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22 Mar 2018

COBERTOR CURTO

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Como tudo que é improvisado, a intervenção federal na área de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro tem tudo para não funcionar.

 

Como tudo que é improvisado, a intervenção federal na área de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro tem tudo para não funcionar.

A começar pelo seu anúncio, feito sem estudos preliminares ou discussão com os interessados, sem estimativa de custos e alocação de recursos, com metas vagas e indefinidas, mal disfarçando sua verdadeira finalidade: esconder o fiasco da iminente derrota do governo na votação pelo Congresso das mudanças na Previdência Social. Assim, criando uma cortina de fumaça, com o beneplácito da imprensa, ninguém mais fala na reforma previdenciária. Parece que, em duas semanas, mudamos de país.

Quanto à intervenção em si, trata-se de um cobertor curto. Curto e estreito.

É curto no tempo, determinando, de saída, que sua duração só vai até final de dezembro. Agora, o Presidente da República já fala em encerrá-la em fins de setembro.

O que pode acontecer até lá, conforme nos ensinam as dezenas de empregos de tropas federais em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO)? Os chefões do crime organizado entrarão em recesso, viajando para fora do estado ou do país em prolongadas férias permitidas por suas fortunas ilícitas, voltando no início do próximo ano para retomar seus territórios e seus negócios, começando com uma limpeza que inclui o assassinato de todos os que colaboraram com as forças de intervenção.

Se você morasse numa das extensas áreas dominadas pelas gangues criminosas, nas partes do Rio de Janeiro que vivem em situação de guerra civil, teria coragem de colaborar com as forças legais?

Além disso, o cobertor é estreito. É estreito na amplitude de seu alcance, pois não é possível, em muitos casos concretos, delimitar se determinadas ações são da área de segurança, ou do transporte, ou da educação, ou de mais de um dos campos de atuação do governo estadual.

Para ter alguma probabilidade de sucesso, a intervenção teria que ter como alvo todo o governo do estado, não apenas uma fatia dele.

Para Temer, o negócio foi ótimo. Jogou na arena, para enfrentar as feras, as Forças Armadas, numa missão indefinida e cheia de obstáculos, muitos criados pelo próprio governo federal. Apagou das manchetes a quase derrota da reforma previdenciária. Apossou-se de algumas das bandeiras de campanha de oposicionista pré-candidato nas eleições de outubro.

Há, nas Forças Armadas, máxima realista: quem dá a missão, dá os meios.  É claro que tal não aconteceu nem acontecerá, pois os governos federal e estadual estão falidos.

Por sua vez, Legislativo, Ministério Público, imprensa, sindicatos, OQG (Organizações Quase Governamentais), OAB, AMB, OEA e até a ONU pretendem enviar observadores para denunciarem os excessos que, já decidiram preconceituosamente, serão cometidos pelos militares.

Enquanto os sofridos cidadãos – escravos involuntários do crime organizado e de políticos mafiosos – enfrentavam, durante mais de duas décadas, o domínio crescente dos criminosos, algum desses organismos se manifestou ou preocupou-se com a defesa de seus direitos?

Algum criminoso precisou de mandado de busca para entrar na casa que quisesse e fazer o que bem entendesse com seus moradores, inclusive expulsá-los e tomar conta de seu imóvel?

Os bandidos não gozaram de toda a liberdade para obrigar o fechamento do comércio e das escolas em sinal de luto pela morte ou prisão de um de seus chefetes?

Não é comum e fartamente registrado pelo mundo afora o desfile de criminosos armados com armas de guerra pelo centro das favelas, ostentando seu poder bélico e amedrontando os cidadãos de bem que lá vivem?

Quantos bailes acabaram com tiroteios, balas perdidas e mortes?

Quantas instalações policiais foram atacadas e metralhadas impunemente?

Onde estavam as prestimosas organizações? Defendendo os bandidos e apresentando-os como pobres coitados, vítimas de uma sociedade injusta e opressora, que tinham todo o direito de tomar pela força o que não lograram obter pelo estudo e pelo trabalho honesto.

Por que agora a preocupação e a acusação por pretensos abusos que, julgam antecipadamente, serão cometidos pelos arbitrários, violentos e prepotentes militares?

Hipócritas! Querem garantir o fracasso da intervenção, para que tudo continue da maneira que sempre foi, sob seu olhar indiferente e complacente de “defensores dos direitos humanos”, como lhes convém.

Encerrando: por que acabar a intervenção em fins de setembro?

Porque as eleições são no primeiro domingo de outubro. Depois delas, nossos produtivos políticos, eleitos ou não, poderão votar medidas impopulares, como as mudanças nas aposentadorias, sem prejuízos imediatos. Já foram pagos pelo serviço.

Assim, não será mais necessário o cobertor curto e estreito da intervenção para justificar a suspensão de votações que impliquem alterações constitucionais ou causem grande desgaste político aos candidatos.

E a segurança pública no Rio de Janeiro? Ora, na verdade isso não interessa a ninguém.

Se a intervenção federal não funcionar, a culpa é dos militares.

 

 

 

Clovis Puper Bandeira

Nascido em 28 Fev 45 em Pelotas - RS

General de Divisão da Reserva do Exército Brasileiro

Ex Vice-Presidente e atual Assessor Especial do Presidente do Clube Militar

Principais funções na carreira militar:

- Instrutor da AMAN e da ECEME

- Aluno do US Army War College - EUA

- Comandante do 10º BI - Juiz de Fora - MG

- 1º Subchefe do Estado-Maior do Exército - Brasília - DF

- Comandante da 17ª Brigada de Infantaria de Selva - Porto Velho - RO

- Chefe do Estado-Maior do Comando Militar da Amazonia - Manaus - AM

- Diretor de Especialização e Extensão - Rio - RJ

- Comandante da 3ª Região Militar - Porto Alegre - RS

- Chefe do Departamento de Inteligência Estratégica do Ministério da Defesa - Brasília - DF

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