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14 Jul 2017

A POLÍTICA DA NOSTALGIA

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A nostalgia pode ser uma poderosa arma política. Pode ser um motivador ainda mais poderoso do que a esperança, explorada pelos revolucionários. A esperança pode trazer decepção, mas a nostalgia é irrefutável. Ela adota um pensamento mágico para a História, e o sofredor da modernidade encontra refúgio nessa magia, na ilusão de que existiu um Éden e que é possível resgatá-lo.

 

Existem dois grupos ideológicos que podem ser igualmente perigosos para a democracia liberal. O primeiro é o dos revolucionários utópicos, que pretendem criar um “novo mundo” e um “novo homem”. Eles idealizam o futuro, e não se importam com os meios para atingir tão “nobre” fim. Foi essa mentalidade que esteve por trás da Revolução Francesa, da bolchevique e de tantos outros nefastos experimentos socialistas. No Brasil, o PT e suas linhas auxiliares, como o PSOL e a Rede, representam essa visão de extrema esquerda. Do outro lado estão aqueles que também não suportam o presente imperfeito, as necessárias contemporizações de uma democracia, mas em vez de idealizar o futuro preferem idealizar o passado. Sonham com o resgate de uma “era de ouro” perdida, em que tudo era infinitamente melhor, até mesmo perfeito. Para retornar a esse paraíso, não medem esforços, adotam métodos igualmente autoritários e estão dispostos a eliminar os adversários no processo, tratados como inimigos mortais se desviarem uma vírgula de sua cartilha. São os reacionários.

Em The Shipwrecked Mind, Mark Lilla traça o perfil dessa postura reacionária, dissecando alguns pensadores relevantes da extrema direita. Sua marca principal é o profundo desgosto para com a vida moderna, vista como decadente e perto de um Apocalipse. A redenção precisa vir de uma volta ao passado, e o medo de uma iminente catástrofe alimenta essa postura. O reacionário acredita no determinismo e acha que descobriu as leis da História, e cada evento ruim é utilizado como prova irrefutável de que vivemos num mundo pervertido, prestes a sofrer um enorme castigo se não resgatar urgentemente o modelo imaginado de eras passadas.

A nostalgia pode ser uma poderosa arma política. Pode ser um motivador ainda mais poderoso do que a esperança, explorada pelos revolucionários. A esperança pode trazer decepção, mas a nostalgia é irrefutável. Ela adota um pensamento mágico para a História, e o sofredor da modernidade encontra refúgio nessa magia, na ilusão de que existiu um Éden e que é possível resgatá-lo.

É fácil descartar o reacionário como um paranoico, um sujeito amedrontado que necessita crer em alguma conspiração para destruir o mundo e que sonha, portanto, com o retorno a um tempo idealizado. Mas muitas vezes seu sentimento, ainda que exacerbado, aponta para problemas reais da era moderna. A degradação de valores morais, por exemplo, é um fato, assim como a questão do multiculturalismo ameaçando a soberania nacional. O ponto é que o reacionário não apenas reage a tais aspectos; ele exagera tanto no perigo que o futuro nos guarda, quanto nas vantagens desse período anterior romantizado. E é aí que o tiro sai pela culatra.

Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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