Qua10282020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

27 Fev 2005

As Novas Vestes do Imperador

Escrito por 

O imperador foi tocado pela voz do público, mas mesmo achando que a denúncia deveria estar correta, pensou para si mesmo: "Mas eu devo continuar com o cortejo".

"Una exageración es siempre la exageración de algo que no lo es."
Ortega y Gasset (1883-1955)

 

Não há quem não goste de sonhar com imagens agradáveis.Sonhamos quando estamos dormindo, como um fenômeno psíquico. Mas podemos sonhar acordados, fantasiando e podendo até chegar ao planejamento de  uma civilização nova.

Um mundo novo é possível, dizem os sonhadores mais arrojados. Entretanto, para que as coisas com as quais sonhamos se transformem em realidade precisamos da ajuda de muita gente capaz de interpretar nossas imagens e de torná-las numa realidade. Quando elas são ditadas pela sabedoria, sempre terão maior perenidade e reconhecimento universal. Assim, obras maravilhosas são edificadas neste mundo. Porém, quando as imagens são ditadas pela ignorância e má fé,pela vaidade sinistra da  empáfia,  a  interpretação da  vontade tola e arrogante será  traduzida pela corrupção dos apoiadores servís e qualquer obra será construída para ser destruída logo adiante.

O caráter involuntário das imagens durante o sono, geralmente ligadas à vida do indivíduo, constitui campo de grande interêsse para a investigação psicanalítica. A interpretação objetiva pela psicanálise é complexa e precisa desvendar os dois aspectos relevantes do processo: o conteúdo manifesto e o conteúdo latente, oculto pela elaboração onírica do sonhador...

Na vida desperta, fóra dos sonhos dormidos e encasulados pela censura do superego, só desvendados pelos médicos da alma, a análise só pode ser feita pelo exame comportamental do indivíduo alvo. Os criminalistas e os educadores, principalmente os da escola "behaviorista",costumam ir fundo na materialidade da questão. Os cientistas políticos, então, dela jamais abdicam quando analisam os fatos e seus desdobramentos. Os jornalistas e os detetives devem seus êxitos aos indícios. Afinal, "toda  a  experiência humana tem um resultado: conhecer a realidade adaptando-se a ela"  (Ingenieros).

Dias atrás,relendo algumas estórias de Hans Christian Andersen, escritas para crianças mas sempre lidas com avidez pelos mais velhos,  graças  ao sabor agradávelmente ingênuo que o notável escritor dava às verdades mais duras, me fixei na estória intitulada "As Novas Vestes do Imperador".

Conta Andersen que, muitos anos passados, havia um imperador muito vaidoso.  Ele dava importância à aparência acima de tudo. O monarca tinha um casaco para cada hora do dia. A coisa chegara a tal ponto, que era mais comum dizer-se  que ele estava  no vestiário do que presente ao Conselho.

Certo dia, dois trapaceiros chegaram à capital do império. Diziam eles serem tecelões e costureiros de primeira ordem,com padrões e cores incomparáveis, as mais belas do mundo.

Um grandioso detalhe, porém,  chamou a atenção  daquele poderoso chefe de estado:  diziam  os  velhacos  que  mais interessante  do  que  os padrões e as cores, era  o  fato  de  poderem  transformar  os fios de seda e ouro em matéria invisível para aqueles que não pudessem merecer a confiança  do imperador em seu ministério, ou  para  aqueles que fossem meramente tolos e estúpidos.

A estória vai seguindo, com passagens até muito cômicas, quando por exemplo os dois velhacos convencem o imperador a dar-lhes duas máquinas de fiar, muito ouro e os fios mais preciosos para produzirem tecidos e vestes à cada dia mais caras e luxuosas. Os falsos tecelões faziam-no experimentar as roupas invisíveis e  elogiavam com ardor a elegância e o esplendor do imperador. E, assim, amealhando ouro e a melhor seda, iam se tornando cada vez mais ricos.

Toda a corte já tomara conhecimento do estranho fato e ninguém desejava passar pelo demérito em não poder ver a aparência imaginada pelo próprio imperador e ser ainda considerado como tolo ou estúpido.  Até  o seu ministro mais honesto, mas não estúpido, esforçara-se para imaginar a realidade fantasiosa do imperador, induzida aos seus sonhos  pelos seus dois tecelões-costureiros velhacos.

O  ponto  culminante  da  estória  é  quando  o  imperador  resolve participar de um cortejo pela capital,  ostentando sua mais bela roupagem imaginária, quando apenas estava nú, despido diante da visão real do povo, seguido de várias arcas carregadas de vestes invisíveis,  carregadas  pelos ministros e altos funcionários do palácio. Quando um menino denunciou, aos gritos, a nudez do monarca, o  pai  corrigiu-lhe de imediato. Mas  a denúncia infantil foi passando de boca em boca e o povo começou a bradar que o imperador estava nú.

O imperador foi tocado pela voz do público, mas mesmo achando  que a denúncia deveria estar correta, pensou para si mesmo: "Mas eu devo continuar com o cortejo". E os ministros e altos funcionários do palácio que levavam as arcas, as seguravam demonstrando um grande esforço, embora nada houvesse dentro delas...

Refletindo bem sobre a bela lição moral de Andersen, podemos encontrar as respostas para as nossas perplexidades em relação ao reino de Pindorama.

"Há duas coisas no mundo capazes de encher a alma de espanto e admiração: o céu estrelado sobre nós e o senso moral dentro de nós", dizia Kant.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:17
Jorge Geisel

Advogado especialista em Direito Marítimo com passagem em diversos cursos e seminários no exterior. Poeta, articulista, membro trintenário do Lions Clube do Brasil. É um dos mais expressivos defensores do federalismo e da idéia de maior independência das unidades da federação.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.