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10 Out 2017

AOS QUE NÃO VIRAM, PARA REFLETIR E, QUEM SABE, COMPARAR?

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Para se prevenir da repetição da História a única saída segura está em que todos os políticos e governantes reconheçam que só gozarão do respeito popular se respeitarem seus representados. Do contrário tem, sim, a Nação e seu povo, todo o direito, porque não, o dever de repudiá-los.

 

Por Gen GILBERTO PIMENTEL, Presidente do Clube Militar

Na semana passada, quando falei da “Democracia e da Intervenção”, prometi que submeteria aos amigos, ainda numa visão muito particular e sujeita a discordâncias e críticas, a experiência vista e vivida que culminou na interrupção pela força de um período governamental. É fácil de deduzir que me refiro ao 31 de Março de 1964.

Disse também, mesmo que com outras palavras, que me convenci, naquela ocasião, ser irrelevante alguém predizer ou desejar simplesmente, diante de ameaças que coloquem em cheque o destino da Nação democrática que todos sonhamos, assegurar se vamos encontrar a solução por esse ou tal caminho, seja ele legal ou não. Podem ser muitos, como foram em 64, e por vezes fora do controle, os atores, fatores e aspectos intervenientes.

Seguidamente, quem não conheceu me indaga sobre as semelhanças daqueles anos com os que vivenciamos atualmente. São diferentes, certamente, mas insisto sempre, que dificilmente encontraremos uma saída hoje sem que os políticos e governantes prossigam, ignorando solenemente as leis, como é a obrigação de qualquer cidadão comum, e desdenhando dos compromissos assumidos com seus representados. Não sendo assim têm, sim, a Nação e seu povo, todo o direito, e até o dever, de repudiá-los.

Ao invés de me fixar na comparação do ontem e do hoje, vou ficar como disse antes, com as impressões que incorporei do que vi e vivi, à época, ainda pouco experiente segundo-tenente, mas já empenhado nas seguidas operações de prevenção e manutenção da ordem que se impunham realizar naqueles dias distantes. Deixo, porém, para os amigos, as conclusões sobre semelhanças e diferenças com os dias atuais, se é que existem. Não participou a minha geração, por ser muito jovem, dos bastidores políticos que levaram à culminância dos fatos, de resto, fartamente explorados em livros e documentos, lamentavelmente, quase sempre, de maneira distorcida.

Eu vi um país dominado pelo medo naquele começo de ano. Acredito que todos os segmentos da sociedade sentiam um medo profundo. Mas medo do quê? De um modo abrangente, talvez inconsciente para alguns, creio que temíamos perder as referências do nosso PASSADO, ver destruídos valores, costumes e tradições seculares; medo do PRESENTE, a vida ficou difícil naquele ambiente de inquietações e inseguranças de toda ordem; medo do FUTURO que estaria reservado para nossos filhos e nossa Pátria. Acho que esse medo generalizado foi decisivo para o que viria a suceder.

De onde vinha esse medo? Por que tão avassalador? Como chegamos ao ponto de ele ser tão dominante? Creio que a origem maior estava no próprio dirigente máximo do País; fraco, incompetente, titubeante, escancaradamente alheio e até opondo-se a valores tão caros aos brasileiros, sobretudo para a nossa classe média: a democracia, a hierarquia, o sagrado direito à propriedade, enfim, um infindo rol. Na sua fraqueza enxerguei a geração primeira dos nossos dissabores.

E objetivamente o que temíamos?

Claro, a expansão do comunismo, ideologia que abominamos e da qual o presidente, no mínimo, foi simpatizante. Comunismo que se constituía em ameaça real ao mundo ocidental democrático, já batendo às nossas portas, tendo Cuba como ponta de lança dos seus patrocinadores, os soviéticos.

Apavorou-nos a inversão das hierarquias e a insubordinação, acima de tudo nos quartéis, lideradas por autoridades e incitadas pelo próprio presidente da República.

As greves nos serviços essenciais se tornaram rotina. Lembro-me que a cada um de nós, tenentes, incumbiam setores de atividade, os quais devíamos, mediante ordem, fazer funcionar a qualquer custo. Recordo que estive responsável por uma estação ferroviária para impedir atrasos e quebra-quebra nos trens. Isso acontecia a cada dia.

Como consequência das paralisações nos transportes, houve desabastecimento de certos produtos básicos.

Houve violações e ameaças ao direito de propriedade, sobretudo no campo. Ali o pânico chegou a se instalar. A imprensa viu-se atingida, jornais foram empastelados, emissoras de rádio invadidas.

A desordem, enfim, tomou conta do País.

Aí surgiu, uma lição que aprendi e que não vejo como não se repetir todas as vezes em que o medo dominar e a nação necessitar ser defendida, ainda que de si mesma. Todos se juntaram, uníssonos, em busca das suas Forças Armadas, instituição também em crise à época, mas as únicas ainda capazes de reagir e restabelecer a paz. Vou procurar colocar em ordem de ênfase os principais atores no seu chamamento:

A mídia. Essa mesma mídia, acreditem, na quase totalidade, incluídos os que clamam, hoje, por um “mea culpa” das FFAA. Esses não pediam, antes exigiam, que derrubássemos o primeiro mandatário. Muitas vezes com manchetes até ofensivas aos militares como comprovam os arquivos da época de fácil constatação.

A Igreja Católica, certamente preocupada com a ameaça marxista que, simplesmente, prega o fim das religiões: “ópio do povo”

E, finalmente, a sociedade, aí incluídos muitos outros atores dela integrantes, saiu às ruas em massa para protestar e exigir que Marinha, Exército e Força Aérea dessem um basta naquele estado de coisas.

Vem, então, a segunda lição que aprendi e que agora, enfaticamente, repito: o medo numa sociedade pode vir de muitas direções, ser provocado por causas diversas, não necessariamente as mesmas de 64, e, quando o pânico se instala, pode provocar reações em setores que nem se supunha poder ocorrer, como na mídia naqueles anos. Basta que seus integrantes se sintam ameaçados.

E mais: que é irrelevante alguém, por mais alta autoridade que seja, por mais democrata que jure ser, afirmar se vamos ou não vamos, diante da iminência do caos, seguir por esse ou aquele caminho, legal ou não. São muitos, e por vezes fora do controle, os personagens, fatores e aspectos intervenientes.

Para se prevenir da repetição da História a única saída segura está em que todos os políticos e governantes reconheçam que só gozarão do respeito popular se respeitarem seus representados. Do contrário tem, sim, a Nação e seu povo, todo o direito, porque não, o dever de repudiá-los.

Simples assim!

 

 

 

 

 

 

 

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