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04 Out 2017

A FÁBULA

Escrito por 

 

 

 

Mas será essa recuperação transitória ou permanente? Um vôo de galinha ou de águia? Mais uma flutuação cíclica ou o crescimento auto-sustentado, tão desejado quanto postergado? O rei vai deixar de lado as galinhas e libertar as águias ou vai manter as últimas amarradas me limitar-se a “monitorar” as primeiras?

 

Muitas pessoas têm me perguntado se a recuperação de nossa economia, o controle da inflação e a trajetória descendente da taxa básica de juros, que vêm se verificando há três ou quatro meses, são permanentes ou estão condenadas a se transformarem em mais uma bolha. Para responder a essa importante dúvida, bem como comentar sobre as quase que eternas vicissitudes da economia brasileira, vou recorrer ao velho Esopo (620 a.C. – D 564 a.C.), considerado o pai da fábula como gênero literário, bem como, naturalmente, à boa teoria econômica. Isso me levou a escrever a pequena e despretensiosa fábula abaixo.

Trata-se de alegoria bastante conhecida entre economistas e jornalistas da área, incluindo tanto a parcela dos primeiros que brigaram com a boa teoria quanto a quase totalidade dos segundos.

A águia e a galinha

Era uma vez um rei bastante poderoso e mandão, que mantinha nos fundos de seu reluzente palácio, projetado por dois nobres famosos, o Barão Lúcio Costa e o festejado Visconde de Niemeyer, duas aves: uma galinha e uma águia. A galinha ele costumava deixar solta, ciscando no terreiro, e apenas uma vez ou outra aparava suas asas, pois temia que pudesse voar, mesmo que fosse para perto, em busca de liberdade, mas a águia ele fazia questão de manter presa em um grosso poleiro, com uma corrente muito curta, já que receava deixá-la alçar vôo, o que o levaria a perder totalmente seu controle sobre ela. Para reforçar sua segurança de que a águia não fugiria o monarca, periodicamente, além de mantê-la acorrentada, tosava suas asas com as tesouras enferrujadas da burocracia, do intervencionismo, da ingerência nas escolhas dos indivíduos e da proibição ao empreendedorismo.

A águia é um animal empreendedor, gosta de voar alto e percorrer grandes distâncias, de buscar a própria felicidade e o rei já tinha ouvido falar da mitológica Fênix e daquela outra lenda, a de que quando sente que é tempo de transformar-se (ou de reformar-se a si mesma), a ave se retiraria e se atiraria contra rochedos, em um doloroso processo de renovação do bico, garras e plumagem, porque saberia que isso seria para seu bem. Na dúvida sobre a veracidade do conto, Sua Majestade preferia aplicar sua máxima de que ‘é melhor uma águia presa do que a mesma águia livre’.

Já a penosa prefere viver ciscando em torno de seu dono, porque isso lhe garante as migalhas que este lhe oferece e, de quando em quando, uma ração bem mais saborosa, proveniente da proximidade com seu proprietário e das oportunidades de corrupção que essa vicinalidade sempre lhe proporciona, o que a mantém gorda e sem necessidade de correr riscos de qualquer espécie. O avô do rei, inclusive, tinha fundado nos anos 50 do século XX um banco voltado para o desenvolvimento econômico e social de todas as galinhas do reino, principalmente daquelas escolhidas para serem as ‘galinhas campeãs’.

O rei sabia que a águia é símbolo universal de poder, força, autoridade, vitória e até, segundo alguns, de proteção espiritual. Também era de seu conhecimento que, ágil e habilidosa, essa ave guerreira e predadora, conhecida como a ‘rainha das aves’, está relacionada com a realeza, pois o alcance e a sagacidade de seu olhar a fazem capaz de fitar o sol diretamente, o que representa simbolicamente a clarividência. Além da acuidade visual, mantém sempre o longo prazo em mente, pois sua expectativa de vida é de 30/40 anos, enquanto que a galinha vê apenas alguns metros à frente e segue os preceitos ‘keynesianos’ de agir sempre com vistas ao curto prazo, pois vive somente, de acordo com a raça, de 4 a 8 anos. Por essa razão, o soberano, que tinha verdadeiro pavor de tudo o que dissesse respeito ao longo prazo, à liberdade e à iniciativa de seus súditos – o que lhe diminuiria o poder - mantinha sempre a atitude de desconfiar das duas aves, acorrentando a águia e iludindo a galinha, fazendo-a acreditar que era livre. Em seus discursos, porém, sempre cobria a águia de elogios.

 
Toda e qualquer semelhança dessa inocente fábula com os fatos que observamos nos sistemas econômicos, políticos, éticos, morais e culturais do Brasil não tem nada de coincidência, pois se trata da verdade, da mais pura, lídima e cristalina verdade. Ou não?

Quando, após o impeachment da presidente que estocava ventos, Henrique Meirelles assumiu a Fazenda e anunciou a nova postura da equipe econômica, com ênfase no controle das contas públicas, o efeito sobre as expectativas foi quase que imediato. Como era de se esperar, os mercados reagiram bem aos anúncios de austeridade fiscal e de reformas nas áreas do trabalho e previdência. Cerca de ano e meio depois, a economia dá ligeiros sinais de recuperação e a inflação de preços já se situa em níveis razoáveis, comparativamente aos registrados no triste período ocorrido entre o segundo mandato da “alma mais honesta deste país” e a “Nova Matriz”.

Mas será essa recuperação transitória ou permanente? Um vôo de galinha ou de águia? Mais uma flutuação cíclica ou o crescimento auto-sustentado, tão desejado quanto postergado? O rei vai deixar de lado as galinhas e libertar as águias ou vai manter as últimas amarradas me limitar-se a “monitorar” as primeiras?

A meu ver, a aparente recuperação da economia e a queda da inflação devem mesmo ser comemoradas, mas com uma grande dose de cautela. O que aconteceu é que paramos de andar para trás e estamos ensaiando dois ou três passos à frente, todavia o caminho a ser percorrido é muito longo e exige muito esforço, virtude ausente, por definição, nos políticos. É evidente que até um mosquito chato, daqueles de lâmpada, sabia que o país precisava de uma guinada na política econômica! A trombeta do PT soava um som confuso, o que fazia o exército de empresas e consumidores, poupadores e investidores a ficar na dúvida se a ordem era atacar, recuar ou defender a posição. E, como São Paulo já alertara aos coríntios há 2.000 anos (1 Cor. 14:8), ‘se a trombeta emitir sonido incerto, quem se preparará para a batalha ?’

Por isso, com a equipe de Meirelles, o setor privado passou a ouvir alguns avisos claros emitidos pela trombeta diretamente de Brasília: que o governo não toleraria mais a inflação, que o Estado deveria fazer importantes reformas estruturais, que a política de campeões nacionais havia sido abolida, que a previdência estava quebrada, que a república sindical precisava ser desmontada, que muitas empresas estatais precisavam ser privatizadas, que a carga tributária e o peso do setor público na economia deviam ser drasticamente reduzidos, etc.

A boa notícia, então, é a da incipiente recuperação da economia e do emprego e a má é a de que, a meu ver, esses bons resultados podem não se transformar em mudança definitiva de rumos. Em termos da fábula, Meirelles deixou crescerem as asas da galinha e ela já está começando a voar alguns metros mais longe, mas a águia continua presa na angustiante espera da expedição do alvará de soltura anunciado – e ainda não despachado - pelo rei.

Essa tão esperada autorização, no entanto, não depende da equipe econômica. Está nas mãos do sistema político e este, além de ser sempre refratário à liberdade da águia, está atravessando uma das maiores crises de nossa história. Um terço de nossos parlamentares está com o nome envolvido em investigações e processos, incluindo senadores, ministros próximos ao presidente, ex-ministros e o próprio chefe de Estado.

Fazer reformas, em uma situação dessas, deixa de ser para os políticos apenas um conjunto de medidas aparentemente impopulares, mas passa a ser – sejamos claros – impossível! Como levá-las adiante, se o presidente, eleito pela atual oposição e, portanto, sem qualquer compromisso com as reformas que hoje diz desejar fazer, bem como seus acólitos mais próximos, todos envolvidos em graves denúncias, estão mais preocupados em se manterem no poder do que em governar?

Como avançá-las se ninguém sabe o que poderia atualmente no Congresso ser classificado como “situação”?

Como acreditar nelas no oceano de corrupção em que o país está mergulhado e em que o noticiário diário tem sido mais emocionante que qualquer filme policial que se possa imaginar?

Como levá-las a votação se a oposição esquerdista, como sempre, parece mais preocupada em estimular o caos em busca de uma eventual e improvável vitória em 2018, do que em cumprir seu papel legítimo de oposição construtiva?

E como ter confiança de que serão concretizadas se há sinais claros de crise institucional e desarmonia entre os três poderes, com evidentes exemplos de invasões de atribuição do Judiciário sobre os demais?

Adicionalmente, como esperar que possam vingar, se o ano de 2018 será de eleições e, portanto, de diversos tipos de incerteza e se já aparecem vários urubus agourentos e barulhentos, oportunistas e personalistas, enganadores e mistificadores se candidatando a presidente?

Por tudo isso, a resposta à pergunta que formulei no início é que, até segunda ordem, estou afirmando que as boas notícias ainda não passam de um vôo de galinha. E que, dependendo do desenrolar da crise política e institucional e de quem serão os vencedores – no Executivo e no Legislativo – no próximo ano, até mesmo essa simpática ave poderá ter como destino a panela.

 

 

 

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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