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23 Fev 2005

Ranço Esquerdista

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O inchaço do PTB e do PL, além de uma maior fragmentação do PMDB, são exemplos do pouco caso do atual governo para com os partidos políticos.

A vitória do deputado Severino Cavalcanti, do PP de Pernambuco, para a Presidência da Câmara dos Deputados se deve, para além das vicissitudes das artimanhas partidárias, ao ranço esquerdista que continua a permear as decisões do PT e do seu governo. Se o PT e o governo não conseguiram se ajudar, é porque foram atravancados por posições atrasadas que continuam vigentes, embora a área macroeconômica faça um enorme esforço para fazer avançar novas práticas e concepções. Penso ser importante enfatizar dois pontos que podem nos dar uma certa visão do acontecido, sinalizando ações posteriores, seja de correção de rumo, seja de perseverança na mesma direção. Refiro-me ao perfil do próprio candidato Greenhalgh e à tendência hegemônica do PT.

Candidato esquerdista. O PT se caracteriza por ser um partido de tendências, algumas antagônicas, que se digladiam pelo poder partidário. Os conflitos ganham muitas vezes dimensões exponenciais, quando põem em xeque a resolução das oposições entre reformistas e revolucionários. Como o governo petista vem seguindo uma linha responsável na área macroeconômica, adotando posições que até recentemente eram consideradas “neoliberais”, uma satisfação deveria ser dada aos setores mais à esquerda.

Em vez de escolher um deputado de livre trânsito junto à base aliada e aos partidos de oposição, o PT optou por resolver uma questão interna, desconsiderando o que poderia acontecer externamente, pois acreditava no seu modo autoritário de governar junto aos outros partidos. O Dep. Greenhalg pertence às alas mais à esquerda do partido, tendo se destacado como defensor do MST. Neste sentido, fica claro que o governo procurou dar satisfação ao MST e aos setores mais à esquerda da Igreja católica, que teriam o seu trânsito parlamentar facilitado. Ademais, o Dep. Greenhalgh se notabilizou por tentar concluir rapidamente as investigações sobre a morte do Prefeito Celso Daniel, do PT de Santo André, ao considerar precipitadamente que se tratava de um crime comum. O que tentou, na verdade, foi encobrir as relações escusas de petistas do governo municipal – e talvez além – com a extorsão de empresários dos transportes. Agiu como um apparatick no velho sentido comunista do termo. Ao procurar resolver com Greenhalg um problema eminentemente interno, o partido criou um problema externo que não soube controlar. Mais uma vez, o PT desconheceu que ele é apenas um partido e não o país ou todos os partidos.

Prática autoritária. O PT não tem uma prática de diálogo com os partidos de oposição, e mesmo aliados, mas procura principalmente impor suas próprias posições. O partido não faz alianças propriamente ditas, porém procura controlar os partidos de sua própria base de sustentação, enfraquecendo-os e impondo uma prática de tipo hegemônica. Faz-se, portanto, aqui presente uma forma de autoritarismo que permeia as ações governamentais. Processo semelhante ocorreu na Assembléia Legislativa do RS durante o governo petista de Olívio Dutra, quando o PT procurou autoritariamente impor suas próprias condições, sem se preocupar com negociações e com o respeito aos demais partidos e deputados. Saboreando, na esfera federal, de um poder incomparavelmente maior, o PT pensou que bastava utilizá-lo para fazer passar as suas propostas. O seu equívoco reside em que deixou de ver o que estava acontecendo, pois os seus olhos estavam completamente voltados para o exercício de seu projeto de hegemonia. O autoritarismo dessa prática de governar se traduziu pelo enfraquecimento dos partidos políticos.

O inchaço do PTB e do PL, além de uma maior fragmentação do PMDB, são exemplos do pouco caso do atual governo para com os partidos políticos. O PT se preservou, porém os demais partidos, sobretudo os da base aliada, foram intencionalmente desestruturados. O desrespeito para com os partidos em geral é a expressão de um posicionamento muito arraigado no PT, o de impor suas próprias concepções, sem o respeito devido às formas políticas da democracia representativa.

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Fonte: Diego Casagrande.
Autor: Denis Rosenfield, filósofo, em 23/02/2005

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:19
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