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12 Mar 2018

INTERVENÇÃO: ESCRITO POR UMA ESPOSA DE MILITAR

Escrito por 

 

 

 

Quando a vida é cruel (leia-se criminoso) e leva aquele ente querido, há uma bandeira Brasileira sobre o caixão e tiro de salvas. Uma linda cerimônia para o herói que morreu em defesa da Pátria. Mas o que essa Pátria oferece em retorno?

 

"A família começa quando um aceita o outro. Na cláusula do contrato, o texto bíblico "deixará teu pai e tua mãe ", toma a forma devida desde o primeiro momento.

Depois da comemoração do casamento,  iniciam-se as mudanças...

Dentro das caixas:  fotos de quem fomos,  lembranças dos antepassados,  partes de onde morávamos... vão se transformando em passado. Pois agora,  meu amigo e minha amiga... você se casou com um militar.

Seus filhos, serão cada um de um estado...e às vezes, nascido em outro país. Eles vão mudar de sotaque como mudam de roupa. E ouvirão dos coleguinhas: - Você fala engraçado/diferente/bonito!

Os namorados vão sendo deixados nas cidades... os apaixonados adolescentes se revoltam com a profissão que os pais escolheram. Gostariam de ficar na cidade que tanto amam. Às vezes o namoro termina, e nunca mais se tem a oportunidade de voltar para aquele que foi saudoso e temporário lar.

Os cônjuges desde cedo descobrem o que é estar longe dos pais e irmãos. Olham para as fotos compartilhadas, as reuniões, aniversários e casamentos e sentem que estão perdendo momentos preciosos ao lado dos seus. Pois a distância impede. Ou a falta de dinheiro. Ou o dito cujo estará de serviço/campo/exercício. A família sem perceber que dói, cobra e pergunta: - Vocês vêm? Por que não pedem transferência para cá? – Querem estar perto de nós. Mas não compreendem que atrás de uma transferência há toda uma questão de vaga, posto, curso e etc. Quem dera possamos conseguir morar onde bem entendermos.

Os filhos e cônjuges tremem ao ouvir “Missão de Paz”. De paz para quem? Para o país que está recebendo. Pergunte aos viúvos e viúvas do terremoto no Haiti onde está a sua paz. Enterrada junto com os que lá morreram.

Há vantagem de morar em outro país, estudar fora... mas ás vezes a família não têm direito. Ou se tem, é tachado como o “estrangeiro”. Nem sempre é bem visto ou recebido.

Entretanto, comemoram-se missões como essa como final de copa do mundo! Meu pai/minha mãe vai para missão no exterior!!!! Do outro lado do mundo, ficam os avós e tios olhando as fotos e vendo seus queridos crescerem tão longe. Só restam os vídeos e fotos enviados para o celular para aplacar um pouco da saudade.

Os filhos desfilam com farda para exaltar a profissão dos pais! Sabem tudo sobre armas, AMAN, ESA, EEAR, pnr, hinos... uma educação patriótica aprendida desde o berço.  Cada Estrela, traço ou medalha a mais na farda, infla o ego dos familiares: - Aquele(a) ali é meu pai/mãe/ filho!
-Ela está sendo promovida! 
-Ganhou a medalha do pacificador!
- Se formou na AFA!

Ainda pensam que somos ricos... que não pagamos pela moradia, saúde e educação. Sai tudo do soldo. As empresas de mudança não cobram nada menor que 4 dígitos. E sempre que chegamos na nova morada, tem coisas para arrumar,comprar e reparar.

As esposas começam cursos e terminam 10 anos depois, assim como os filhos. As universidades nem sempre aceitam a grade da anterior. Os filhos pequenos estudaram ou estudarão em 6, 7 escolas, 3 ou 4 cursinhos, 3 estúdios de dança. Por vezes largam suas paixões por alguma arte por falta de escola especializada.

No meio da noite, enquanto os militares estão de serviço/viajando/missão e etc. as crianças adoecem com a falta do pai/mãe. E saem os pais correndo para o hospital, que às vezes só existe há 60km dali. Contam com os vizinhos, mais do que contam com os irmãos. Pois todos estão na mesma situação.

As crianças esperam ansiosas o dia que seu soldado retorna daquele exercício ou curso. Saem para comemorar, ou jantam juntos para contar das anedotas ocorridas, e competem a atenção da “estrela” da noite. Eles fazem curso, estudam idiomas, estudam instruções, sacrificam horas de sono e a própria vida.
Saem de casa e deixam sua família muitas vezes sem saber se voltarão.

Então, para você que pensa que a Intervenção é desnecessária: concordo! Não acho que essa missão pertence às Forças Armadas. Se o Brasil está do jeito que está, não é por culpa dos nossos soldados. E não deveria caber a eles essa responsabilidade. É obrigação de outrem. Mas eles estão lá... e por trás de cada farda, há uma mãe/pai orando, um marido preocupado, uma esposa aflita, filhos chorando a ausência, irmãos de olho nas notícias e etc.

O bandido pode atirar e matar cada coração de cada familiar... mas ai de cada farda camuflada apontar uma arma para as “vítimas da sociedade”.

Quando a vida é cruel (leia-se criminoso) e leva aquele ente querido, há uma bandeira Brasileira sobre o caixão e tiro de salvas. Uma linda cerimônia para o herói que morreu em defesa da Pátria. Mas o que essa Pátria oferece em retorno?

Vítimas? Para mim, são aquelas que estão em casa, cobertas do manto da fé na esperança que seus soldados voltem sãs e salvos."

Escrito por Larissa Gomes Schiavo

 

 

 

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