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07 Jul 2017

MOEDA CONFIÁVEL E JURO NORMAL: ESTABILIDADE E PROGRESSO

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Dentre os que influenciaram Roberto Campos, Hayek, um dos mais destacados nomes da Escola Austríaca de Economia, costumava dizer que para ser um bom economista é preciso não ser só um economista e, portanto, que um profissional com conhecimentos restritos apenas ao âmbito da teoria econômica não pode ser um bom economista.

 

Vários economistas influenciaram Roberto Campos. Os principais foram os liberais brasileiros Eugênio Gudin e Octávio Gouveia de Bulhões; os norte-americanos Milton Friedman, preceptor do monetarismo, e James Buchanan Jr, mentor da chamada Escola da Public Choice; e os economistas austríacos Ludwig von Mises e Friedrich August von Hayek. Em comum a todos eles, a defesa firme da economia de mercado, a desconfiança não menos inabalável nas ações do Estado no âmbito da economia e a ojeriza profunda às teses “inflacionistas”, segundo as quais “um pouco de inflação não faz mal a ninguém e é até benéfico”. Em desacordo, a metodologia adequada ao estudo da economia, em que, contrariamente aos demais, apenas os economistas da tradição austríaca de Carl Menger empregam elementos subjetivistas, incorporam uma teoria dinâmica do capital em suas análises, rejeitam o uso da matemática como ferramenta para modelar a ação humana individual e postulam que esta última deve ser o fio condutor das análises, o que os leva a rechaçar os modelos econométricos de previsão e a macroeconomia com seu método agregativo de natureza holística.

Dentre os que influenciaram Roberto Campos, Hayek, um dos mais destacados nomes da Escola Austríaca de Economia, costumava dizer que para ser um bom economista é preciso não ser só um economista e, portanto, que um profissional com conhecimentos restritos apenas ao âmbito da teoria econômica não pode ser um bom economista. Defendia esta tese e podia invocar a própria experiência, uma vez que, após concluir a graduação em economia, Hayek fez mais dois cursos – de pós-graduação em direito e ciência política – na então prestigiosa Universidade de Viena. Quem lê Hayek, Mises e os demais autores da Escola Austríaca de Economia, constata, desde os primeiros parágrafos, que está diante de obras que se destacam pela abordagem teórica inter e multidisciplinar e por vasta cultura. A economia, assim vista, como uma ciência social, vai muito além de seu poderoso instrumental técnico-analítico – as técnicas econométricas modernas – para propiciar também importantes insights sobre a natureza e o sentido da ação humana. Mais ainda, a metodologia adequada para o estudo da economia é bem diferente da que se tornou corrente na profissão.

Nesse sentido, podemos dizer que sua formação humanística e escolástica como seminarista fez com que Roberto Campos tivesse como elemento habitual, em sua vivência intelectual, a compreensão da complexidade das relações sociais e o diálogo permanente que as ciências sociais devem manter entre si, fatores que, anos mais tarde, fizeram com que, dentre todos os economistas brasileiros mais famosos, ele fosse o único (com exceção do decano Eugênio Gudin) a conhecer e a praticar os ensinamentos da Escola Austríaca. O “Dr. Roberto” ou “Professor Campos” (como o chamava Gilberto Paim, seu principal assessor desde 1966), mais do que um mero economista, era um humanista. Ao que acrescento, sem receio de errar: um grande humanista!

Seu pensamento, naturalmente, evolveu ao longo de sua vida e, como de hábito, foi de certa forma influenciado por um ou outro modismo que, com o casamento de sua experiência com a inteligência, soube descartar no futuro. Sim, Campos – caro leitor – passou, em sua busca pela verdade, por uma fase de adesão às teses de engenharia social inspiradas nas ideias expostas por Keynes na Teoria Geral. Essa influência nefanda – como ele mesmo gostava de dizer – o levou a cometer o pecado de criar o BNDES, o BNH, o Banco Central e outros monstrengos afeitos à engenharia social. Quando veio a maturidade, especialmente ao desempenhar a função de embaixador em Londres, onde promovia tertúlias com Hayek e outros liberais de peso no cenário cultural europeu, na sede da embaixada, Campos aderiu à defesa aberta do livre mercado sob a inspiração da Escola Austríaca. E referia-se sempre aos quasímodos que criara como “pecados de sua juventude”... Note-se que, já em 1959, demitiu-se tanto da coordenação do plano de metas de JK, de inspiração cepalina, como da presidência do então BNDE, desligando-se completamente do governo que, ao prometer em cinco anos avançar cinquenta, terminou gastando naqueles cinco anos o que deveria ser gasto em cinquenta.

Para atestar tal mudança de atitude perante a visão da economia, acredito que apenas uma de suas frases famosas seria suficiente: “É enorme a brecha entre os objetivos idealizados na legislação de 1964 e as realidades de hoje. Concebido como um anjo Gabriel, o Bacen (Banco Central) virou um Frankenstein. Por isso, quando me perguntam se sou ou não a favor da ‘independência’ do Bacen, minha resposta é de tipo existencial: será que o monstro deve existir”? Mas vamos acrescentar outra: “A inflação é um monstro brutal e cruel que tortura particularmente os assalariados. Infelizmente, é impossível controlá-la por simples tabelamento de preços e punição dos especuladores.”

À medida que ia amadurecendo, sua cultura e inteligência excepcionais paulatinamente o iam transformando em um inimigo cada vez mais ferrenho da inflação e dos controles de preços (entre os quais o das taxas de juros). Foi um combatente perseverante da inflação e várias vezes ouvi pessoalmente dele que a estabilidade monetária é o principal dos instrumentos de justiça na sociedade, mas, infelizmente, sua voz clarividente ficava quase sempre abafada pela charanga dos economistas heterodoxos, pela fanfarra dos jornalistas esquerdistas e pela charamela dos beneficiários das transferências de renda dos pobres para os amigos do rei eleitos pela venda de facilidades, ineficiência e corrupção características das políticas públicas.

Se é verdade que, ao tentarmos classificar a que corrente da teoria econômica Campos pertencia nesse seu xurdir contra a inflação, encontraremos elementos de Friedman, Buchanan e Hayek, também é certo que ele foi um verdadeiro filósofo do pragmatismo, aquilo que os economistas mais arrogantes da mainstream chamam pejorativamente de um intuitivo. Bendita “intuição” que o levava a identificar a causa da inflação, suas consequências e – fato raríssimo no Brasil, como disse Gilberto Amado – ligar as primeiras com as segundas.

Em seus últimos quinze anos – período em que com ele convivi –, contudo, Campos cada vez mais me parecia se aproximar dos ensinamentos de seu amigo Hayek, a ponto de ter escrito no prefácio à segunda edição de meu livro Economia e liberdade: a Escola Austríaca e a economia brasileira (o primeiro sobre a Escola Austríaca publicado no Brasil, em 1997) que a estabilidade da moeda é condição necessária para o crescimento e o progresso e que “o verdadeiro insumo do progresso resume-se na palavra liberdade: liberdade de criar, de gastar, de poupar, liberdade de crescer, enfim, sob um clima de respeito aos direitos dos cidadãos”.

Em várias conversas em sua belíssima biblioteca, pude absorver incontáveis conselhos e constatar suas características hayekianas, porque estava claramente convicto que os ciclos econômicos são provocados por poupança de menos e investimentos de mais, vale dizer: por expansões artificiais da moeda e do crédito por parte do governo e do sistema bancário (não lastreadas em disposição maior para poupar por parte dos indivíduos e empresas), que tais incrementos provocam um boom passageiro, mas que é seguido por uma quebra da coordenação entre consumo e investimento, o que leva à recessão com inflação. Por isso, assim como não é possível escolher entre comer demais e ter indigestão, não existe dilema entre inflação e desemprego, porque é a própria inflação que causa o desemprego e os ciclos econômicos manifestam-se no setor real da economia, mas são provocados por fatores monetários. Trocando em miúdos, é sempre o Estado o culpado pelas crises cíclicas, ao criar moeda sem lastro e estabelecer taxa de juros abaixo da que o livre mercado estabeleceria. E só existe uma causa para a inflação: a expansão de moeda sem lastro, sendo que essa própria expansão já é a inflação, que dará no futuro origem a quedas no valor da moeda.

Destaco – como já sugeri – que, embora não possamos classificá-lo como um austríaco em estado puro, nos felizes anos em que tive o privilégio de desfrutar de sua amizade e companhia, mostrou-se sempre simpático à tese hayekiana, posteriormente elaborada por George Selgin e Lawrence White, do free banking de que os bancos centrais não devem ser os monopolistas na emissão de moeda e de que se deveria buscar um sistema competitivo entre moedas. Constatação bastante significativa quando se tratava, simplesmente, de um dos fundadores do banco central brasileiro e velho simpatizante de Friedman e dos monetaristas, que advogavam o poder dos bancos centrais de estabelecerem metas rígidas de controle da oferta monetária.

No que diz respeito à macroeconomia, teoria monetária e da inflação, bem como à metodologia adequada para se estudar a ciência econômica, o Professor Roberto parecia vaticinar a visão dos austríacos atuais, como Mario Rizzo, de que “o melhor aprendizado que você pode fazer de economia é o de desaprender aquilo que lhe foi ensinado como verdade e que você aceitou como tal”. Também nesse campo foi um profeta do bom senso.

Mesmo com as inúmeras lições da história e dos males produzidos pela experiência da superinflação movida pela correção monetária crescente, não são poucos os economistas que ainda não hesitam, em pleno ano da graça de 2017, em concordar infantilmente com o palpite infeliz de que um pouco de inflação e taxas de juros artificialmente baixas estimulam a atividade econômica. E não há a menor dúvida de que o reconhecimento de que a austeridade fiscal propugnada por Campos sempre foi um ponto crucial defendido por liberais da estirpe de Gudin, Gouveia de Bulhões, Friedman, Buchanan, Mises e Hayek.

Não há qualquer imprecisão na afirmativa de que o pensamento e os ensinamentos de Campos foram uma potente lanterna na popa, a iluminar com ideias o obscurantismo das teorias ditas “desenvolvimentistas”. Assim como que, decorrido um século de seu nascimento e dezesseis de sua morte, ele faz muita falta no combate à escuridão que teima em infectar o cenário intelectual brasileiro, latino-americano e, mesmo, mundial. Homens de seu calibre sempre fazem falta e não devem ser comparados, mas separados.

 

 

 

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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