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26 Fev 2018

SEGURANÇA PÚBLICA - PARTE 8

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Quando se busca discutir segurança pública, não há como deixar de analisar de forma mais profunda, como essa lógica de “crime e castigo” é desastrosa para a construção permanente de um ambiente social mais justo, mais seguro, mais fraterno, mais cidadão.

 

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Errar é humano

Acredito que o prezado leitor concorde que muito poucos ou, talvez mesmo, nenhum outro ditado seja tão unanimemente aceito como verdadeiro como esse.
Quem discordaria de que é intrínseco da circunstância de se ser humano uma certa vocação para o erro?
Por que isso é tão verdade?
Será porque gera um conforto a todos?
Será porque deixa uma porta aberta para que todos se sintam auto justificados quando erram?
Será porque, diante da possibilidade de errar, ou de se verem inclinados a errar, todos deixem de se sentir desconfortáveis, por saberem que será compreensível se optar por errar, porque, afinal, se é humano?
Que bom que errar é humano, não é? Afinal, sou humano e, por isso, posso errar.

Até que ponto, ao longo dos tempos, as religiões, estimularam e estimulam a consolidação dessa máxima, na medida em que junto com essa ideia está a de que perfeito só Deus?
Será que as religiões, por se constituírem na fonte capaz de redimir a todos de seus erros, resgatando-lhes a condição de novamente “puros” e, assim, novamente prontos para novos erros e novas futuras redenções, não terão contribuído para a sedimentação dessa verdade? Afinal, não são “ligiões”. São “religiões”.
A ideia é de que “religam” o que foi desligado, não é?
Terá sido e será, essa, uma forma de subjugar seus seguidores?

Por que será que, ao longo da história, a humanidade não cunhou como verdadeira a tese de que acertar é humano?

Afinal, o que é errar?
Contrariamente, o que seria acertar?
Colocando a reflexão em temos pessoais, se eu admito que, por ser humano, estou permanentemente em risco de errar e, se entendo que não devo errar, como posso, a cada ato, a cada gesto, a cada pensamento, ter a certeza, o conforto, a convicção de que não estou errando?
Por que, no esforço de se evitar o erro, se associou a ele as ideias de prêmio e de castigo?

No âmbito da família, desde muito cedo, mesmo ante de que a criança ande ou fale, seus pais, com o suposto propósito de “educá-la”, começam a impor regras de comportamento, de procedimento, associando a cada uma a possibilidade de reprimenda, de castigo, em cada caso e em cada tempo, apropriados a corrigir o que vier a ser considerado desvio do comportamento, do procedimento assumido como correto e desejável por aquele universo.

Com o mesmo propósito, a cada comportamento entendido com correto, sugerindo a assimilação da “regra” considerada esperada, a criança é aplaudida, elogiada, saudada, pretendendo-se, com isso, gratificá-la, na expectativa da reedição futura do mesmo comportamento nas mesmas circunstâncias.

Não é assim?

A lógica do processo que deve ser assimilado pela criança é a de que, se fizer o que seus pais demonstraram desejar, será gratificada (reforço pedagógico, segundo alguns psicólogos/educadores). Caso façam o que seus pais deixaram claro que não consideram bom, será reprimida, corrigida.

Há os que definem isso como processo educativo.
Há alguma diferença do que se faz no adestramento de animais?

O que se faz nesse processo de adestramento de crianças tende a se restringir ao campo comportamental, não envolvendo o que elas têm de mais valioso e que as difere dos animais, que é a capacidade de desenvolver progressivamente seu potencial de pensar e decidir.

Além disso, em cada família, se adestra seus filhos a comportamentos e procedimentos específicos daquele universo, em função das convicções de seus pais, da realidade em que todos estão inseridos e das imposições que essa específica realidade impõe.

No tempo, no novo universo em que a criança se verá envolvida, a escola, o modelo se repete. Seja nos modelos mais retrógrados do tipo “cala a boca, senta, fica quieto, só responde se e quando eu perguntar”, ou nos que se apresentam como menos tradicionais, nos quais o aluno é deixado, aparentemente mais livre, desde que se restrinja a comportamentos antecipadamente definidos como dentro de limites pré-estabelecidos, a lógica é a mesma.

Comportamentos desejados pelo ambiente escolar (professores, administração) são premiados. Comportamentos que discrepem do que for desejado pelo ambiente, gerará sanções de alguma espécie.

A absorção de “informações”, medida em avaliações frequentes está dentro do mesmo esquema. Assimilou o que se entende como desejável, ótimo. Prêmios virão. Caso contrário, algum tipo de reação negativa para o aluno surgirá, até mesmo a reprovação.

Quando se chega à idade adulta, propósito do que, na verdade, aqui se pretende propor uma discussão mais profunda, o modelo, não só se mantem, como se aperfeiçoa, na direção de mais castração de uma verdadeira realidade de libertação do ser humano.

Quando se busca discutir segurança pública, não há como deixar de analisar de forma mais profunda, como essa lógica de “crime e castigo” é desastrosa para a construção permanente de um ambiente social mais justo, mais seguro, mais fraterno, mais cidadão.

O que se pretende provocar é a reflexão de que, quando se discute porque os humanos erram, há que se admitir a necessidade de questionar se é correto um modelo no qual, desde que nasce, ao ser humano é imposto se comportar a partir de regras que lhe foram impostas de fora para dentro, sem que se lhe justifique o porquê das regras, os benefícios, não só para ele, mas particularmente, para todos com os quais convive, de se seguir aquelas regras e até de admitir que lhe seja possível propor formas de, quem sabe, aprimorar aquelas regras. De forma idêntica, os malefícios decorrentes da violação dessas regras e de como evitar essa violação.

Não há como, a essa altura, se deixar de registrar que, em português, o verbo “educar” deriva do verbo em latim “educare”, que sugere, considerado o radical da palavra, o conceito de liderar, conduzir. Infelizmente, ao tratar do tema, não se busca avaliar o conceito do verbo em latim “educere” que dá em português a acepção “desabrochar”, exteriorizar a sua interioridade.

Fica claro que qualquer processo que tenha por base a acepção de educar encaminha a visão de que esse processo propõe que a absorção de conceitos, valores, conhecimentos, se dará segundo um sentido de fora para dentro. Ainda que subordinado a propostas mais modernas que sugerem liberdade para que a criança, o aluno, ou mesmo o adulto, seja estimulado a, por si, encontrar as informações que se deseja que, por ele sejam absorvidas, assimiladas, ainda assim, o processo é “de fora para dentro”.

Acontece que, para tornar o problema mais complexo parece necessário, que se submeta ao prezado leitor que, de fato, na prática do relacionamento humano, o que não pode ocorrer é que se seja flagrado (a expressão pode ser chula, mas se mostra bastante apropriada) cometendo o erro.

A humanidade se estruturou (e se discutirá isso mais detalhadamente no próximo artigo) para ser capaz de constatar o erro, identificar seu autor e castigá-lo de forma correspondente à gravidade do seu erro. É assim na família, é assim na escola, é assim, principalmente, na sociedade.

Na verdade, esse modelo propõe que o problema não é errar. O problema que deve ser evitado é ser pego errando, já que a sanção, o castigo, a censura só ocorrerá caso o erro seja constatado de forma irrefutável.

A possibilidade de que se erre sem constatação não gera consequência. Pode até, infelizmente, gerar uma sensação perniciosa de uma certa sensação de satisfação, expressa pela avaliação: “fiz o que eles não queriam e não aconteceu nada”. Sou “esperto”.

Essa realidade é consequente de que as “regras” foram definidas e impostas de fora para dentro. Não são da criança, no âmbito da família, nem do aluno, no ambiente escolar, muito menos do cidadão, no contexto da sociedade.

Nesses espaços, qualquer manifestação de “rebeldia” determinará reação proporcional à dimensão de como essa rebeldia for entendida como prejudicial à manutenção do “status quo”. Trata-se de modelo claramente conservador, reagente a qualquer perspectiva de mudança e, portanto, inibidor de evoluções, estagnador, freio para a evolução da espécie humana.

No próximo artigo desse conjunto de reflexões, se buscará provocar o caro leitor sobre as consequências desastrosas para o ambiente social, delas decorrendo quase que uma impossibilidade de construção e preservação de uma realidade segura.

Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP.

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