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30 Jul 2017

SE NÃO ESTÁ BOM, É PORQUE AINDA NÃO ACABOU

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O tempo passa e a gente começa a ser testemunha de fatos e atos que parecem querer desmentir a garantia que meu pai me dera de que o bem sempre vence, mas procurei resistir a descrença e fui assíduo ouvinte de dois seriados da Rádio Nacional (famosa por suas novelas, na época) destinados a um público adolescente.

 

Meus amigos, no final da minha infância, começo da adolescência (início / meados dos anos 50), não havendo essa pletora de meios e facilidades que povoam a realidade das crianças, hoje, as diversões que experimentávamos era, além das “peladas” de futebol nas ruas do bairro (naquele tempo ainda se podia brincar nas ruas), era uma ida ao cinema no domingo, leituras e músicas (começava a aparecer o “Rock and roll”).

Quase que infalivelmente, todo domingo eu ia com meu pai ao cinema do bairro, para assistir filmes de “Far West”, como eram chamados. Os heróis dos filmes, sempre americanos, encantavam a gurizada, que vibrava com as suas façanhas. Todos queriam ser como Roy Rogers, Hopalong Cassidy, entre tantos.

Os filmes eram apresentados sob a forma de seriado, cada um envolvendo alguns fins de semana, de forma que, ao final de cada apresentação, geravam grande suspense sobre o que aconteceria no domingo seguinte. Naturalmente, era o artifício para gerar fidelidade da plateia e garantir o retorno de todos.

Interessante e inteligente era que cada capítulo terminava sempre em momento dramático para o “mocinho”, expressão que identificava o herói da estória. Coisas do tipo: o mocinho amarrado na linha do trem e a locomotiva apitando na primeira curva da estrada de ferro.

Eu saía do cinema entre angustiado e indignado e meu pai era, claro, o destinatário das minhas apreensões. Como podia aquilo estar acontecendo? Afinal o mocinho era bom, honesto, queria o bem de todos e estava lutando pelo que era justo, certo, verdadeiro.

Invariavelmente, meu pai me tranquilizava afiançando que tudo terminaria bem. Assegurava que o mal nunca vence, que o crime não compensa e coisas que tais.

Concluía sempre com a afirmação, que me tranquilizava:

-“Meu filho, se as coisas não estão bem, é porque a estória ainda não acabou. Tudo sempre acaba bem. O mocinho vai ganhar e os bandidos vão acabar presos”.

Por mais que a cena final do capítulo não sinalizasse nada que permitisse essa expectativa, a certeza com que meu pai falava, acabava por me acalmar e me deixava com aquela ansiedade própria das crianças que veem ao mundo com uma inclinação natural para o bem, para o justo.

O tempo passa e a gente começa a ser testemunha de fatos e atos que parecem querer desmentir a garantia que meu pai me dera de que o bem sempre vence, mas procurei resistir a descrença e fui assíduo ouvinte de dois seriados da Rádio Nacional (famosa por suas novelas, na época) destinados a um público adolescente.

Eram o “Jerônimo, o herói do Sertão” e “O Anjo”. Ou era “O Santo”? Não lembro.

O primeiro tinha como cenário áreas do interior do Brasil e apresentava um herói que lutava para defender “ os fracos e oprimidos”. Um tipo de “Robin Hood” brasileiro.

Hoje, me pergunto se já não seria uma manifestação da esquerda propondo a luta de classes.

O segundo era uma versão cosmopolita com o mesmo propósito.

Um detetive que lutava para fazer prevalecer a justiça.

De qualquer forma, aquela experiência parecia fazer renascer em mim a fé na assertiva de meu pai.

Hoje, como legítimo representante daqueles experimentando a “melhor idade” (sempre que escuto a referência a essa expressão “politicamente correta” me soa como deboche) e tendo assistido nesse Brasil as mais deslavadas atitudes de desrespeito ao que o senso comum entende com certo, justo, honesto, me sinto envolvido por um sentimento que descrevo como um misto de revolta, indignação, nojo, tristeza, desilusão...

Mas não é que nesse quase caos o nosso novo Jerônimo, nosso novo Anjo, o nosso Roy Rogers, o nosso Hopalong Cassidy, o nosso Juiz Sérgio Moro condenando o Pinochio a nove anos e meio de cadeia, a pagar multa milionária e a ficar impedido de ocupar cargos públicos por sete anos, me volta a sugerir que meu pai poderia estar certo.

O prezado amigo que valoriza esse espaço com sua visita poderá dizer:

- “Calma, o processo ainda não terminou”.

Eu sei, mas faço questão de registrar que me vejo cheio de esperança de voltar a acreditar que:

“Se não está bom, é porque ainda não acabou”.

Em breve, no próximo capítulo da estória, se assistirá a 2ª Instância confirmando a sentença do Juiz Sérgio Moro, quem sabe até aumentando as penas e, aí sim, o mocinho (o povo) vencerá e os bandidos começarão a perder, como nos filmes de “Far West” da minha infância.

 

 

 

Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP.

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