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27 Fev 2005

Giannetti e os Bancos

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Aprendi a dura lição de que os bancos não eram o vilão da história, mas o governo, com suas políticas erráticas, com sua ação inflacionária, com sua irresponsabilidade macroeconômica. Os bancos levavam a fama da culpa que não tinham.

Quando comecei minha vida profissional fui ser analista de crédito em bancos privados. Isso nos finais dos anos setenta e ao longo dos anos oitenta. Penso que conheço por dentro o mercado bancário por conta dessa experiência. Quis o destino que nesse período grandes crises financeiras acontecessem. No governo Figueiredo tivemos o apogeu da crise da dívida externa da época dos governos militares, hipertrofiada pela loucura que foi a política econômica de Delfim Netto, de pré-fixar a taxa de câmbio e a correção monetária, de elevar os salários reais e tudo o mais.

A mágica durou poucos meses e logo em seguida fui testemunha de um choque do qual nunca me esqueci: crise bancária, crise na indústria, crise do governo, quebra do BNH e, em 1982, o famoso setembro negro, quando o Brasil entrou tecnicamente em defaut. Jamais me esqueci da imagem na televisão da reunião do Conselho de Segurança Nacional, presidido por Figueireo, anunciando as duras medidas que tiveram que ser tomadas.

A maior lição que aprendi é que uma empresa produtiva, em uma economia como a nossa, jamais pode ficar à mercê do sistema financeiro. As empresas que sobreviveram – Votorantim, Bardella, Gerdau, algumas que me lembro agora – todas elas eram emprestadoras líquidas ao sistema financeiro, vale dizer, ao governo. Em contrapartida, aquelas que captavam recursos, como o Grupo Matarazzo, todo o setor de brinquedos, o setor sucro-alcooleiro – ou entraram am bancarrota ou chegaram perto disso.

Aprendi a dura lição de que os bancos não eram o vilão da história, mas o governo, com suas políticas erráticas, com sua ação inflacionária, com sua irresponsabilidade macroeconômica. Os bancos levavam a fama da culpa que não tinham.

Lembrei dessa passagem da minha vida ao ler hoje a entrevista do grande economista Eduardo Giannetti da Fonseca, um dos poucos liberais genuínos que temos no Brasil. Muito admiro sua obra escrita e sua ação pública. Por isso mesmo permito-me discordar de alguns pontos da citada entrevista, como segue.

O primeiro ponto é relativamente ao papel dos bancos. Giannetti afirma que “O sistema bancário não cumpre o seu papel, que é o de fazer a intermediação entre a poupança das famílias e o investimento do setor privado – além de financiar consumo a taxas razoáveis”. Ora, essa é apenas uma das funções dos bancos e nunca foi devidamente cumprida, desde sempre. A doença não é de hoje, porque não é de hoje que o Estado exorbita, praticamente exercendo o monopsônio na tomada de crédito. Os bancos fazem outros dois grandes serviços ao mercado: mantêm a riqueza financeira sob custódia – ninguém guarda dinheiro em casa – e construíram um sofisticadíssimo sistema de pagamento eletrônico, com poucos paralelos no mundo. O mercado como um todo funciona melhor por existir esse sistema.

O tom da entrevista é francamente contrário ao sistema bancário e considero isso uma injustiça. Giannetti deveria apontar as suas baterias contra o governo – o Estado – que impede que o sistema bancário coloque-se integralmente à serviço do mercado.

Outro ponto que Gianneti vacila é ao falar do mercado de trabalho informal, associando honestidade empresarial à “carteira assinada”. É um grave equívoco. A economia brasileira não entrou ainda em convulsão terminal por causa do “jeitinho” que se tem dado no mercado de trabalho, com as micro-empresas de araque e com o trabalho remunerado “por fora”. Esse é o verdadeiro oxigênio da nossa economia, que impede que a arrecadação tenha encostado no 45% do PIB. Giannetti chama as empresas que contratam dessa forma de “gangsters”, o que é inaceitável. Gangster é o governo que tunga a empresa que ousa contratar dentro da CLT.

Por fim, preciso discordar da sua visão de nossa tradição católica, à qual atribui responsabilidade pelo nosso não desenvolvimento. Implicitamente ele adota a visão de Max Weber, consagrada em nossas escolas de Economia, desprezando o trabalho de Alain Peyreffite (A Sociedade da Confiança, editado no Brasil pela Topbooks), no qual ele desmistifica a visão negativa sobre o catolicismo. A matriz do capitalismo é o cristianismo enquanto tal e não qualquer dos seus segmentos particulares.

Giannetti é mais uma voz que se levanta contra as nossas mais caras tradições de forma não fundamentada e injusta.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:18
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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