Sáb07112020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

27 Fev 2005

Só o Severino?

Escrito por 

Severino Cavalcante não é propriamente um autor de cordel, mas nas suas sinuosidades e espertezas adquiridas nos longos anos que esteve em cargos políticos promete ser uma pedra no sapato do governo.

Desde que se tornou por escolha de seus pares presidente da Câmara dos Deputados, o terceiro cargo mais importante na hierarquia política da República, o antes obscuro deputado pernambucano, filiado atualmente ao PP, Severino Cavalcanti, tem sido alvo de pesadas críticas através da imprensa. Em termos mais suaves é tratado como tacanho, conservador, obtuso, “coronel”, atrasado, semi-analfabeto. Também um número razoável de pessoas se horroriza com o deputado do qual nunca tinha ouvido falar, e que exposto a câmaras e microfones se expressa de forma confusa. Quanto ao governo, mesmo que disfarce, parece estar até agora nocauteado pela estrondosa derrota do seu candidato, Luiz Eduardo Greenhalgh, que o presidente do PT José Genoino, dez ministros e não sei quantos agentes governamentais queriam impor ao Congresso cuja característica de balcão de negócios não funcionou desta vez.

De fato, nunca a representação política brasileira chegou a níveis tão baixos e não sou incumbida de defender nenhum político, nenhum partido. Mas não posso deixar de perguntar: por que só o deputado Severino anda causando tanta repulsa?

Deixando de lado a hipocrisia é preciso aceitar que o atual presidente da Câmara é um lídimo representante do Congresso Nacional como um todo. E o Congresso, como já disse o deputado Delfim Neto, “é a cara do povo brasileiro”. Em parte ele tem razão, pois não somos nós que elegemos esses deputados e senadores? A nos indignarmos com Severino Cavalcanti teremos que nos indignar em primeiro lugar conosco por ter votado em legisladores que costumam legislar em causa própria e não em nome de nossas causas.

Parece, porém, que ninguém se indignou com a eleição para a presidência do Senado do senador alagoano Renan Calheiros, que como observou em excelente artigo, Flavio Tavares (O Estado de S. Paulo, 20/02/2005), “não é apenas a ressurreição da ‘era Collor’, da qual ele foi um dos patriarcas, mas dos vícios daqueles anos, que o impeachment (ou renúncia forçada) do presidente da República pretendia suprimir”.

Todos se indignam, e é mesmo de indignar, com o aumento dos salários e das verbas de gabinete dos parlamentares, promessa de campanha que o deputado Severino está cumprindo e que consumirá R$ 170 mi de reais do nosso bolso de contribuinte. Mas por que não houve indignação quando a mesma coisa foi proposta por Greenhalgh? E onde está a indignação quando agora o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) Nelson Jobin, defendeu a extensão ao presidente da República e a deputados e senadores, do teto de R$ 21.500, valor que ele propõe para a remuneração dos ministros do STF?

Ninguém também se indignou com a eleição dos membros das comissões do Senado, entre eles, o senador Luiz Otávio (PMDB-PA), acusado de desvio de verba pública e do senador Antonio Carlos Magalhães, que em 2001 renunciou ao mandato no senado após o escândalo da violação do sigilo do painel eletrônico de votação da Casa.

Poderia citar mil outros motivos para nos indignarmos e que não causa indignação, mas apresento mais um: a medida que os impostos sobem, pesquisa mostra que subiu mais a popularidade do presidente da República. Portanto, sem nos indignarmos pagamos de bom grado os impostos escorchantes que permitirão, entre outras coisas, o aumento salarial dos felizes detentores dos cargos mais elevados do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.

Somos um povo que não tem medo de ser infeliz porque convive bem com a corrupção, com a violência, com impostos sem fim, com altas taxas, baixos salários e desemprego. Então, por que só o Severino? Por que ele se expressa mal? Por que tem apenas o curso primário? Mas, então, por que somos tão pacientes com o presidente da República? Ele também estudou pouco por absoluta falta de vontade de estudar, só fala bobagens num linguajar confuso quando larga o discurso feito por seus marqueteiros, colocou e continuará colocando milhares de companheiros bem pagos na máquina estatal e se gaba de ter dado o pífio aumento do salário mínimo que foi para R$ 300, 00.

Essa paciência com o presidente Luiz Inácio tem seus motivos: ele não da entrevistas, é circundado por uma propaganda de fazer inveja aos sistemas autoritários, tem muita sorte e possui o dom que o deputado Severino, apesar de nordestino, não tem: é repentista, como atestam suas falas, verdadeiros cordéis com as características dessa arte popular, ou seja: a mentira, a exaltação da valentia, a gabação exagerada de si mesmo. Daí vem o decantado carisma de Sua Excelência, pois qual violeiro a desfilar seu cordel não provoca empatia com o público? Severino Cavalcante não é propriamente um autor de cordel, mas nas suas sinuosidades e espertezas adquiridas nos longos anos que esteve em cargos políticos promete ser uma pedra no sapato do governo. Por isso é preciso malhar o Severino, e apenas ele.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:18
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.