiros devem ajustar sua programação e seus noticiários de forma a atingir o público-alvo de interesse dos seus anunciantes, sob pena de deixarem de ser contratados e perderem receita.

Parece cristalino que uma emissora de televisão, rádio ou um periódico escrito, tem absoluta consciência, com base em pesquisa de mercado realizada pelos seus setores de marketing, que, em razão do tipo da programação levada ao público, suas características, horários, profissionais que delas participam, estarão acessando determinado público, com determinadas peculiaridades e, por isso mesmo, sensíveis a determinados tipos de divulgação de produtos e serviços, o que determina, como consequência, o universo de potenciais anunciantes naquela empresa de comunicação.

Seria interessante que o prezado leitor refletisse sobre até que ponto essa imposição, de ordem econômico-financeira, pode interferir nos propósitos, naturalmente nobres, aos quais se fez referência, em parágrafos anteriores, como sendo, em tese, aqueles que justificam a criação e existência de uma empresa de comunicação.

Se isso, puder ser visto como possível, caberia então se refletir sobre como essa possível distorção de finalidade poderia influir na construção de um estado de segurança a impregnar o cidadão que acessa essa empresa de comunicação com razoável regularidade.

Será que um cidadão que, por exemplo, costumeiramente, acesse uma determinada empresa de comunicação, na qual se veicula, com maior intensidade, a ocorrência de eventos de violência, não tenderia a se sentir mais inseguro?

Se a decisão de manter essa programação for decorrente da necessidade de garantir contrato com determinados anunciantes que, mercê dos seus produtos ou serviços, tenha o interesse de atingir um público-alvo com determinadas características, não estaria havendo desvio de finalidade, com consequências indesejáveis para o cidadão?

Isso acontece? Quais as consequências para o ambiente social se, de alguma forma, ainda que não intencionalmente, a realidade estiver sendo maculada por essas circunstâncias, contribuindo negativamente para a construção de um estado de insegurança a impregnar o cidadão comum?

Outro aspecto que não pode deixar de ser abordado no contexto da presente reflexão é o de que, talvez, ou com quase certeza, os maiores anunciantes que contratam a veiculação de matérias de seus interesses na mídia são os governos e as grandes empresas governamentais.

Perder esses anunciantes tenderia a impactar de forma altamente negativa a saúde financeira dessas empresas de comunicação.

É razoável se imaginar que, por razões de quaisquer ordens, inclusive éticas, uma empresa de comunicação, em sua programação ou seus noticiários adotaria postura inquestionavelmente prejudicial aos interesses desses seus anunciantes governamentais, ou a imagem de seus mais importantes responsáveis?

Até que ponto essa dificuldade impactaria a necessidade de que essas empresas de comunicação se mantivessem fieis aos seus propósitos mais legítimos de levar ao cidadão comum as reais informações fidedignas que lhe permitiriam construir, livremente, suas convicções, suas verdades, suas referências sobre a realidade social em que está inserido?

Caso se admita ser possível alguma forma de distorção nesses propósitos das empresas de comunicação, de que forma essa distorção poderia interferir no imaginário coletivo no que diz respeito à sensação de viver em um ambiente seguro, ou não?

No próximo artigo, prosseguir-se-á discutindo o papel da mídia na segurança pública, agora sob a dimensão ideológica.

 

 

 

Última modificação em Quinta, 10 Maio 2018 13:55
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP.

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