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21 Fev 2005

Vida Severina

Escrito por 

Foi uma fragorosa derrota das forças governistas, que se fiaram na estatística de que um candidato oficial jamais perderia o pleito, sobretudo contra o Severino.

Passei os últimos dias lendo os cronistas políticos sobre a surpreendente e sensacional eleição de Severino Cavalcanti para a Presidência da Câmara de Deputados. Foi uma fragorosa derrota das forças governistas, que se fiaram na estatística de que um candidato oficial jamais perderia o pleito, sobretudo contra o Severino. Lula foi passear com seu avião novo e os “operadores” do Planalto cochilaram madrugada a dentro. Ruim para eles, bom para o Brasil.

Não que eu tenha particular admiração pela biografia do novo presidente. Mas não dá para comparar ter um leninista convicto e alinhado com os leninistas do Palácio do Planalto, comandando a Câmara, e um verdadeiro outsider, um conservador botocudo e cabeça dura, naquele cargo. Se há uma chance de a Medida Provisória 232 vir a ser rejeitada ou modificada na sua substância, será pela força severina. Com Greenhalgh a aprovação seria um passeio. Só isso, mesmo que Severino dobre os salários dos pares, ficará muito mais barato para os cidadãos, pois a grana terá que sair do mesmo saco e não do bolso de quem trabalha. Tudo pelo social.

A desqualificação do Severino tem sido mal-disfarçada pela comunalha na mídia, nos editoriais, na crônica política. Mas quem é cabo eleitoral do apedeuta Lula não pode falar de um homem que tem uma vida empresarial, que conhece os mecanismos do Legislativo, que tem uma longa vida pública que muito lhe ensinou. Um homem envelhecido que adquiriu alguma sabedoria, queiram ou não seus detratores. O preconceito da imprensa do Sul-Maravilha contra um nordestino também fica mal-disfarçado, pois afinal Lula-lá é pernambucano, um tanto apaulistado, é verdade. É divertida a ginástica verbal que fazem na tentativa de desqualificação, pois falar mal do Severino é falar ainda pior de Lula-lá.

Ouvi as declarações do eleito, li suas entrevistas. Percebe-se um homem sensato, de posições firmes, embora com uma visão de Estado radicalmente patrimonialista. Mas há liberais na Câmara? Muito poucos. Em graus variados são todos patrimonialistas. Prefiro um Severino que não será servil a José Dirceu a um Greenhalgh fazendo a correia de transmissão das mesquinharias socialistas que veríamos pipocar ao longo dos próximos meses na forma de Medidas Provisórias.

E gosto também das convicções morais do novo presidente. Os pervertidos da mídia torceram os nariz e sabem que agora a sua agenda terá que esperar por alguém mais flexível. Menos mal. O “avanço” da causa nos últimos anos está delirante e é hora mesmo de dar um basta.

A síntese mais feliz das frustrações dos esquerdistas está no título da coluna de Elio Gaspari publicada hoje na Folha de São Paulo: “O PT tem conserto. Chama-se PT”. Para ele, os “desvios” do governo Lula se dão porque a tresloucada agenda socialista daquele partido teria ficado em fogo brando, implantando-se supostamente uma agenda neoliberal. Jocosamente, sugere até que Lula crie um grupo de trabalho denominado “Grupo de Trabalho Desengavetador do Petismo”.  Ele tem razão: não dá para o lobo ficar eternamente disfarçado em pele de cordeiro. Que venha o petismo puro sangue, ora.

Outra coluna de pura má fé é a de Jânio de Freitas, publicada no mesmo jornal, atribuindo a eleição de Severino à pura e simples corrupção reinante no meio do Legislativo. Não é mero erro de avaliação, é uma falsificação. Esquece de lembrar que só há corrupção porque o Estado agigantou-se e com o petismo o mal tem crescido rapidamente. Não há maior gesto de corrupção do que a sistemática e ininterrupta elevação dos impostos, como a prevista na Medida Provisória 232, mas contra essa verdadeira corrupção o analista não tem uma palavra de condenação. Afinal, ele é também um dos sacerdotes que acreditam estar praticando o bem roubando de quem trabalha, via impostos, para dar a quem não trabalha. É uma esculhambação moral da maior gravidade, que permeia toda a nossa classe política, nossos acadêmicos, nossos jornalistas, toda a classe letrada.

Seja bem vindo, Severino Cavalcanti. Tem o meu respeito e a minha esperança de que não seja cooptado pela comunalha.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:20
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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